Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2011

Consoada especial

 

 

Tomaram um almoço ligeiro e partiram logo de viagem. O destino ficava longe, lá por detrás das serras, já próximo da fronteira com Espanha e a parte final do percurso, segundo informações que lhes tinham dado, era difícil, feita por maus caminhos. Havia ainda o problema de um deles ter de voltar sozinho para casa. A maior parte do trajeto foi feita em silêncio, cada um mergulhado nos seus pensamentos. A partir de certa altura, o “pendura” começou a tomar apontamentos que serviriam para facilitar o regresso do companheiro. Por fim lá chegaram à aldeia a que rumavam e onde nenhum deles nunca tinha ido. De acordo com as indicações que levavam, atravessaram a rua principal da aldeia, com casas dum e doutro lado e com sinais evidentes que por ali deviam abundar vacas, tal o cheiro que lhes inundou as narinas. O piso da rua também era prova disso mesmo. Depois da última casa andaram mais uns cem metros e pararam o carro junto a um portão que em tempos fora verde. Ele saltou do carro, empurrou ligeiramente o portão, viu um homem que estava no pátio, deu as boas tardes e perguntou:

- É aqui que mora o senhor Alfredo Martins?

- Sou eu mesmo. Que deseja o senhor? – Perguntou com ar desconfiado o homem.

- Venho da parte do senhor Lourenço…

- Ah! – E mudou logo de semblante. – Faça o favor de entrar.

- Vou só ali ao carro buscar o saco e despedir-me do meu amigo.

Assim fez. Entretanto o senhor Martins já tinha chamado a mulher e já tinha dado as suas ordens. Quando o homem voltou com um pequeno saco de viagem, o senhor Martins disse-lhe que era melhor entrar em casa, que começava a ficar frio.

- Eu vou já lá ter consigo. É só acabar de tratar do gado e entro daqui a minutos. A minha mulher indica-lhe o quarto.

O homem entrou na casa humilde, porém asseada, foi até ao quarto que lhe indicaram, pousou o saco e atirou-se para cima da cama, ficando quieto a olhar para o teto. Não queria pensar em nada, já tinha pensado vezes demais, mas não demorou muito tempo deitado. Levantou-se e foi até à cozinha. Sempre estava mais quente, com uma boa fogueira onde aqueciam três panelas de ferro. Disse qualquer coisa à mulher sobre a fogueira, ela disse que com estes dias e sem o fogo não se aguentava e entretanto entrou o senhor Martins.

- Sente-se aí ao lume homem, senão enregela. Já lá estavam os dois filhos do casal, que lhe arranjaram um lugar. O senhor Martins tirou as grossas botas e sentou-se também ao lume num escabelo que ficava do outro lado. Enquanto trocavam umas palavras sobre o tempo, o frio e a chuva, o senhor Martins despejou um pouco de água quente num recipiente de madeira, a mulher chegou-lhe um pouco de água fria para temperar e começou a lavar os pés. O homem assistia à operação com uma certa curiosidade. Depois a mulher deu-lhe uma toalha e ele limpou-os cuidadosamente. De seguida levantou um braço e apanhou, no rebordo da chaminé, uma tesoura de poda e começou a cortar, muito concentrado, as unhas dos dedos dos pés. Terminada a tarefa guardou a tesoura no mesmo sítio e enfiou os pés nuns tamancos de madeira.

Feito isto, voltou-se para o homem e disse:

- Vai ter de se sujeitar ao que temos para comer. Hoje é noite de consoada e é tradição a ceia ser polvo cozido com batatas e couves. Se calhar não gosta…

- Muito obrigado, gosto de tudo, mas nem vou comer grande coisa, o apetite não é muito…

Passada uma hora a mulher tinha a mesa pronta e sentaram-se todos. A mesa ficava ali ao lado da lareira de maneira que o ambiente era agradável. Quando pôs a travessa com o polvo na mesa, polvo ainda inteiro, o senhor Martins agarrou na tesoura de poda com que tinha cortado as unhas e cortou cuidadosamente o polvo em pedaços. O homem ao aperceber-se disso, foi seguindo atentamente a operação e no fim, quando o senhor Martins o convidou a servir-se, retirou o último pedaço a ter sido cortado, considerando que deste modo a tesoura já teria ficado suficientemente limpa. Lá cearam, no fim houve ainda uns fritos que a mulher entretanto fizera e só depois dos filhos se terem ido deitar é que o senhor Martins falou do assunto que trouxera o homem até ali, naquela noite de Natal.

- Amanhã temos de nos levantar bem cedo, mas durma descansado que eu acordo-o, ainda temos uns quatro quilómetros para andar a pé pelos campo, mas como é dia de Natal não vai haver problema. Os guardas não vão andar por aqui. Depois, na aldeia do outro lado, o senhor toma a camioneta da carreira que o levará à cidade onde vai tomar o comboio. Esteja calmo que vai correr tudo bem.

