Quinta-feira, 5 de Março de 2015

Uma história de salteadores (II)

(Continuação do post anterior)

 Adrião estabeleceu então uma estratégia, para não voltar a cair na mesma situação. Faltou à feira seguinte para poder fabricar mais material que levaria duas ou três semanas mais tarde à feira, mas usando de astúcia.

Assim, na próxima feira aonde foi, levou uma quantidade de produtos semelhante à que normalmente levava e que ia à vista na carroça e, escondidos dentro duns sacos e debaixo duns molhos de feno (para alimento da mula) quase outro tanto material. Como de costume vendeu praticamente tudo, mas quando se preparou para regressar, pôs a descoberto o que até aí estava escondido e escondeu a maior parte do dinheiro realizado, levando na bolsa só uma pequena parte. O esquema estava, caso voltasse de novo a ser assaltado, em dizer que a feira tinha sido fraca e que não tinha vendido quase nada, como podiam verificar pelo material que trazia de volta.

E iniciou a viagem de regresso. E mais ou menos no mesmo local o bandsai-lhe ao caminho. Quando se preparava para lhes entregar a bolsa, com grande espanto seu, os salteadores devolveram-lhe o dinheiro que lhe tinham tirado da outra vez, com a recomendação que continuasse a portar-se bem e sem dizer nada a ninguém.

A partir daí Adrião deixou de ter cuidado e deixou de esconder as coisas. E durante muito tempo, ora era assaltado ora lhe restituíam o dinheiro “sacado” no encontro anterior. Quer dizer, passou a funcionar como o Banco dos salteadores, a quem concedia crédito “emprestando” sem juros.

O tempo passou, a vida foi correndo, a “conta corrente” Adrião/Bando continuava a ser movimentada, até que um dia…

Estavam as contas “saldadas”, de maneira que quando lhe saltaram ao caminho ele puxou logo pela bolsa para a entregar, quando eles lhe disseram: “Não, hoje não é nada disso. Salta da carroça e monta este macho que aqui temos”.

“Mas…”- ainda ele disse, mas foi logo interrompido. “Sem conversas faz o que te estamos a dizer”.

E não teve outro remédio, pois os outros eram 4 ou 5 e armados e ele era só um e tinha mulher e filhos em casa.

Durante a caminhada Adrião pensou o pior. Claro que nessa altura ele já tinha contado, embora pedisse o máximo segredo, à mulher e a um ou dois irmãos o que lhe estava a acontecer. E quem lhe diria, pensava ele agora, que nenhum deles tenha contado a outro ou a outros e que o “segredo” já fosse do conhecimento da guarda e que esta…

Nem queria pensar em semelhante coisa, mas a verdade é que não pensava noutra coisa. Ou melhor, pensava sim nas consequências.

Até que chegaram ao destino, disseram-lhe para desmontar, tiraram-lhe a venda dos olhos e viu-se rodeado por uma dúzia de homens que o miravam e lhe sorriam.

Resumindo: era o convidado de honra de uma festa do bando, havendo um porco a rodar no espeto para a “festa” e um pipo de vinho ali ao lado.

O Chefe do bando agradeceu-lhe a “cooperação” que lhes vinha dando (forçada, pensava ele com os seus botões), pois muitas vezes os tinha tirado de dificuldades quando o “negócio deles atravessava períodos de crise” (onde é que eu já ouvi isto, penso eu agora).

Porco comido, vinho bebido, festa acabada, vendaram-lhe outras vez os olhos e puseram-no de novo na estrada onde a carroça e a mula o aguardavam. Assim regressou a casa nesse dia.

Esta é a história que ainda hoje “corre” entre alguns membros da família de Adrião. Alguns acrescentam-lhe uma variante. Segundo essa versão, eles que no fim da “festa” lhe terão dito “ e agora passa para cá uns tantos “réis” para pagar a despesa".

Eu que sou um dos que sabe esta história familiar, na qualidade de bisneto de Adrião, não acredito na variante, a ter em conta o comportamento do bando.

Muitos são hoje os descendentes deste honrado e competente ferreiro, pois deixou 4+1+4=9 filhos, da qual descendência, eu só conheço pessoalmente uma pequena parte. (Suponho que é a única parte que sabe esta história).

Talvez qualquer dia eu conte aqui a história daquele “1” que aparece ali na “soma”.

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.

E tu lince, tens alguma história semelhante dum qualquer teu antepassado, ou nem antepassados tens? És filho dalguma inseminação artificial, não?      

publicado por Carapaucarapau às 14:29
link do post | favorito
De maria teresa a 6 de Março de 2015 às 10:51
Ó Carapau, Carapau... há cada coincidência .conheço uma história muito parecida mas .. . isso agora não interessa nada!

:) :) :)

Beijinhos operculares normalizados


De Carapau a 8 de Março de 2015 às 22:25
Se calhar é esta a história. Admito que possa haver várias histórias semelhantes e eu aqui não sou historiador, só re-contador desta história. "Oficialmente" esta história é a que tem sido transmitida na família.
Na altura eu ñão estava lá. :))
Bjo.


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