Quinta-feira, 25 de Setembro de 2008

Uma história das Arábias

 

 

Tinha sido mesmo um camelo.

Meter-me assim pelo areal afora julgando que ia ser uma caminhada estimulante. A princípio até foi. Pela beira-mar, pela areia molhada e compacta a caminhada foi fácil. Depois a maré foi subindo, eu cada vez mais longe do ponto de partida, a volta estava a ser penosa, a patinar na areia solta. Nem uma sombra, nem uma gota de água. E em redor não se avistava ninguém nem ao menos uma barraca de pescadores onde pudesse matar a sede. Lá ia arrastando os pés como podia, tentando pensar em coisas agradáveis, para esquecer o tormento que estava a ser a caminhada de regresso.

Não sei bem por que razão, mas a primeira coisa que pensei foi em sultanas. (Não nas mulheres dos sultões, que ali à torreira não me iam servir de nada. Não iriam? Fica a dúvida…). Primeiro até pensei em passas de uvas, mas depois as grainhas não me agradavam e passei para as sultanas. Essas não têm grainhas. Depois pensei que o açúcar das sultanas ainda me ia fazer mais sede e complicar mais a vida. Depois pensei nas garrafas de água que ainda na véspera tinha ido comprar ao supermercado e que estavam lá em casa à minha espera. Se eu lá chegar…

Exagero! Claro que vou chegar, só que vou sofrer como um camelo. Mais que um camelo certamente, que esses armazenam líquidos para se precaverem. Camelo estava a ser eu. Camelo, burro, vamos a ver se não chego a avestruz e não meto a cabeça debaixo da areia. Aproximo-me do mar e refresco-me um pouco com a água. Foi numa dessas alturas que ouvi umas gargalhadas vindas da água. Uma, duas vezes…

Olhei: com a cabeça fora de água - cabeça azulada com os olhos a brilhar de gozo – vi o Carapau. Por duas vezes aflorou à tona da água, por duas vezes gargalhou. Respondi-lhe como convinha: mandei-o àquela banda. Desapareceu. Deve ter ido mesmo.

Fiquei outra vez sozinho, com a areia, o calor e uns quilómetros pela frente. Continuei a andar e remoer uma vingança: quando chegasse a casa ia inventar qualquer coisa para mandar ao Carapau. Afinal foi ele que me meteu nesta alhada de abrir o blog e de ter de escrever qualquer coisa de vez em quando. Eu a penar, e ele à fresca de volta das navalheiras e à espera da prima, que, ou não lhe liga nada ou fá-lo sofrer. Se eu não tivesse já visto umas fotos dela, por sinal bem sexy, até diria que era uma invenção dele.

Mais tarde acabei por chegar a casa, estoirado, mas mesmo assim com forças para escrever este relato que vou mandar para o peixinho publicar.

Chamei-lhe “Uma história das Arábias”, porque tem todos os ingredientes: muita areia, muito calor, pelo menos um camelo (dois se contarmos com o Carapau), sultanas, uma prima que pode fazer de odalisca, falta de água, miragens (pois estou na dúvida, agora saciada a sede, que tenha mesmo visto o Carapau), e duas palmeiras. As palmeiras aparecem só agora para dar mais cor ao cenário e podem ser aquelas duas que vejo ali no jardim…

E por hoje é tudo. Vamos a ver como resolvo o próximo…

 

 

Nota do Carapau:

 O sol fez-lhe mesmo mal...até delirou e viu coisas...Coitado   dele!

 

publicado por Carapaucarapau às 18:15
link do post | comentar | favorito
2 comentários:
De Maria Araújo a 30 de Setembro de 2008 às 09:09
Gostei.
Bj.


De Labirinto de Emoções a 20 de Novembro de 2012 às 21:24
Eu disse que andava a "picar" e que me ria cada vez que lia...pois a pesca mais uma vez foi frutuosa e diverti-me que me fartei...
Carapauzito mesmo inexperiente...para as caminhadas, sejam elas quais forem, a garrafita de agua "doce" vai sempre na mãozinha, quiça entadada nos calções... para refrescares os interiosres que os exteriores com um bom mergulho fica resolvido.
Ou seja... chegou a casa o carapau já grelhado pelo braseiro solarengo...
Beijocas...da Alfacinha de uma figa...:-))))


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Novembro 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
22
23
24

25
26
27
28
29
30


.posts recentes

. Pó e teias de aranha

. Aleluia!

. Dignidade

. Balanço

. Outros Natais...

. A dúvida

. Promessas...

. Pulítica

. O não post...

. Quem sai aos seus ...

.arquivos

. Novembro 2018

. Dezembro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

blogs SAPO

.subscrever feeds