Quinta-feira, 8 de Setembro de 2011

Livros e histórias (I)

                               

 

O 1º livro

 

Não consigo lembrar-me do 1º livro que li, para além dos que fui obrigado a ler, ou seja, os escolares. Destes, claro que comecei a soletrar o “b, a, ba” e acabei por ter de ler e reler todos os que me foram aparecendo pela frente. Obrigatoriamente, também li um ou dois do Júlio Diniz: As Pupilas do Senhor Reitor e/ou A Morgadinha dos Canaviais. Como lá por casa havia toda a obra dele, acabei por os ler todos, não sei por que ordem, nem com que idade.

Depois, ou antes, ou tudo misturado, não devo ter falhado nenhum dos livros de aventuras do Emílio Salgari. De fio a pavio, devorava-os e depois fazia um relato “animado” das partes de maior “suspense” para um auditório de três ou quatro putos, pouco mais novos que eu. Despedi-me da obra deste italiano (dos autores mais traduzidos em todo o mundo, que deu milhões a ganhar aos editores e que morreu praticamente na miséria), lendo a série “Sandokan”, o terrível pirata malaio** que tinha por braço direito um marinheiro português.

Agora do 1º livro “a sério”, daqueles para gente crescida e de autor reconhecido, lembro-me perfeitamente. Tinha eu uns 13 anos e por companheiro de carteira um homónimo caído ali de paraquedas, vindo das Áfricas. Durante 2 anos sentamo-nos lado a lado nas aulas, jogamos a bola fora delas e descobrimos alguma coisa que ainda houvesse por descobrir. Um dia ele arrastou-me para a biblioteca municipal, requisitou dois livros, entregou-me um a mim e disse-me: “lê, eu já o li, é bom, tem umas cenas porreiras”. E lancei-me na leitura. O livro era do Erico Veríssimo e chamava-se “Caminhos Cruzados”. Ele andava a ler “A Selva” do Ferreira de Castro, que foi o livro que eu li a seguir. Das tais “cenas porreiras” lembro-me dum casal numa piscina a trocarem uma carícias e uns beijos.

Aqui há meia dúzia de meses atrás, o “acaso” (e o acaso, como sabem, dá muito trabalho para acontecer) pôs-me no rasto deste homónimo que durante dois anos partilhou comigo a mesma carteira e de quem nunca mais tive notícias. Nem eu nem os demais colegas desse tempo. Um dia, “descobri-o”, bati-lhe à porta, ele perguntou-me “o que é que o senhor quer?”, eu respondi “o senhor só te quer cumprimentar”, “não estou a entender”, “onde estavas quando tinhas 12 e 13 anos?”, “foi quando vim de Moçambique para estudar cá”, “quem foi o teu colega de carteira durante os primeiros dois anos, lembras-te?”, “não me digas…”, “digo”, “é pá eu estava a reconhecer a voz, mas não o dono”, “eu nem o dono nem a voz, mas reconheci esse abanar de cabeça”, “é pá dá cá um abraço”, e por aí fora até combinarmos um almoço que eu fiquei em organizar com mais dois outros “sobreviventes” desses anos do liceu. Foi portanto à mesa, num recanto pacato dum restaurante, em luta com umas postas de bacalhau na brasa, que os quatro desfiamos memórias. Claro que “Os Caminhos Cruzados” do Erico Veríssimo vieram à baila e eu relembrei a “cena porreira” que guardo dele. Os outros três riram-se, disseram-me que havia cenas “muito mais porreiras” e eu descobri que todos tinham lido o mesmo livro na mesma biblioteca, na mesma altura da vida. Alguém deve ter “passado a palavra” e esse foi certamente o livro mais requisitado durante uns tempos na biblioteca municipal daquela pequena cidade. Já não tinha a menor ideia do que tratava o livro. Por curiosidade socorri-me do Google, durante este escrito, para saber coisas. Ao que li, a crítica da altura classificou o livro como de “imoralidade e subversão” e eu fiquei a entender agora a razão porque a miudagem da altura o lera.

Oficialmente, este foi o meu primeiro livro. O segundo, como ficou já dito, foi “A Selva”. E do terceiro…não faço a mínima ideia.

Tenho a parte principal da obra deste grande autor brasileiro, que adquiri e li anos mais tarde. Nunca comprei “Os Caminhos Cruzados”.

 

**Este “pirata malaio” remete-me para outro pirata aparecido há dias numa praia nortenha, daquelas só de areia, vento e frio. “A Primeira Mulher Couve”, que costuma honrar este blog com uns comentários e que tem uma “banca de cozinha” espetacular (ainda que seja “importada”), teve um encontro imediato com um pirata dos autênticos, que trazia um papagaio ao ombro a gritar: “Cara Pau, Cara Pau”. Eu deixo a pergunta: “isto pode ser?” Podem verificar isso indo lá, à tal “banca da cozinha”, que não precisa nada que eu faça este “apelo”.

