Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2013

A Raposa e o Zelador

 Acontecem coisas na vida dum carapau que nem uma sardinha enlatada consegue compreender.
Há uns meses atrás comprei “O romance da raposa”, do Aquilino Ribeiro, para oferecer. O livro foi escrito a partir de uma história que o autor contava ao filho e é uma “história para crianças”, se assim o podemos designar. Há uns anos atrás, eu já tinha oferecido o mesmo livro a outra pessoa. Desta vez, já depois de o ter comprado, ponderei melhor e acabei por o guardar por mais um tempo, pois achei que ainda seria cedo apara o oferecer. “Daqui a um ano” pensei eu na altura e guardei o livro na “biblioteca”. Há dias achei que era altura de o entregar “a quem de direito”, procurei-o e não o encontrei. A dita Raposinha era levada da breca, mas não tinha asas. Logo, voar não voou. Levei-o para algum outro sítio?

Puxei pela mona (mona é a cabeça do carapau, que muita gente “deita fora”) a ver se me lembrava de qualquer coisa e nada. O livro sumiu. Também não podia aceitar essa ideia e vá de virar a “biblioteca" do avesso à procura do bicho. Mas o bicho não apareceu, pelo menos até hoje. Nestas andanças de “procura aqui procura ali” acabei por me perder a desfolhar alguns livros que já li há muito e às tantas veio-me à mão um livro de contos de W. Somerset Maugham, já bastante antigo, e recordei-me de um conto muito conhecido dele. Desfolhei-o e reli-o. Este conto tem sido glosado em vários tons e circulam na Internet algumas adaptações do mesmo. À minha caixa do correio já veio parar uma dessas adaptações. Mas o conto original é a do autor inglês acima citado. É a história dum homem que era zelador duma igreja em Londres, que depois de uns anos de trabalho foi despedido, porque o novo padre “descobriu”que ele não sabia ler nem escrever. Na mesma tarde em que lhe comunicaram que não podia continuar a ser o zelador da igreja, o nosso homem deambulou pelas ruas, antes de voltar para casa, a pensar na sua nova situação. Às tantas deu-lhe vontade de fumar (habitualmente não fumava, mas em certas ocasiões apetecia-lhe uma “passa”) e procurou um local para comprar tabaco. Não encontrou nenhuma tabacaria nas redondezas e pensou que talvez fosse um bom sítio para instalar uma. Dias depois encontrou na zona um local apropriado para alugar, consegui-o e no mês seguinte já explorava a tabacaria. Algum tempo depois, vendo que o negócio era rendoso, pensou em montar outra. E poucos anos depois era dono duma rede de tabacarias por toda a Londres.

Um dia por semana fazia a “ronda” a recolher o produto das vendas e depositava-o no banco.

Um dia, já a conta estava elevada, o gerente do banco chamou-o e conversou com ele sobre o dinheiro que estava ali acumulado, sem render. O homem disse que não queria correr riscos e que não percebia nada de investimentos, ações, dividendos e coisas que tais e o gerente disse-lhe que o banco trataria disso tudo e de lhe administrar o dinheiro. Ele, o ex-zelador só teria que assinar os documentos. “E como saberei eu o que assino e se me estão ou não a enganar?”. “Lendo os papeis antes de assinar”- respondeu o gerente. “Mas eu não sei ler. Nem ler nem escrever. Só aprendi, e há pouco tempo, a fazer o meu nome”.

O gerente abriu a boca de espanto e fez esta observação: “Então quer dizer que desenvolveu esse importante comércio e juntou uma fortuna sem saber ler nem escrever? Meu Deus, que não seria o senhor agora se tivesse aprendido a ler e a escrever?”

Calmamente, com um sorriso nos lábios, o homem respondeu:

“Isso posso eu dizer-lhe: seria zelador na Igreja de St. Peter, em Neville Square”.

E foi assim que a minha perseguição à Raposinha finória me levou a reler e a contar a história do zelador.

Quanto à raposa fujona…lá terei de ir “abater” outra a uma livraria.

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 13:50
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De Rafeira a 22 de Fevereiro de 2013 às 01:27
Olá seu carapau que aviva memórias.....Quando era criança a minha avó lia-me um livro de contos, quase que juro que era do S. Maugham , não me lembro da "história", sei que era de um pássaro que cantava muito bem, apanharam-no e meteram-no numa gaiola, o coitado deixou de cantar, após vários incentivos sem efeitos práticos, o pobre desabafou ... não posso cantar se não for livre e se não cantar morro.....a frase, quase que juro que era esta, já procurei esse livro "de balde" Beijinho


De Carapau a 22 de Fevereiro de 2013 às 15:20
Olá! Seja bem aparecida!
Só se for a ti que avivo a memória, que a minha está cada vez "menos viva", de tal maneira que nem sei onde meti, ou se meteu, a "minha" raposa.
Dei uma desfolhadela rápida a este livro de contos, a ver se lá estava esse "teu" e, pelos títulos, não o encontrei.
Agora repara nesta coincidência: tu estás de certa maneira ligada ao Maugham. Através da tua avó em 1º lugar e agora por este pormenor que tu vais entender. O Somerset Maugham, embora inglês dos quatro costados, nasceu em Paris e lá viveu até aos 10 anos de idade, quando foi para Inglaterra.
Estás a ver a "dupla ligação"?
Aparece sempre.
Bjo.


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