Quinta-feira, 18 de Agosto de 2011

Eu e "eles"

 

                 

                  (Podia ser este, mas é bem maior)

 

“Eles” são os cães. Em geral tenho um bom relacionamento com eles e eles comigo. Entendemo-nos.Mas há sempre exceções.

Por estes dias tenho por vizinho um Serra da Estrela que não nutre por mim nenhuma simpatia. Conheci-o era ele pequeno de 2 ou 3 meses e aí o nosso relacionamento foi fácil. Depois estive largos meses sem o ver e quando nos voltamos a encontrar tudo tinha mudado. Ele era já um cão de avantajado tamanho e com uma força brutal e à minha tentativa de aproximação reagiu da pior maneira, avançando para mim ameaçador, a ladrar e de dentuça afiada. Durante dias fui tentando a aproximação sem resultado. Até que um dia me saturei das suas “ladradelas” e das suas ameaças e avancei para ele empunhando um pau e gritando-lhe alto e bom som.

Ele recuou, calou-se e ficou a mirar-me ao longe. A verdade é que a partir daí a situação só piorou. Eu senti isso imediatamente. Eu tinha-o humilhado e ele não ia esquecer. Um ano depois tentei “fazer as pazes”, ele pareceu-me mais pacato e um dia arrisquei oferecer-lhe uma bolacha. Atirei-lha um pouco de longe e ele deixou-a cair, farejou-a e depois acabou por comê-la. Tentei dar-lhe uma segunda à mão, aproximei-me até ao limite que a trela dele permitia e estiquei o braço com a bolacha na mão. Ele aproximou-se, abriu a boca e quando estava mesmo a chegar à bolacha deu um esticão e só não me mordeu a mão porque eu a retirei a tempo. Ainda me “lambeu” a ponta dos dedos.

Estamos nisto: respeitamo-nos (tememo-nos, para ser mais exato) e ele já deixa de me ladrar quando eu lhe falo. Mas não passamos disto até porque a nossa convivência é por curtos períodos e o afastamento por longo tempo.

Sinto pena por isso e ele nunca saberá o que perde por não ser meu amigo. Eu poderia contar-lhe histórias doutros que já estiveram no lugar que agora ocupa e sobretudo dum deles, o que inaugurou a dinastia dos cães sempre com o mesmo nome. Eu contar-lhe-ia como um rafeiro vira latas se fez meu amigo, das aventuras que fizemos durante uns anos, de como ele era o melhor caçador das redondezas, como tinha a sua personalidade, como era respeitado e querido pelas pessoas e pelas cadelas, como era respeitada a sua competência. Tudo isto sem linhagem nem pedigree como ele, mas que se impunha pela inteligência. Contar-lhe-ia como caçávamos coelhos no período de caça, os dois desarmados, mas atentos e sabendo tudo sobre como caçar. E de como para além dessa atividade de ócio ele se dava ao respeito e cumpria o seu papel de cão de guarda.

Mas o Serra da Estrela não quer ser meu amigo, não quer saber das minhas histórias e das dos seus antepassado e eu nem perco tempo a tentar contar-lhas.

Enfim, cada um de nós perde um amigo, e ele nunca irá saber as histórias de vida dos que o antecederam. Vai ser um ignorante bruto e violento e nada mais que isso.

Acontece a muito boa gente…

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 15:33
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8 comentários:
De Maria Araújo a 19 de Agosto de 2011 às 14:08
Tiro daqui imensas conclusões, mas que não sei partilhar.

Beijinho


De Carapau a 21 de Agosto de 2011 às 10:26
Em tempo de férias, o melhor mesmo é descansar.
Bjo-


De Teresa Santos a 19 de Agosto de 2011 às 19:06
Carapauzito,

Lamento muito, mas vou "torcer" pelo cãozinho. É que eles têm um feeling que raramente os engana. Não tu, não acredito, mas certamente algum cretino não lhe deixou uma boa recordação dos humanoides , logo, o pobre quer é distância.
E não compares essa "boa gente" com estes belos e leais amigos. Não têm rigorosamente nada a ver.
Esses sim, muitos deles são/ficam irremediavelmente brutos, violentos, ignorantes, irremediavelmente.

Abraço grande e...

vai tentando conquistar esse amigo. Só tinhas a ganhar com o "negócio".


De Carapau a 21 de Agosto de 2011 às 10:31
Dificilmente acabaremos amigos. Eu cometi um erro, ele cometeu outro e dificilmente ganharemos a confiança um do outro. Depois, o pouco tempo que convivemos e as longas ausências minhas também não ajudam.
Vamos a ver o que vai sair disto.
Abraço-


De Rafeira a 20 de Agosto de 2011 às 14:11
Acho que uma rafeira ia ajudar a põr o "Bobi" em sentido! Mulher é mulher...


De Carapau a 21 de Agosto de 2011 às 10:37
Aí está uma coisa de que eu não tenho dúvidas nenhumas: que uma rafeira o metia na linha !
Aliás uma rafeira mete na linha qualquer um, seja ele também um simples rafeiro, seja um portador de um pedigree a toda a prova...


De maria teresa a 22 de Agosto de 2011 às 11:45
Pois é! "Presunção e água benta cada um toma a que quer":):):)
Quem perdeu um excelente amigo foste tu, não ele! Eu conheço-o, ele é um ser fantástico...um mero carapau não o merece!
Agora a sério a história tem base real? Sou cá uma cusca:):):)
As tuas contas estão correctas, andei a verificar e as minhas é que estavam erradas:):):)
Beijocas com fartura (do que me fui lembrar, farturas...onde irei desencantar umas para saborear com um cafezinho de cevada)


De Carapau a 23 de Agosto de 2011 às 19:17
A ´"história" é toda ela real e não vai ser fácil tornarmo-nos amigos ainda que ele já me "suporte" (talvez para ver se me "apanha a jeito").
Quanto às contas, eu já sabia que era um ás a fazê-las... :)
Quanto às farturas é uma pena não estares mais perto, que te oferecia umas duma barraquinha que está aqui a meia dúzia de passos de mim, agora mesmo.
Bjo. e não vejas filmes que te façam mal... :)


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