Quinta-feira, 22 de Novembro de 2012

Ainda no Porto

1-A carteira

 

Um conhecido meu trabalhava num banco e tinha por companheiro de trabalho um tipo muito especial.

Ele só soube disso, no entanto, depois da mulher, um dia, ter chegado a casa e ter dado por falta da carteira. Tinha a mala aberta e a carteira tinha voado.

Recapitulando os últimos passos dados chegou à conclusão que tinha sido roubada entre a última loja e a casa, muito provavelmente no transporte público que tinha tomado. No dia seguinte o marido contou lá no banco o que tinha acontecido e no outro dia, o tal colega de trabalho chegou ao pé dele, apresentou-lhe uma carteira, para confirmar se era aquela, contou-lhe o porquê dela estar em seu poder e pediu-lhe para não divulgar a “sua” história.

E a história é esta:

O homem saía do banco, ao fim do seu dia de trabalho na baixa do Porto e ia até junto a um café de muito movimento que havia na Praça dos Aliados, onde ficava uma paragem dos elétricos (a história passa-se nesse tempo ainda) que tinha sempre muito movimento de pessoas a subirem e a descerem. O “nosso” homem encostava-se à parede e por ali ficava o resto da tarde. A fazer o quê? Olhar para as senhoras e meninas, a subirem e descerem dos elétricos para, eventualmente, ver um joelho ou outro? Na altura elas só usavam saias e havia sempre essa hipótese. Para um tarado já não era mau de todo. Mas a “taradice” do homem era outra. Era ver uns carteiristas, que faziam daquela zona o seu local de trabalho, a atuar. Eles nem suspeitavam que ele os observava e atuavam como a maior descontração. Quando um deles conseguia o objetivo, desaparecia logo do local de trabalho e só voltava mais tarde, no dia seguinte ou só daí a alguns dias, certamente em função do rendimento do “serviço”. Nunca trabalhavam todos ao mesmo tempo. E o nosso “olheiro” nunca disse nada a ninguém, muito menos à polícia. O prazer dele era ver a atuação dos artistas.

Quando o colega de trabalho lhe contou a história do roubo da carteira, nesse mesmo dia, ele chegou à fala com um dos “empresários por conta própria”, disse-lhe o que sabia deles, que não tinha nada a ver com isso, mas que precisava que lhe fosse restituída uma carteira de tal cor e com tais e tais documentos e com uma certa quantia de dinheiro, que tinha desaparecido na véspera naquela zona. Carteirinha de volta intacta e ficaria tudo como dantes, com eles a poderem atuar livremente.

E ainda no mesmo dia, à hora combinada, ele tinha a carteira em sua posse, que entregou no dia seguinte ao colega, lá no banco.

 

2- A pergunta

 

A Senhora era alta, elegante, loira, vistosa e vivia em Lisboa.

Um dia teve de ir ao Porto em trabalho e na véspera telefonou para uma amiga que lá tinha, a dizer da sua ida e da muito provável hipótese de ter tempo para a visitar, tomarem um chá e darem dois dedos de conversa.

Assim aconteceu de facto. Depois de ter tratado do assunto que a levou ao Porto, dirigiu-se para uma paragem de autocarros para se dirigir a casa da amiga. Paragem essa que servia várias carreiras, na baixa da cidade, por acaso não muito longe do local da 1ª história.

Chegada à paragem, onde já estavam outras pessoas, esperou que passasse o autocarro que lhe interessava e entretanto foi observando o “passeio” dum cavalheiro que por diversas vezes passou em frente ao local e que a olhava com insistência, “tirando-lhe as medidas”. O passeio deu-se quatro ou cinco vezes, até que às tantas ela ficou sozinha na paragem, pois as restantes pessoas embarcaram num autocarro que entretanto passou. Então o cavalheiro, dirigiu-se rapidamente para ela e falou:

- Desculpe, a Senhora é puta?

Ela percebeu então o filme todo, teve vontade de soltar uma gargalhada e, fazendo o ar mais sério que lhe foi possível, respondeu:

- Não, não sou.

O homem fez-se de mil cores, gaguejou um “desculpe, desculpe”, afastou- se a passos largos e desapareceu na primeira esquina. A cena deve ter sido, certamente, motivo de umas boas gargalhadas dela e da amiga, enquanto tomavam o chá.

Diga-se, digo eu, que em termos de eficácia, de concisão e de simplicidade de processos, a atuação do cavalheiro foi impecável.

Nada de perder tempo, vamos diretos ao assunto.

E depois dizem que em Portugal temos uma produtividade baixa…

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 15:00
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