Quinta-feira, 6 de Outubro de 2011

Livros e histórias (IV)

             

Aviso: No final do post anterior coloquei, posteriormente à sua publicação, algumas fotos. Aqui fica este aviso para quem

as não viu ainda.

 

                                  

 

 “O Salário do Medo”

 

 Apareceram-me os três bastante “bebidos”. Dois eram irmãos, que apesar do seu estado, ainda conseguiam carregar o amigo, que não dava acordo de si.

Eram os três estudantes de medicina e, tanto quanto me lembro, vinham de um qualquer acontecimento “importante”. Naquela idade os acontecimentos são sempre importantes e, desde que alguém os classifique como tal, há que comemorá-los.

Hoje, a tantos anos de distância, eu diria que o amigo já vinham em coma alcoólico, pois não dava acordo de si, nem deu durante muitas horas. Foi transportado para o quarto dos irmãos e deitado numa cama. Desapertaram-lhe a camisa e decidiram-se por lhe dar uma injecção de “Coramina”, que era qualquer coisa como um murro no organismo, que fazia um cristão dar um salto. O amigo não era certamente cristão, pois nem se mexeu. Eu, que como já se percebeu, fui chamado a dar uma mão no transporte escadas acima, olhava para os três com cara de parvo. Os dois irmãos riam-se ao ver que o amigo nem reagia.

Eu vivia na mesma casa que os dois manos, mas o “comatoso” não. Estava ali, provisoriamente, a ver se ganhava condição para ir para a casa dele, sem ser de charola.

Passado pouco tempo fomos jantar. Na casa havia mais pessoas que tomaram conhecimento do que se estava a passar. Com a “sopa” os dois irmãos ficaram um pouco mais lúcidos e encarregaram-me de ficar a “vigiar” o amigo e colega. Eles teriam de sair para qualquer assunto urgente, como são todos os assuntos dos que têm um elevado teor de álcool no sangue. Era só irem tomar café, meterem umas cartas no correio e dentro de 1 hora, no máximo, estariam de volta. Eu ficava de sentinela para o caso do amigo entretanto acordar (“sim, porque ele daqui a uns minutos vai acordar”) não se sentir abandonado e saber onde estava.

Assim se fez. Montei sentinela. Para passar o tempo puxei dum livro que estava ali à mão com o título “O Salário do Medo” ** do escritor francês Georges Armand e comecei a lê-lo.

À laia de apresentação, o autor escreveu qualquer coisa como:
“A geografia é uma invenção dos homens. A Guatemala, por exemplo, não existe. Eu sei-o bem, estive lá.”

Foi disto que me lembrei quando, anos depois, conheci o casal de guatemaltecos de que falo no post anterior.

Tanto quanto ainda me recordo do livro, ele relata a aventura de 4 homens que são contratados para levarem dois camiões carregados de nitroglicerina até junto a uns poços de petróleo que estão a arder e cujo fogo só pode ser apagado com uma explosão violenta. É uma tarefa perigosa que põe em perigo, a cada metro de mau caminho, a vida dos quatro homens. A aventura e o “suspense” são constantes. Eu embrenhei-me na leitura e só quando cheguei ao fim do livro, dei conta do tempo que passou. Eram umas 2 horas da manhã e nem os dois irmãos tinham voltado, nem o amigo tinha acordado. Devo ter soltado uns palavrões, fui-me deitar e adormeci pouco depois.

Não me recordo de nada mais do que se terá ainda passado nessa noite, mas no dia seguinte de manhã, estava tudo bem, não havia mortos nem feridos.

Pelo que me lembro, já de algumas das personagens do livro não se pode dizer o mesmo.

 

** Deste livro, “Le salaire de la peur” no original, foi feito um filme que correu com o mesmo nome, produção franco-italiana dirigida por Henri-Georges Clouzot, com os actores: Yves Montand, Charles Vanel, Folco Lulli e Peter van Eyck nos principais papéis.

(Informação “gentilmente cedida” pelo “Dr”. Google).

 

publicado por Carapaucarapau às 19:07
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9 comentários:
De Maria Araújo a 6 de Outubro de 2011 às 20:27
E mantiveste o suspense com esta tua história.
A verdade, pensei que o rapaz não tivesse dado sinal de vida.
E o que fizeste de melhor foi deitares-te, caso acontecesse o pior, serias o responsável.
Mas correu bem.


Beijinho


De Carapau a 7 de Outubro de 2011 às 12:58
Eles é que apanharam a "tosga" e eu é que era o responsável? :)
Por isso é que a justiça anda como anda...
Bjo.


De Maria Araújo a 7 de Outubro de 2011 às 19:21
Pois, lol.


De Eva Gonçalves a 6 de Outubro de 2011 às 23:03
Belíssima história. Bons livros podem aparecer quando menos se esperam... é isso e grandes amores... dizem... Nunca li e penso que também não vi o filme, não tenho a certeza. Mas para o prender assim, deve ter valido a pena. :) Muito provavelmente, bem mais que a bebedeira do desfalecido, rrssss Beijinho


De Carapau a 7 de Outubro de 2011 às 13:03
O filme é "velhinho" e soube há dias que passou recentemente, em retrospectiva, na Cinemateca Nacional. Vou andar atento a ver se aparece outra vez (p. ex. numa retrospectiva dedicada ao realizador).
Mas, claro, isto é só para os "previligiados" da capital e arredores. :)
Bjo.


De A Prima a 8 de Outubro de 2011 às 16:00
Deliciosa a história contada com os teus amigos.
E aquela frase do livro "A Guatemala, por exemplo, não existe. Eu sei-o bem, estive lá" - ia-me prender na leitura, certamente.
Grata pelo comentário Primo(roso) deixado no blogue.
Abraço


De Carapau a 9 de Outubro de 2011 às 19:42
Obrigado pela visita.
Ainda não percebi bem se a prima é a prima, se é a prima da prima. :)

Levo tempo a compreender estas coisas . :)
Abraço.


De maria teresa a 10 de Outubro de 2011 às 21:57
Lembro-me do filme foi com ele que aprendi o que queria dizer TNT. Passava-se o tempo todo em suspense à espera que um dos camiões fosse pelo ar e tenho quase a certeza que pelo menos um foi!
No tempo a que nos reporta o teu texto eras um carapauzinho muito bem mandado...vê lá bem no que te tornaste!
Chuac (aprendi esta com a Tite e ando encantada)


A despropósito também ainda não percebi bem se a "prima" é "prima", se não há "prima":):):)


De Carapau a 11 de Outubro de 2011 às 00:37
Também tenho ideia que um dos camiões foi à vida.
Quanto ao meu bom comportamento, nesses idos de Março...era parvo, isso sim. :)
Nem calculas as vezes que tive de aturar aqueles "meninos".
Agora sou "ligeiramente" menos, tanto assim que também não entendi ainda essa das primas. :))
Bjo.


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