Quinta-feira, 12 de Julho de 2012

Ouro, garantidamente...

 

 Ainda meio combalido do acidente, compadre Baltazar está em casa a descansar, quando lhe batem à porta.

Levantou-se ainda com alguma dificuldade e foi abrir.

- Boa tarde! Estou a falar com o senhor Baltazar?

- Sou eu sim senhor. Que deseja?

- Soubemos que teve um acidente quando procurava ouro…

- …só cavava no quintal, meu senhor, eu só cavava… - respondeu desconfiado de que seria o Gaspar a pedir-lhe o quinhão dele.

- Sim, sim nós sabemos disso: deixe que me apresente: sou Belchior Procura Minas, engenheiro da empresa que anda a explorar ouro aqui na zona, o senhor Baltazar já deve ter ouvido falar.

- Nisso da empresa já, até lá tenho um amigo a trabalhar, agora no senhor Belchior isso não, desculpe.

- Não tem que pedir desculpa, amigo Baltazar. Não é obrigado a conhecer todas as pessoas. Mas, dizia eu, venho aqui em representação da empresa porque soubemos da sua tentativa de procurar ouro e gostamos sempre de ajudar as pessoas empreendedoras, como o amigo Baltazar se mostrou.

- Mas eu só….

- Sim, sim, tenha calma e ouça-me.

- Venho aqui ajudá-lo e dar algumas indicações para ter algum sucesso na sua procura de ouro. Por falar em ouro, o amigo Baltazar tem alguma peça de ouro aqui em casa? Um anel, um fio…

- Pouca coisa senhor. Uma aliança e um cordãozito que um dia comprei para oferecer a uma namorada, mas ela trocou-me por outro e eu…

- Ora ainda bem. É disso mesmo que o senhor precisa para arrancar em boas condições de sucesso com a sua exploração.

- Mas eu…

- Sim, a empresa calcula que ficou um pouco desanimado com o que lhe aconteceu, mas agora com outras condições o senhor vai voltar à luta. Ora vá lá procurar o tal cordão e a tal aliança que eu já lhe ensino como fazer.

 O compadre Baltazar lá foi em busca do seu ouro, o engenheiro Belchior ensinou-lhe alguns princípios básicos de como se servir dessas peças para descobrir mais ouro no quintal (agora sem perigo porque já não havia figueira). Passou o fio pelo anel e fez uma espécie de pêndulo e foram ambos para o quintal para uma aula prática. O engenheiro Belchior ia percorrendo o quintal para trás e para a frente sempre como o pêndulo pendurado num dedo, até que chegou à zona do buraco e o pêndulo começou a oscilar “olhe para isto senhor Baltazar, o senhor é mesmo um fenómeno, vou falar lá na empresa para o contratarem, cavou no único sítio possível de encontrar ouro, o senhor vai ganhar um dinheirão com este seu dom para saber onde há ouro”.

 E depois de mais umas tantas recomendações, lá se retirou com os agradecimentos do compadre Baltazar pelo aconselhamento prestado.

No dia seguinte, mesmo ainda adoentado, voltou ao buraco, onde foi visitado pela vizinha e comadre Januária, que lhe vinha oferecer os préstimos para fazer uma sopa e que ficou muito espantada por o ver já a cavar.

À comadre, o Baltazar não escondia nada, tinha nela a maior confiança e então contou-lhe a visita que tivera na véspera e que era a razão do seu entusiasmo em recomeçar o trabalho.

- Ai compadre, compadre que não sei o que lhe diga! Olhe que “andem” por aí uns meliantes a enganar as pessoas…o compadre já viu se ainda lá têm o anel e o fio?

- Claro que tenho comadre. Fui eu que os guardei – disse já a sair do buraco e a dirigir-se para casa.

Mas não tinha. O Belchior era o do ouro e nem deu parte ao Gaspar que anda perdido por ele.

Há ouro no Alentejo sim, mas agora já não em casa do compadre Baltazar.

Nem no quintal. E figos, lá para o mês que vem, também não.

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 10:30
link | comentar | favorito
8 comentários:
De maria teresa a 12 de Julho de 2012 às 11:50
Juro que não fui eu, não me mascarei de homem para enganar o coitado do compadre, será que foste tu meu marau?


De Carapau a 12 de Julho de 2012 às 20:00
Se há alguém inocente nesta história toda sou eu. Limito-me a ser o Pero Vaz de Caminha a relatar as peripécias do achamento de ouro no Alentejo, ainda que me pareça mais com o Pedro Vais Prá Caminha...
Bjo.


De Anónimo a 12 de Julho de 2012 às 13:51
Afinal sempre havia ouro mas em casa, é claro. E agora nem em casa , nem no quintal...

Sobre o cordão e a aliança, o pobre Baltazar nem se preocupe em reavê-los, a esta hora já foram fundidos.

Pobre Baltazar, manco, sem os poucos objectos em ouro que lhe restavam, sem esperança de encontrar ouro no quintal e sem uns figuitos para lhe adoçarem a boca... só se for uma sopinha da vizinha Januária que lhe dê algum consolo!...

E assim vai o Alentejo, assim vai Portugal, assim vamos continuando a enganar-nos uns aos outros e a nós próprios.

Beijinhos




De Carapau a 12 de Julho de 2012 às 21:24
O que posso eu dizer mais?
Talvez que "há males que vêm por bem".
Bjo.

PS: Uma vez que sai sempre como anónimo, para não escrever o 2º comentário, sugiro que o assine.
(Agora já nem será preciso, já sei quem é).


De Anónimo a 12 de Julho de 2012 às 13:52
Pois, é sempre a mesma coisa... o comentário anterior foi de Tétis. Desculpa mas nunca me lembro de colocar o nome, efeitos e hábitos do blogspot!...

Tétis


De Teresa Santos a 12 de Julho de 2012 às 17:06
Menino Carapauzito,

Não é para desanimar V. Senhoria, mas esse seu amigo, valho-nos Deus, é mesmo muito pateta, isto no mínimo dos mínimos.

Senão vejamos: primeiro esqueceu-se que da mirra nunca resultaria ouro, agora esqueceu que o ouro passou a ser uma miragem.

Haja dó desse Baltazar.

Abraço (barbatanas? Pois, bem fechadinhas!)


De Carapau a 12 de Julho de 2012 às 21:30
A ambição também faz parte da bagagem do homem.
Mal se assim não fosse. Às vezes cega e não deixa ver o que é evidente, outras vezes, pelo contrário, leva-nos mais longe.
Mesmo o Baltazar? Quem sabe?
Abraço (a verdade é que se fecho as barbatanas, não consigo nadar).


De Teresa Santos a 13 de Julho de 2012 às 21:22
E morres, se não nadares? Ai é?!

Ambição positiva? Lamento informar-te, mas esse mal não aflige a criatura. Sim, a humana.

Tão desinteressada, mas tão desinteressada!...

Abraço (barbatanas abertas, ora essa!)


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Dezembro 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
28

29
30
31


.posts recentes

. E vai (mais) um...

. Pó e teias de aranha

. Aleluia!

. Dignidade

. Balanço

. Outros Natais...

. A dúvida

. Promessas...

. Pulítica

. O não post...

.arquivos

. Dezembro 2019

. Novembro 2018

. Dezembro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

.Contador de visitas

Criar pagina
Criar pagina
blogs SAPO

.subscrever feeds