Quinta-feira, 31 de Julho de 2008

Petrarca (2ª parte)

 

(2ª parte - 4 anos depois, no jardim do 37)

 

- Tu daí vês a miúda?

- Vejo. Está descansado que está a brincar com o Ovídeo.

- Mas não confies totalmente nele porque, lá por ser teu filho, ainda é muito novo para tomar conta da Petra.

- Tu gostas muito dela, não gostas? Também não admira. Se não fosses tu ela não estaria aqui. Até lhe puseram o nome que tem em homenagem a ti.

- Ora…

- Já te disse mil vezes. Eu ouvi falarem nisso…

- Já pensaste na volta que isto tudo deu por causa da miúda?

- É verdade! O polícia juntou os trapinhos com a médica, adoptaram a miúda, nós estamos juntos, já tivemos duas ninhadas de filhos…

- Foi a sorte grande que saiu à miúda… e a ti.

- A mim?

- Sim, sim a ti. Desde que o meu dono veio para cá, deixaste de ir ao veterinário e recuperaste a alegria de viver.

- Grande alegria! Sempre de barriga cheia e a ter de te aturar e aos pequenos…

- E não gostaste não? E também não os aturaste muito tempo. Levaram-nos…só nos deixaram o Ovídeo.

- Talvez seja melhor assim. Muitos cães juntos só dão zaragatas.

- E depois sabes que estão bem e vem-nos visitar de vez em quando…

- Lá isso… Só a Lolobrigida é que eu não vejo há muito tempo.

- Mas sabes que está para fora e qualquer dia volta.

- Espera um bocadinho. Estão a chamar-me. É o Faísca…

- Não respondas a esse cão vadio. Olha que…

- Respondo, respondo que sou bem-educada. Vou ali à sebe para ver o que ele quer.

- Tu não vais…És mais teimosa que uma cadela…Não tem emenda esta Marilyn…

- Que estás a resmungar? Não tem emenda quem?

- O que é que ele queria?

- Tens alguma coisa com isso? Mas que mania essa de te meteres na minha vida…E logo tu…

- Logo eu, o quê?

- Nada. Cala-te boca…

- Olha a miúda a tentar abrir o portão. Tenho de ir lá.

- Não vale a pena. Ela é ainda pequena não chega ao fecho. Importas-te mais com ela que o pai e a mãe…

- Que a mãe com certeza, senão não a tinha abandonado…

- Não era dessa que eu estava a falar.

- Chega-te aqui ao pé de mim, querida Marilyn.

- Hum… que é que tu queres? Não venhas com a conversa do costume…

- Até parece que não gostas das minhas conversas… Mas agora o caso é outro.

- Então o que vem a ser.

- Tens de prometer que não contas a ninguém. Nem a nenhum dos teus filhos.

- Também são teus!

- Isso agora!

- Mau. Que queres dizer com isso? Não te admito essas insinuações. Sabes que só fui cadela dum cão. Por acaso um senhor cão, mas que está a ficar cada vez mais chato e difícil de aguentar. Qualquer dia mando fazer testes de DNA para não vires com essas desconfianças...

- Que é isso do DNA?

- Sei lá…Ouvia dizerem isso nas telenovelas, quando eu tinha tempo e me deixavam vê-las. Agora tenho que te aturar…

- Ain , ain, ain… Gosto de te ver zangada. Ficas ainda mais bonita.

- Está bem, disfarça. Mas vais-me contar essa história ou não?

- Primeiro promete que guardas segredo.

- Absoluto! Palavra de cadela.

- Não tencionava contar isto a ninguém, mas para veres quanto confio em ti, aqui vai.

- Desata essa língua. Já estou em pulgas.

- Vai-te coçar lá para longe que eu sou alérgico…

- Deixa-te disso. Conta lá!

- Aí vai. Sabes que eu conheci a mãe da Petra?

- Não me digas! Não acredito! E ficaste calado?

- Eu explico. Três ou quatro dias depois de ter descoberto a miúda no caixote do lixo…

- Ainda me lembro desse dia! Estavas todo vaidoso e eu fiz-te companhia.

- …eu fui dar uma volta pelo campo com o meu dono, como fazíamos muitas vezes.

- Foste sempre um sortudo. E eu aqui presa…

- Não me interrompas senão não conto mais.

- Tá bem, conta.

- Como disse, íamos pelo caminho fora e de repente senti um cheiro que me lembrou de repente o da Petra que eu tinha farejado uns dias antes. Fui atrás dele e descobri uma mulher que parecia que se estava a esconder. Nem pensei. Ladrei daquele jeito que tu sabes que faço quando descubro alguma coisa importante.

- Até estou a ficar arrepiada…

- A mulher deu um grito com medo, o meu dono chamou-me também aos gritos e disse-lhe para ela ter calma que eu não lhe fazia mal. Nunca me tinha falado daquela maneira. Caí em mim e calei-me. Fiquei só a rosnar baixinho, ofendido. Era a mãe da miúda!

- Tens a certeza?

- Duvidas?

- Se tu o dizes. Com esse nariz nunca te enganas.

- E então naquele tempo… Não me escapava mesmo nada.

- E como era ela?

- Bonita. Aloirada. A Petra é a cara dela.

- E tu porque te calaste?

- Sabes que pensei muitas vezes nisso. Foi o meu instinto de cão. Percebi que o melhor para a miúda… olha nem sei bem explicar.

- Calculo…

- Bem…vou dizer-te tudo o que se passou naquela altura. A maneira como o meu dono gritou para mim - nunca o tinha feito assim – o modo como olhou e falou para ela…houve ali qualquer coisa de estranho. Eu tive o pressentimento que ele percebeu logo o que eu tinha descoberto e não quis que eu avançasse…Então calei-me.

- Seria?

- Até hoje estou convencido disso. E tudo o que tinha acontecido nesses três ou quatro dias e o que acabou por acontecer mais tarde, parece que me dão razão. Nesses três ou quatro dias ele já tinha falado com a tua dona várias vezes, com muitos sorrisos de parte a parte (até aí nem bom dia nem boa tarde, lembras-te?). Parece-me que nessa altura ele já pensava no que veio a acontecer…

- Quem havia de dizer? Um solteirão daqueles…

- E a tua dona? Não era também uma solteirona chata e emproada?

- Continuas a não a gramares, Petrarca!

- Nunca mais me hei-de esquecer daquela vez…e das pedras…Mas enfim, não morro de amores por ela, mas como agora me trata bem e trata bem da miúda e o meu dono gosta dela…já enterrei o machado de guerra há muito, tu sabes.

- Ena! A falares que nem o Petrarca! Muito bem.

- Como é que sabes como falava o Petrarca?

- Essa pergunta é boa. Se tu não fosses tão ciumento eu diria que deve ter sido uma brincadeira do Carapau…

- Mau!

- Esquece. Agora foi uma brincadeira minha… Mas diz-me uma coisa: nunca mais viste a tal mulher?

- Não. Nunca mais. Durante semanas farejei por todo o lado e nunca mais a vi. Foi embora. Deve ter sabido que a miúda estava bem e desapareceu. Foi melhor assim para todos.

- Muito bem. Desta vez concordo contigo ... ain ain ain…

- Cadela desavergonhada que te vou morder uma orelha…

- Não mordes não, que eu fujo. Vou jogar a bola com os pequenos…

- Isso…tens cá um jeitinho… Se não fosses melhor noutras coisas já te tinha rifado…ain, ain, ain…

 

 

 

 

publicado por Carapaucarapau às 10:58
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