Pouco depois despediram-se e foram deitar-se. O homem só tirou os sapatos, deitou-se vestido entre os cobertores e foi dormitando até que o senhor Martins o chamou. Estava na hora de deitar pés ao caminho.

Despediram-se no tal “pueblo” espanhol quando a camioneta chegou e o homem entrou nela.

 

                       ***

Quinze anos depois, tal foi o tempo que o homem esteve “lá por fora”, dois dias antes do Natal, foi à tal aldeia visitar o senhor Martins. Mal parou o carro em frente ao velho portão, que estava semiaberto, apareceu o senhor Martins. O homem apresentou-se, dizendo: “faz amanhã quinze anos que aqui vim consoar com o senhor, lembra-se?”.

- Sim, agora estou a reconhecê-lo.

- Vim cumprimentá-lo e agradecer o que então fez por mim. Por motivos de segurança nunca lhe escrevi e portanto tinha de voltar cá. Aproveito para lhe dar uma prenda – e retirou da mala do carro um bacalhau inteiro, um embrulho com dois polvos e umas garrafas de vinho

Tenho também aqui umas lembranças para os seus dois filhos, que sei que estão uns homens e que estão a trabalhar no Porto.

- É verdade sim senhor, eu quando ouvi o carro até julguei que fossem eles. Estava aqui à espera, pois devem estar mesmo a chegar. Quanto às prendas só as aceito se o senhor aceitar almoçar connosco. A minha mulher está ali a fazer um cozido e o senhor não se vai negar.

- Ai não, não. E olhe que hoje o meu apetite é muito maior do era há quinze anos atrás, naquela minha aventura. Depois conto-lhe algumas peripécias e de como estive quase a ser apanhado pela guarda civil. Mas isso fica para depois do almoço, quando estivermos já bem comidos e bebidos. – E soltou uma gargalhada, acompanhada pela do senhor Martins.

Pouco depois chegaram os filhos do senhor Martins, agora já homens, e sentaram-se todos à mesa, para o almoço. Do lugar onde estava, o homem reparou que a tesoura de poda continuava no mesmo sítio…

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 12:41
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11 comentários:
De Rafeira a 22 de Dezembro de 2011 às 16:17
Bonito conto de Natal, comovi-me, nem a tesoura lhe tira o encanto, ainda o torna mais real. Obrigada e umas boas festas para ti (sem segundas intenções).
Um beijo.


De Maria Araújo a 23 de Dezembro de 2011 às 19:56
Ontem vim cá espreitar, mas não li.
Deixei para agora, depois de ter feito os fritos de jerimu (ahahaha).
Adorei o que li. És uma pessoa que sabe e tem muitas histórias para contar.
Feliz Natal.
Um beijo


De Rafeira a 23 de Dezembro de 2011 às 23:08
Fritos de jerumim?


De Rafeira a 23 de Dezembro de 2011 às 23:09
ou Jurimu, que será isso?


De Rafeira a 23 de Dezembro de 2011 às 23:17
Jerimu, as coisas que eu não sei....


De Maria Araújo a 26 de Dezembro de 2011 às 20:25
Rafeira, podemos usar as duas palavras, jerimu, jirimu ou jerimum.
Aqui no norte dizemos jerimu.

Cumprimentos




De Teresa Santos a 29 de Dezembro de 2011 às 15:40
Com licença Carapauzito.

"cantinhodacasa"

Por favor esclarece-me.
Jerimu, jirimu, jerimum. O que é? Santa ignorância a minha!!!!


De Maria Araújo a 30 de Dezembro de 2011 às 18:52
Teresa, jerimu, jirimu ou jerimum, é uma abóbora que tem cor laranja, com variações, no seu exterior, mas dento é lanranja fogo.
No google pode ver em imagens .
No Natal a tradição é fazer fritos desta abóbora e que são muito apreciados por cá.
Beijinho


De Carapau a 25 de Dezembro de 2011 às 21:55
Estive ausente dois dias e isto virou um consultório de culinária (doçaria). :)
Qualquer dia deixo aqui umas receitas.
Espero que tenham tido um bom Natal.


De Teresa Santos a 26 de Dezembro de 2011 às 18:45
Caapauzito,

E assim se ia, "a salto" , tentar a sorte noutros países.
Agora é tudo diferente, muito diferente!

Essa de cortar o polvo com a tesoura da poda e após ter cortado as unhitas , enfim...
Hábitos, singelezas, formas simples, mas genuínas de viver.

E gosto do que escreves, e NÃO gosto que escrevas tão pouco.

Bom (o melhor possível!) 2012.

Abraço, mesmo de barbatanas abertas...


De Carapau a 29 de Dezembro de 2011 às 00:41
Obrigado e também te desejo um bom 2012, ainda que à partida de bom não mostre nada. Haja saúde!
Abraço.


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