E estas palavras são, claro está, a minha forma de agradecer a referência que fez a este blog.

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.  

 

   

publicado por Carapaucarapau às 00:04
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14 comentários:
De Eva Gonçalves a 8 de Setembro de 2011 às 08:13
O Sandokan não era pirata, era o tigre da Malásia !!! E tinha cá uns olhos penetrantes que salvavam qualquer uma, rrssss Pois, espero que tenha gostado do papagaio e deixe-me aproveitar para esclarecer que a referência ao nome cara de pau,, não é de modo nenhum, qualquer insinuação à natureza da sua pessoa, rrssss , apenas foi um surto imaginativo decorrente do nome do peixe... Ora, posto isto, nunca li Os caminhos cruzado, embora já tenha cruzado muitos caminhos e me cruzado com muitos livros. O primeiro? Em criança lia muito, mesmo muito, principalmente em inglês, lembro-me de ter lido a Heidi , um calhamaço na altura, e claro Enid Blyton , todos por aí fora e depois veio a época da Odette de Saint-Maurice ... tenho a impressão que o primeiro livro a sério foi emprestado e foi o Felizmente há Luar, numa edição conjunta com Um homem não chora do Stau Monteiro, que foi a que mais me impressionou na altura, ainda era novinha, e adorei... :) Beijinhos


De Carapau a 8 de Setembro de 2011 às 13:52
Os "olhos penetrantes" do Tigre da Malásia, não serão os do actor (que não sei quem tenha sido) que fez a série Sandokan que há uns anos "correu" nas televisões? :)
Enid Blyton, com os Cinco e tantos outros, nunca me passaram pela frente. Talvez por isso, vingança certamente, ainda há muito pouco tempo tive que "gramar" em livro, rádio, televisão, disco e cassette pirata com o Noddy mai-lo seu carrinho amarelo...
O "Felizmente há Luar" e todos os de Sttau Monteiro estão ali ao lado, perfilados, a olhar para mim. :)
Finalmente quanto à Cara de Pau claro que tem a ver com o peixe e não comigo, eu estou longe de ser o peixe, ainda que ele seja muito parecido comigo. :)
Renovo os agradecimentos por estar lá exposto na "banca da cozinha", logo por cima d Pirata de opereta e do papagaiozinho palrador. :)
Bjo.


De maria teresa a 8 de Setembro de 2011 às 11:38
Caramba do que te havias de "alembrar" e ainda bem.
Não faço a mínima ideia qual foi "o meu primeiro livro" mas lá por casa havia uma biblioteca e quem gostasse muito de ler... Li muito, muito mesmo...Por Sandokan o Tigre da Malásia apaixonei-me e sei onde, em Vieira de Leiria, ia a uma espécie de biblioteca e requisitava-os vários livros em que ele era o herói...estava por lá de férias e não tinha levado material...e que dizer das "Mulherzinhas" uma saga continuada nas "Boas Esposas" em que a Zé casa com o professor...E as obras de Jorge Amado ? E Júlio Verne, que discutia com o meu pai..Max du Veuzit que me fazia sonhar ("John o Chauffer Russo"; Quando casas com o meu marido?")... "Orgulho e Preconceito"..."A Letra Escarlate"...e tantos, mas tantos outros que li na adolescência.
Também li "O Pequeno Lord" mas não me lembro que idade tinha ...
Tu dás o testemunho como "um livro" pode ligar pessoas...
Vou ficar a sonhar um bocadinho mais! Posso?
Beijinho num dos opérculos à tua escolha (pode ser nos dois se preferires)


De Carapau a 8 de Setembro de 2011 às 14:14
Vou começar pela Vieira de Leiria: que andavas por lá a fazer na altura em que lias o Sandokan? Passei por lá a semana passada e não vi rasto dele...nem de ti. :)
Com "Mulherzinhas" e "Boas Esposas" claro que não contactei, e mais não digo, não vá fazer aqui um trocadilho de mau gosto, para onde me puxa muitas vezes a chinela. :)
Mas conheci o John-O chauffer russo e mais um ou outro de Max du Veuzit, aliás travava conhecimento com qualquer bicho careta impresso que me passasse pela frente. E o que devo ter lacrimejado com o Amor de Perdição do Camilo? Nem me quero lembrar...
De Jorge Amado comecei por ler o ciclo do Cacau (Cacau, Terras do Sem Fim e São Jorge dos Ilhéus), emprestados, e tenho o resto da obra dele, aqui atrás de mim, a olhar-me para a nuca.
Já agora aproveito para uma explicação. O título deste post, "Livros e histórias" leva à frente o (I) porque irei escrever mais uns tantos, quando o vento soprar de feição, exactamente falando de alguns livros e de alguma história pessoal a ele ligada. Não pretendo fazer uma lista do "alguma coisa" que já li, porque não teria tempo de dizer do muitissimo que nunca li nem lerei.
Assim entendidos, aqui fica um beijo para ti e outro para a Zé, a tal que casou com o professor. :))















De Maria Araújo a 8 de Setembro de 2011 às 22:53
Que inveja!
Dos livros não falo, porque li muitos cujas histórias, algumas, estão esquecidas.
Quanto ao encontro, fiquei muito imopressionada com a tua atitude.
Parabéns. É bom encontrar as pessoas que fizeram parte da tua vida, com umma bela bacalhoada como repasto.
Espreitei o blog que referenciaste. Bela história.
Há ótimos escritores por cá.
Um beijinho.


