Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2012

O pequeno Herodoto

           

              Afonso I - o 1º duma longa lista

 

Ele era um miúdo vivaço que aprendia com facilidade tudo o que o professor dizia na escola, mas que, para além disso, tinha também de estudar fora da escola, por um motivo que ia para além da curiosidade pelo saber. Nem tinha muito a ver com isso. Tinha sim a ver com o facto do professor ser seu “vizinho do lado” e por isso todas as falhas na escola eram transmitidas, dia a dia, aos pais e isso podia trazer-lhe problemas.

Era bom em contas, escrevia sem grandes erros, fazia redações que acabavam sempre com “bendito sejam…” (quer o tema fosse sobre melões, vacas, flores, burros, reis, etc.).

Mas a partir de certa altura passou a ser também muito bom a história. História de Portugal, desde os suevos, celtas e visigodos até D. Manuel II, depois do assassinato de D. Carlos. Para ele não havia problemas nenhuns. A partir de D. Afonso Henriques, os reis iam sendo sucessivamente filhos dos anteriores. Pois se D. Sancho I era filho de D. Afonso Henriques, se D. Afonso II era filho de D. Sancho I e se D. Sancho II era filho de D. Afonso II, a história deixou de ter segredos para ele. Estabeleceu laços de parentesco entre todos eles e assim, por exemplo, D. João I era filho de D. Fernando I. O Infante D. Henrique, o das descobertas, era bisneto de D. Pedro I, o da Inês de Castro, trineto de D. Afonso IV e assim por diante (ou por atrás).

O professor nunca se apercebeu desta maneira original de encarar a história, simplesmente porque nunca lhe perguntou de quem era filho este ou aquele, senão teria uma grande desilusão.

O miúdo ia com alguma frequência a uma aldeia próxima, onde tinha família, e a partir de certa altura passou a ter os miúdos da idade dele, lá dessa terra, como admiradores incondicionais. Quando sabiam que ele estava por lá, apareciam aos bandos para se admirarem com os seus conhecimentos de história. Fulano, filho de sicrano, avó de beltrano, tio avô deste e daquele, não havia laços de parentesco que o fizessem hesitar.

A 3ª dinastia, com os três reis espanhóis, complicavam-lhe um bocado a teoria, mas ele resolveu isso, afastando definitivamente esses três da história. Sabia deles, mas não contavam para a genealogia.

Ele não fazia isto para enganar os outros. Estava convencido que era assim mesmo que funcionavam as monarquias: o poder a passar de pais para filhos.

Só mais tarde veio a aperceber-se que estava enganado e que andou toda uma temporada a enganar os outros miúdos, seus “fãs” e admiradores, que o consideravam um grande historiador, uma espécie de segundo Herodoto (reconhecido como o pai da História, aqui fica o lamiré) ainda que nem o próprio miúdo soubesse quem tinha sido este personagem, que não fazia parte da sua “lista”.

E é assim que muitas vezes as histórias acabam por fazer a História. 

 

Texto escrito de acordo com o Acordo Ortográfico – convertido pelo Lince                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                        

 

 

publicado por Carapaucarapau às 17:49
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8 comentários:
De Maria Araújo a 9 de Fevereiro de 2012 às 19:13
ahahahahah! Como eu gosto de te ler.
E no fundo não deixava de ter alguma razão.
Afinal os Filipes não eram portugueses, para quê fazerem parte da História...a não ser a queda desta dinastia que nos levou ao feriado, ahahahaha.

Beijinho


De C arapau a 10 de Fevereiro de 2012 às 18:37
E, ao que dizem as más linguas, esse feriado também vai à vida...
Quem teria sido o pai dele? :)
Bjo.


De maria teresa a 12 de Fevereiro de 2012 às 12:34
Foi a 12 de Outubro, precisamente uma semana depois da revolução, que o Governo provisório da República decretou cinco novos feriados oficiais. Entre eles estava o 1º de Dezembro que então se designava «Autonomia da Pátria Portuguesa» e foi o mais importante feriado da República até Julho de 1929, quando o Governo de Artur Ivens Ferraz passou a denominá-lo por «Restauração da Independência» e criou o feriado da Festa de Portugal a 10 de Junho.

Eu sei umas coisinhas:):):) Escusas de agradecer!


De C arapau a 12 de Fevereiro de 2012 às 19:41
Pronto, não agradeço, mas aproveito para deixar o meu parecer (importantíssimo como toda a gente sabe) sobre isto dos feriados e do acabar com alguns deles. Pessoalmente não tenho nada contra, até porque no fundo às pessoas em geral eles só interessam pelos diazinhos de sorna que permitem. Mas "se eu mandasse" (hehehe) acabava o 10 de Junho (dia da morte de Camões, bah!!!) e passava o dia de Portugal, de Camões e das Comunidades para o dia 1 de Dezembro, que também continuaria a ser o dia da Restauração da Independência.
A quem de direito, fica a sugestão.


De maria teresa a 12 de Fevereiro de 2012 às 12:21
Eu conheço uma espécie idêntica mas no feminino. Não fazia essa ligação criativa do parentesco, mas adorava descobrir os romances e coisas que não vinham nos livrinhos da escola.
Essa mania ainda existe de tal modo que delirou com o livro "Fama e Segredo na História de Portugal" de Agustina Bessa-Luís.
Não é delirante saber que se diz que "D. Sebastião era desconjuntado, com um lado diferente do outro... Mas no contorno do corpo era elegante e tão bem esmerado que parecia feito ao torno" e que aos catorze anos "era vaidoso como o pote da leiteira de Gil vicente"?

Toma lá mais um bocadinho de História (muito importante) e uma beijoca


De C arapau a 12 de Fevereiro de 2012 às 19:44
Uma aluna criativa pelo que se lê! Ainda hoje tens jeito para inventar histórias. :)
Quanto ao pote da leiteira, eu nunca o vi. Já quanto à leiteira...
Fica tu com o pote e um bj.


De Teresa Santos a 12 de Fevereiro de 2012 às 22:22
Carapauzito,

Vivaços?

Ui, é o que há mais! Fazem parte da nossa história.
Miúdos, graúdos, nem uma coisa nem outra.
Vivaços, apenas.

E fazem História, se fazem!

Abraço, Carapauzito.

P.S. não pertences ao grupo, pois não? Não me irrites!!!


De C arapau a 14 de Fevereiro de 2012 às 19:28
Ao grupo dos teus "vivaços" não pertenço não.
Agora quem era vivaço, no sentido de inteligente, vivo, observador era o miúdo em questão.
O dicionário ( o meu) não contempla a palavra, mas a ocasião é que faz a palavra e não os dicionários. :)
Nunca me irrito, nem eriço as guelras.
Abraço.


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