Quinta-feira, 19 de Abril de 2012

Dr. Lopes (I)

                             

Há dias li ou ouvi uma declaração de alguém que, a propósito de análises ao DNA, afirmou que “anda por aí muito boa gente a chamar pai à pessoa errada”.

Nada que não seja conhecido desde sempre, como prova o velho dito “os filhos das nossas filhas nossos netos são, os filhos dos nossos filhos serão ou não”. E há outra afirmação que diz que a paternidade é uma questão de confiança.

Ao ouvir a tal declaração lembrei-me do Dr. Lopes, médico de uma pequena cidade, numa altura em que não havia o Serviço Nacional de Saúde e em que os meios de diagnóstico eram ainda escassos e caros e os poucos que já havia estavam geralmente instalados só nas três principais cidades.

O Dr. Lopes era um homem alto, seco, meio curvado que fazia lembrar, diz quem o conheceu, o ator Jacques Tati no filme “O meu tio”.

Tinha um consultório equipado com aparelho de radioscopia e para além de medicina geral era especialista em doenças pulmonares e radiologia.

Dele se contavam, e ainda contam, histórias do arco da velha, a maior parte verdadeiras, mas outras já entrando no mundo do mito. Era conhecido e reconhecido dez léguas em redor e ele também conhecia meio mundo e o relacionamento familiar da grande maioria dos seus doentes, o que muitas vezes lhe facilitava o diagnóstico, mesmo antes de observar o doente.

Um dia entrou-lhe pelo consultório um cavalheiro dos seus 40 anos que ele nunca tinha visto. O doente disse ao que ia, apresentou as suas queixas e o médico começou por lhe pedir para tirar o casaco e a camisa para o auscultar. O homem assim fez e uma luzinha começou a brilhar na cabeça do ilustre clínico. Já tinha visto aqueles gestos. Os jeitos e trejeitos que o homem fez ao despir-se, não era a primeira vez que os via. Começou a pensar quando e a quem os teria visto, pois aquele pessoa era a primeira vez que entrava no consultório. Depois da auscultação começou a elaborar a ficha clínica. Quando o doente disse donde era natural, uma faísca iluminou a memória do médico. Os gestos eram dum tal padre Oliveira, entretanto falecido, mas que tinha sido pároco, durante muitos anos, na aldeia donde era natural o paciente. O padre também fora doente do dr. Lopes recorrendo a ele, nos últimos anos de vida com frequência, para pedir solução para alguns problemas que, supostamente, um padre não devia ter. Depois ele disse o nome de quem era filho e o médico disse-lhe que conhecia a família dele há muitos anos. Aproveitou para saber como estavam eles de saúde e, depois da medicação apropriada, despediu-se do doente.

 Alguns anos mais tarde o médico contou esta história a um amigo, acrescentando, que a Senhora Mãe do tal doente, quando se ia confessar, omitia certamente muitos pecados, por serem já do prévio conhecimento do confessor. E soltava uma estridente gargalhada, como era seu hábito, para além de aproveitar para lançar achas para a fogueira das suas convicções anticlericais.

O próximo post será, em princípio sobre outra das suas histórias.

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 14:49
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10 comentários:
De Maria Araújo a 19 de Abril de 2012 às 22:23
Bom tinhamos aqui uma cópia do Padre Amaro (não a do crime). Quantos crimes de prazer se cometeram? Alguns desses senhores vivem, e bem.
Beijinho


De Carapau a 21 de Abril de 2012 às 15:20
O prazer é um crime?
Só tentei mostrar duas coisas:
- que ontem como hoje, tudo se repete
- e que antes de DNA já havia quem tivesse "olho clinico" para tirar conclusões só da observação atenta.
Bjo.


De Eva Gonçalves a 21 de Abril de 2012 às 18:25
O olho clínico do médico, hoje seria confirmado geneticamente, certamente... adoro estas histórias que prendem muito bem os olhos a este ecrã clarinho que contrasta tão bem com as letras pretas expostas, rsrssrrsrs . " Pecados" da carne, continuarão a existir sempre... especialmente em quem vê a sua natural sexualidade sublimada. Também nós, leitores deste aquário, gostamos de dar gargalhadas , quanto mais estridentes, melhor! Aguardamos a próxima história :))) beijinho


De Carapau a 22 de Abril de 2012 às 14:44
Entendi perfeitamente a alusão ao "ecrá clarinho que contrasta com as letras negras". :)
Quanto ao "pecado da carne"...é o nome dum restaurante aqui perto, onde se espera que a "carne não seja fraca". E assim, depois duma boa refeição, nada como umas "gargalhadas estridentes"
para expressão a satisfação.
Neste caso a satisfação é minha pelo comentário, bem humorado.
Bjo.


De Maria Araújo a 21 de Abril de 2012 às 19:58
Olá. Eu não versei o meu comentário no ADN.
Apeteceu-me comentar o lado do padre.
Achas que eu penso que o prazer é um crime?!
Não. Mal de nós se não tivessemos prazer!
E o prazer de te ler é saudável.
Beijinho.


De Carapau a 22 de Abril de 2012 às 14:48
"O lado do padre" calculo eu qual teria sido... :))))
Eu não acho e pelos vistos nem mesmo o padre achou... :)
Certamente por falta da qualidade da carne dizemos que ela é fraca...
Bjo.


De Teresa Santos a 23 de Abril de 2012 às 18:48
Pois, pois!

Como diz o povo (grande sábio na sua "eventual" simplicidade!), é "por estas e por outras" que tenho uma pena danada dos homens!

Abraço grande, Carapauzito malvado.


De Carapau a 24 de Abril de 2012 às 18:57
Ah! Tens? Que bom!
Eu digo-lhes. :)
Abraço =mente grande. "malvada". :)


De Teresa Santos a 25 de Abril de 2012 às 21:13
Vês, como sou boazinha?!
E não te esqueças de dar o recado!

"mente grande" ou "grande mente"?

Defini-te, ok?

Abracito, pequeninito.


De Carapau a 26 de Abril de 2012 às 18:38
Tu é que saberás se mente(s) em grande ou se és uma grande mente. :)
Eu só quis dizer "igualmente".
Abraço do tamnaho do teu.


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