Quinta-feira, 23 de Junho de 2011

História (parte I)

 

                                                    

 

A pré-história

 

 

 

“O abandono de crianças é um ato já muito antigo e aceite pela sociedade. A título de exemplo podemos indicar o caso de Moisés, lançado no rio Nilo ou a história dos irmãos de Rómulo e Reno criados por uma loba”.

 Assim começa um estudo sobre “Os expostos e desamparados na Misericórdia de Lisboa” e que poderá ser lido integralmente neste sítio.

 Claro que não vou transcrever esse documento, mas referirei somente alguns dos passos que se seguiam quando uma criança era abandonada na Roda da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e que não devia ser muito diferente do que se passava noutros locais de acolhimento. Esta “Roda” mais não era que um cilindro oco de madeira que rodava em torno dum eixo vertical e que tinha uma abertura por onde era introduzida a criança. Depois o cilindro era rodado e a criança ficava já do lado de dentro onde era recebida pela “rodeira” – a pessoa encarregada de a receber e de registar todos os “sinais” que acompanhavam a criança. Também lhe prestava os primeiros cuidados como a higiene e a alimentação e analisava o seu estado de saúde. Em algumas “rodas” a pessoa que “depositava” a criança (anonimamente) tocava uma sineta para chamar a atenção do interior para esse ato. Os “sinais”, como p. ex. bilhetes, certos pormenores da roupa com que iam vestidos ou outros acessórios, eram importantes para o caso de mais tarde a família pretender reaver a criança, o que era possível sob certas condições.

 No caso da criança não apresentar nenhuma doença era entregue no mais curto espaço de tempo (às vezes algumas horas outras vezes alguns dias) a uma “ama externa” que estivesse em condições para a amamentar (“ama de leite”). Enquanto estivessem na Casa (ou Hospital), as crianças eram amamentadas por “amas internas” – “amas de leite” que viviam na Casa. Em geral estas “amas de leite” eram mulheres a quem tinha morrido um filho bebé, estando portanto em condição de amamentar outros, nunca mais de dois de cada vez. A criança era portanto entregue a uma ama externa para “criação de leite” durante um certo tempo (começou por serem dezoito meses, mas este período foi diminuindo ao longo dos séculos). Passado esse período, com a criança já desmamada, ela era entregue para “criação de seco”. A ama podia ser a mesma ou outra. As amas, quer as “de leite”, quer as “de seco” recebiam um pagamento (soldada), sendo que as de “leite” recebiam mais que as “de seco”. A partir dos sete anos de idade essa “soldada” diminuía consideravelmente já que a criança podia ajudar o casal em pequenos trabalhos, como aliás acontecia quase sempre com os filhos legítimos do casal.

Quando as amas viviam fora de Lisboa as crianças eram transportadas por “recoveiras” – mulheres que faziam as entregas.

Só para dar uma ideia da quantidade de crianças abandonadas na “Roda” da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa o estudo, que me serviu para aqui deixar estes elementos, fala num número superior a 68.000 entre os anos de 1780 e 1926, isto é, mais de 465 por ano, em média.

 

Quem estiver interessado em saber mais pormenores pode consultar vários sites na internet sobre o assunto para além daquele que acima indico e de que deixei o link.

 

 Enquanto fazia algumas consultas que me permitiram escrever este post, acabei por ler esta notícia publicada em 27/02/2007 pelo Diário de Notícias, que aqui deixo como curiosidade e que prova que afinal o mundo não mudou muito.

  “Em Itália, um hospital público nos subúrbios de Roma, estabeleceu um serviço para acolhimento de crianças recém-nascidas abandonadas. Numa dependência criada para o efeito e rodeadas de processos para garantir a discrição e o anonimato, as crianças podem ser deixadas num berço, o qual tem um dispositivo que avisa o pessoal do hospital da sua presença. A partir desse momento, a criança fica totalmente ao cuidado desse pessoal. Ora, isto não passa do retomar de uma instituição criada na Idade Média e que, em muitos países da Europa, sobreviveu até ao século XX”.

 Terminada, deste modo, a pré-História, no próximo post entraremos na História

 

 Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

 

publicado por Carapaucarapau às 10:56
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