De Carapau a 9 de Setembro de 2011 às 12:36
Talvez um dia eu aqui conte a maneira como descobri o "artista" em questão, que eu julguei durante anos, que tinha morrido muito novo. Há uns tempos atrás pus em dúvida esta minha "certeza" e o acaso deu-me maneira de rapidamente o encontrar. Fartamo-nos de rir quando eu lhes contei a história do meu "achado".
Bjo.


De Teresa Santos a 10 de Setembro de 2011 às 19:32
Belas recordações que ficam deste período das nossas vidas.

Muito bem!
Relativamente às minhas leituras, ei-las, por esta ordem: a Branca de Neve e os Sete Anões, a Cinderela, O patinho Feio, O Alibabá e os 40 ladrões, Os Três Porquinhos, e, de seguida, logo de seguida, O CRIME DO PADRE AMARO!!!!

Hem!!!!

Abraço grande.


De Carapau a 11 de Setembro de 2011 às 20:01
Também li o Alibabá e, lembro-me agora , lia uns cadernos que havia em algumas escolas primárias sobre certos momentos e personagens da história de Portugal. Eu era um "ferrinho" dessas histórias à volta da História.
Quanto ao Crime do Padre Amaro, tinha-se dado ali mesmo pertinho, mas não "assisti" a ele. :)
Mas ainda lá está o sítio... Só muito mais tarde li o relato. :)
Abraço.


De Carapau a 13 de Setembro de 2011 às 12:50
Explicando melhor (porque também só agora me dei conta disto):
Os dois "crimes", o do padre Amaro e o meu (respectivamente com a Amélia e com os "Caminhos Cruzados" foram "cometidos" exactamnte no mesmo espaço físico. Só que em tempos diferentes. Quem havia de dizer?
Abraço.


De Teresa Santos a 18 de Setembro de 2011 às 19:15
Ai foi?

É verdade, quem havia de dizer!

Já agora diz-me lá uma coisinha.

Antigamente, nos primórdios da minha navegação por estas águas, quando respondias aos comentários, recebia, via mail , um aviso desse "acontecimento". Acontece que que essa boa prática (mais uma) acabou, morreu, finou-se.

Pode saber-se porquê?

Agradecida.

Abraço?
Não, hoje não há abraço!


De FlorAlpina a 12 de Setembro de 2011 às 10:24
Diretamente da "banca da cozinha" até aqui!

Porque sim, sou curiosa!

Bjs dos Alpes


De Carapau a 13 de Setembro de 2011 às 12:44
De boa "banca" vem. E uma flor é sempre bem vinda a um blog sempre tão pouco enfeitado de conteúdo.
Mas pilriteiro só dá pilritos...
Irei visitá-la lá nos Alpes...
Bjo.


De Anabela a 27 de Setembro de 2011 às 18:38
Não sei qual foi o livro que li quando já adulta. Tampouco sei quando fui adulta ou se já o sou. lembro-me dos primeiros: Anita. Dos segundos: Os cinco. A partir daí foi um ver se te avias... Quase que sei qual será o último ou dos últimos (é melhor assim, porque o fim não vem em carta registada), provavelmente Don Quijote de la Mancha. Não é que deteste o livro, não posso detestar coisas que não conheço bem. O que se passa é que na universidade esse livro era o ponto de partida do professor para estudarmos uma série de coisas que eu detestava, como por exemplo estudo de orações e etc. Aliás, não era uma edição actual, era uma escrita em espanhol da época. Era um tédio!!!! Sei que é uma excelente obra, que conheço aos retalhos e que um dia tenciono ler. Além disso tenho 3 edições em casa (contemporâneas, claro!)


De Carapau a 28 de Setembro de 2011 às 12:56
Curiosamente eu também tenho um problema com "O D. Quixote". E não é por ter sido obrigado a dividir as orações (isto coube-me nos Lusiadas e o sr Luis já me perdoou), mas por preguicite aguda. Já por diversas vezes o tenho tido nas mãos para o comprar, depois olho-lhe para o volume e para a minha disposição e digo "fica para mais tarde". De tanto o adiar qualquer dia já não vou a tempo. E a Dulcineia também é capaz de não esperr muito mais... :)
Saúde!


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