Quinta-feira, 15 de Setembro de 2011

Livros e histórias (II)

 

 

                                         

 

Bichos

 

Quando eu era imberbe e louro e de olhos azuis, (coisas que nunca fui, com exceção para o imberbe) e tinha ar de mais novo ainda, estudava no liceu em Coimbra e vivia numa casa particular com outros rapazes e raparigas também estudantes e mais velhos que eu. Aliás eu era o único que não vinha da mesma região, pois todos eles tinham frequentado o mesmo liceu e já se conheciam antes. Quando um dos meus companheiros de casa fez anos, (ele era estudante de medicina e estava nos últimos anos), fui comprar um livro para lhe oferecer. Esse livro foi “Bichos” de Miguel Torga. Porquê?

Porque eu “conhecia” Torga, simplesmente por viajarmos muitas vezes no mesmo carro elétrico. Creio que foi a única razão.

Quando estava na livraria a pagar o livro, o empregado perguntou-me:

- Quer pedir ao autor para lho autografar? Ele está ali a falar com um amigo.

Eu era um puto envergonhado e não tive “lata” para aceitar a sugestão. Agradeci, paguei e sai.

Anos mais tarde, vim a saber que Torga era avesso a autografar os livros e pouca gente se pode gabar de ter um livro dele com autógrafo ou com dedicatória. Acho que foi Mário Soares quem há uns anos contou esta faceta do Torga e de como ele também lhe negou autografar um livro. Algum tempo depois, num bibliotecário, ele encontrou um livro de Miguel Torga, autografado por este, e com uma dedicatória. O livro teria sido da escritora Maria Lamas, se não estou enganado. Contou Soares que, na primeira oportunidade em que encontrou Torga, o pôs perante este facto: afinal o escritor também escrevia dedicatórias e autografava livros. Torga terá respondido qualquer coisa como: “que queria você que eu fizesse? Com um par de pernas como ela tinha…!”

A partir do momento em que soube que Torga não gostava de autografar livros, eu pensei muitas vezes o que ele me teria respondido se, na altura daquela minha compra aos 16 anos, eu lhe tivesse pedido para autografar o livro que eu acabara de comprar. Provavelmente ao olhar para o meu ar de menino embaraçado e não querendo desiludir um leitor em potência, mesmo não tendo eu os “argumentos” da Maria Lamas, talvez o autografasse.

E então ponho-me outro problema: eu teria oferecido o livro ou teria ficado com ele para mim? Ainda hoje não sei responder a esta pergunta.

Sei que já ofereci muitos “Bichos” ao longo da vida, que li e tenho a obra toda do Torga (tenho mesmo alguns livros em duplicado, de ofertas que me fizeram). Durante alguns anos fui “companheiro de elétrico” dele, sem nunca termos trocado nem um bom dia nem uma boa tarde, o que aliás estava de acordo com a maneira de ser dos dois.

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 23:06
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19 comentários:
De Eva Gonçalves a 16 de Setembro de 2011 às 00:02
Interessante isso do Torga não gostar de dar autógrafos. Tenho cá a vaga sensação que provavelmente, se ele tivesse autografado o livro, o carapau, teria oferecido o livro na mesma... :) Mas como imagino que não tinha (provavelmente) pernas que o cativassem, se calhar esse dilema nem se punha! :)) Li Os Bichos julgo que no 8º ano de escolaridade! Era leitura obrigatória, entre muitos outros livros nesse ano... como os tempos mudaram... beijinho


De Carapau a 16 de Setembro de 2011 às 18:44
Agora, a esta distância toda, parece-me que teria acontecido uma destas hipóteses:
a)- autógrafo pessoalizado, quero dizer com o meu nome:- teria ficado com o livro, e lá se ia a prenda por falta de fundos para comprar outro.
b)- autógrafo com referência ao meu amigo (por eu "ingenuamente" dizer que era para oferecer):- obrigatoriamente teria de o oferecer.
c)- autógrafo simples: aqui "mon coeur balance", mas acho que o oferecia na mesma.

Quanto às leituras obrigatórias, "no meu tempo", lembro-me de ter lido a "Morgadinha dos Canaviais" e "A Cidade e as Serras".
Bjo.


De Maria Araújo a 16 de Setembro de 2011 às 00:21
"que queria você que eu fizesse? Com um par de pernas como ela tinha…!”
Grande Torga. Por que não havia ele de admirar pernas e ter o prazer de autigrafar o livri a tão nobres pernas?
Quanto a ti Carapau, acho que não darias o livro.
E, como sempre, tens muitas e interessantes histórias para contar.
Vivesse eu por perto, acredita que teria o prazer de as ouvir.
E sabes que é sincero o que aqui escrevo. Teu potencial literário e cultural é surpreendente.
Beijinho e conta-me histórias, em breve, num local perrto de ti. (risos)



De Carapau a 16 de Setembro de 2011 às 18:48
Quanto ao oferecer ou não o livro já discorri sobre o tema no comentário anterior. Mas fico agradecido por fazeres de mim tão boa ideia. :))
Quanto a "palheta" já sabes que tenho alguma.
E quanto à última linha, "cheira-me" a desafio para um pastel.... :) Será?
Bjo.


