Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2012

Diálogo de fim de ano

 (Desta vez com a secretária)

 

- Ena! A fazer arrumações!

- Que tens tu a ver com isso?

- Até tenho! Ou julgas que não fico envergonhada quando aqui entra alguém e me vê assim toda descomposta?

- Também não é caso para exagerares. Descomposta? Pelo menos não mostras os interiores…

- Ah, então se mostrasse, atirava-me da janela abaixo.

- Hum! Tens pernas curtas, duvido.

- Nunca duvides duma secretária. Olha só para mim e vê lá o meu aspeto…

- Normal. És pequena, tens um tampo pequeno, nele não cabe muita coisa, parte tem residentes certos e fixos, logo não há lugar para grandes desarrumações.

- Julgas que não? É nas pequenas coisas que se nota isso. Dá uma vista de olhos e diz lá o que vês, para além do que chamas “os residentes fixos”.

- Não vejo mesmo nada. Tirando 2 ou 3 papelitos ali ao canto para não me esquecer de tratar duns assuntos, não noto mais nada.

- Não notas? Que faz ali aquela treta com molas e que dizes, a quem aqui vem, que é para musculares as mão e os braços? Há quanto tempo não lhe pegas? E os tais papeis a que te referiste para te lembrarem não sei de quê?

Já estão ali há meses e meses. Se calhar estão já colados ao tampo, tanta é a cola espalhada por mim de cabo a rabo.

- Também tens cabo e rabo? Olha, aí está uma coisa que nunca vi.

- Não brinques nem te desvies do essencial. O meu tampo é uma vergonha, todo sujo e riscado.

- Retira o sujo e concordo com o riscado. Mas sabes porquê? Eu nem devia estar aqui a conversar contigo, mas já que me puxaste pela língua, aí vai. És uma simples secretária de pinho, envernizada é certo e só eu sei quanto me custaste, mas de qualquer maneira és fraca, qualquer coisa te risca, com verniz de 3ª deve ter sido a tua pintura.

- Não ofendas as minhas origens. Sabes bem que sou descendente da mais ilustre família dos pinheiros, a Pinus Pinaster, não sei se conheces, e vivi sempre numa zona muito importante, onde a minha família abunda…

- Família com bunda então, não sabia.

- Não tiveste gracinha nenhuma, essas tuas piadas já estão mais gastas e esfarrapadas que o meu tampo, melhor seria tratares de mim, quem sabe se uma demão de bom verniz não faria milagres.

- Perdia verniz, tempo e dinheiro. Quem torto nasce…

- Tu não me digas uma coisa dessas. Antes de ser secretária era um dos Pinus mais Erectus lá do pinhal…

- Parabéns, mas não se nota nada, aliás aqui a maior parte de ti não está ereta mas deitada…

- Tu e os teus trocadilhos baratos.

- Barata é que não ficaste nada, mas enfim, não gosto de falar em dinheiro quando falo com secretárias…

- Nem te respondo, mas faço-te só uma pergunta: porque não me dás mais uma “limpeza profunda”, foi assim que lhe chamaste da outra vez, com aquele produto que compraste? Fiquei um bocado mais apresentável e cheirosa…

- Sou eu que decido isso, mas já nem sei onde o pus.

- Talvez numa das minhas gavetas, atulhadas até ao cimo, onde guardas tudo e onde não consegues encontrar nada.

- Até que enfim disseste uma coisa acertada. Por isso mesmo eu estava agora a tentar pôr alguma ordem nelas, mas interrompeste-me logo ao princípio, pus-me aqui a dar-te troco e vejo-me obrigado a adiar esse trabalho…

- Tu não me digas que mais uma vez…

- …porque vou ter de sair, a minha vida está lá fora e não aqui amarrado a ti.

- Ah! Ah! Gosto de ti porque és um adorável mentiroso. Diverte-te que eu aqui fico entregue à minha tristeza de secretária abandonada! Mas eu sei que acabas por voltar.

- Voltarei sim, até mais logo.

- Olha lá, satisfaz-me só um pedido.

- Diz lá.

- Está a entrar um novo ano, tira dali aqueles tais papéis que seriam para te lembrar de não sei o quê (suponho que tu também já não sabes) e atira-os para o caixote que está aqui mesmo por baixo de mim. Sempre entrava o ano com outro aspeto, já que no essencial vai ficar tudo na mesma.

- Pedes com tão bons modos, que te vou satisfazer o pedido. Repara: os três papéis rasgados... e agora este aqui novo, que os vai substituir. Quem é amigo, quem é? Bom ano para ti!

 

E Bom Ano também para as visitas do blog, quer venham por engano, quer venham ao engano! (Aqui, eu e a secretária sorrimos).

 

 Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 13:38
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De Teresa Santos a 31 de Dezembro de 2012 às 19:27
És tão mauzinho! Nem a pobre secretária - em vias de se suicidar -, escapa aos teus desatinos e ofensas.
Porque não a tratas com o carinho e atenção que merece?
Tens prazer em lhe recordar a sua origem humilde (isso pensas tu, que ela é originária de parentes de nobre estirpe!) mas usa-la de forma infame. Não só a maltratas com riscos, feitos sabe-se lá com quê, como ainda a empanturras de papeis e papelinhos que não servem rigorosamente para nada.
Perante isto, sugiro à ofendida, que lance uma petição no sentido de serem banidos todos, mas todos, os carapaus que conspurcam as nossas águas.
Disse.
Vinha desejar bom ano, mas perante este atentado ao respeito à Sr.ª D.ª Secretária, retiro aquilo que não disse.

Abraço? NEM pensar!!!!


De Carapau a 2 de Janeiro de 2013 às 19:44
Quem não me conhecesse diria que sou pior que sei lá quem.
A verdade porém é que a própria secretária segrega lágrimas de saudade quando me afasto dela algum tempo. (Cá para mim, aquilo são gotas de resina, que ela ainda deita quando o sol lhe bate de chapa, mas finjo que são lágrimas...)
A prova que não sou mau, mas sim um bombom, é que te desejo um Ano de 2013 com tudo o que de melhor mais desejares, saúde à cabeça (e saúde na cabeça também porque o teu comentário é de quem não está bem :))).
E deixo aquele abraço que não me quiseste dar.
(Agora fica-te a consciência a ruminar remorsos, mas é bem feito). :)


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