De Maria Araújo a 21 de Setembro de 2011 às 23:14
Yessssssssss! Outubro.
Mais notícias, em breve.
Bj


De Carapau a 22 de Setembro de 2011 às 18:11
ok.


De maria teresa a 16 de Setembro de 2011 às 09:09
Para além do" loiro e olhos azuis" faltou-te o "espadaúdo" (isto faz parte de uma história minha que, de vez em quando conto)
Pois é ... parece que temos por aqui mais do que um dilema (do mal o menor, podia ser um trilema) e não te posso ajudar na actualidade.
Se estivéssemos no passado tu ias pedir ao Torga que te autografasse o livro e eu ensinava-te a resposta que lhe devias dar se ele negasse fazê-lo.
Depois logo se tratava do dilema seguinte...
Gosto de ler estas tuas lembranças de leituras ( mas não só), remetem-me para um passado que foi mais ou menos paralelo ao teu.
Chuac, chuac. chuac,...fez estremecer os opérculos?


De Carapau a 16 de Setembro de 2011 às 18:55
Só não falei no "espadaúdo" porque isso sempre correspondeu à realidade (olha-me só para esta largura de ombros). :))
Quanto ao autógrafo e ao Torga eu atrevo-me a dizer o seguinte:
Se estivesses no meu lugar, corrias logo a aproveitar a sugestão do funcionário da livraria (Atlândida, já agora fica a informação). E a ti o Torga não se negava a autografar o livro, não só porque terias os tais "argumentos" que a outra senhora também tinha, mas também para se ver livre de ti, que eras menina para o ficar a chagar o resto da tarde. :))))
Toma e embrulha, como fazers aos beijinhos. :)
Bjo.


De maria teresa a 16 de Setembro de 2011 às 21:33
Tens jogo de cintura! Isso não se pode negar...
Obrigada pelo envio do papel, com a crise sempre vou poupando uma c´roas:):):)
Beijocas


De Carapau a 17 de Setembro de 2011 às 19:14
Sempre ao seu dispor, Senhora.
Bjo. sem chuac... :)


De Anónimo a 18 de Setembro de 2011 às 19:17
B ICHOS obra "conhecida" de Torga....sao estas homenagens que tornam o poeta,o escritor...IMORTAL! Fez bem ...gostei! do cimo de uma arvore proxima dos Capuchos...vejo outro bicho...um melro! a sintonia tem dessas coisas,,,comunica.se por código! :)


De Carapau a 19 de Setembro de 2011 às 12:00
Entre os "Bichos" não há nenhum melro. No entanto conheço um, "negro, vibrante, luzidio" do Guerra Junqueiro.
Deve ser esse que saltita, de ramo em ramo, nos Capuchos.


De Teresa Santos a 20 de Setembro de 2011 às 19:12
A timidez sempre foi o teu fraco!
Ou o teu forte, quem sabe?...

Ai, ai Carapau!

Se tivesses pedido o autógrafo, com esse ar "imberbe e louro", achas que o Torga to recusava?!

Abraço.
(será que mereces?)


De Carapau a 22 de Setembro de 2011 às 18:11
Ora aí está uma boa leitura sobre a timidez.
"Fazer das fraquezas forças", é uma virtude.

Quanto ao autógrafo, estou absolutamente convencido que o autor não mo negava. Mas a verdade é que não o pedi.
Abraço (claro que mereço tudo). :)


De Anónimo a 27 de Setembro de 2011 às 18:27
Eu, se o Torga alguma vez se tivesse cruzado comigo, pedir-lhe-ia o dito do autógrafo, correndo, claro (ou escuro), o risco de ser corrida a pontapés.
Depois não haveria amigo que mo arrancasse (o livro, não o Torga, claro) da biblioteca. Por falar nisso, se calhar, apesar de feio e antipático, também não haveria quem me levasse o dito Torga da biblioteca, obviamente se ele se dignasse a entrar nela.
Outro bom texto. Carapelho dum sacana (como se diz no meu Alentejo), estás o máximo, ou então são as saudades de cá vir assiduamente que me levam a elogios demasiado rasgados ;)


De Carapau a 28 de Setembro de 2011 às 13:03
"Carapelho dum cabrão", assim é que sempre ouvi falar os alentejanos. O teu "sacana" mostra que estás a perder a alentejanice. :)
Quanto ao resto da conversa, devem ser mesma as saudades...


De anabela a 28 de Setembro de 2011 às 21:15
Bom, não quis ofender a tua madame... ;)



De Carapau a 29 de Setembro de 2011 às 13:33
:)


De Anabela a 27 de Setembro de 2011 às 18:28
O anónimo anterior sou eu, sorry!


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