Quinta-feira, 9 de Junho de 2011

O jogo

 

 

 

 Apresentados os jogadores no post anterior, dispus-me a vê-los jogar uma partida de sueca.

O 1º a jogar fui o Poeta Chiado que atirou para a mesa uma carta pequena de espadas. Pessoa joga o ás e o Camões, lá das alturas, atirou a bisca que tinha seca, despedindo-se dela: “alma minha gentil, que te partiste…” Eça completa deitando o rei e imitando o conselheiro Acácio diz qualquer coisa como: “candeia que vai à frente…”.

Fernando puxa por mais um ás. Luís assiste, José Maria carrega com outro rei e o António também assiste, sem dar pontos e sentencia na qualidade de mais velho: “o primeiro milho é dos pardais”.

- Ah! Ah! – ri Eça e Fernando sorri.

Pessoa puxa agora uma carta sem valor, dizendo “o que há em mim é sobretudo cansaço”, o que leva Luís Vaz a dizer “isso assim não vale, o Álvaro está a ensinar-te” e cobre com o valete. Eça deita uma quina e António Ribeiro faz a vasa com o ás de paus.

Eu continuava fascinado, não tanto pelo que diziam ou pelo que jogavam, mas sim pela maneira como, de longe, lançavam as cartas que descreviam umas trajetórias incríveis e aterravam suavemente em cima da mesa. Sobretudo as que vinham do Camões, lá dos seus seis ou sete metros de altura e as do Eça, que era o jogador mais distante e que lançava as cartas de maneira a subirem a rua do Alecrim e a darem uma curva para atingir a mesa, eram verdadeiros prodígios que me deixavam de boca aberta.

De repente acordei, estava a transpirar, sentia-me mal e tinha tonturas. Vi as horas, eram duas e meia da manhã e levantei-me com cuidado para não cair. A indisposição era grande, “mas que estupidez ter comido uma feijoada de chocos ao jantar”, fui até à cozinha, bebi uma água das Pedras, previamente aquecida, em pequenos goles e descansei um pouco. Já mais recomposto vesti-me, meti outra garrafa de Pedras no bolso e sai a dar uma volta. Sentia que andar a pé me ia fazer bem, para retomar a digestão que o sono tinha interrompido e que era a causa do meu mau estar. Comecei a andar sem destino. Ao fim de algum tempo senti que me estava a sentir melhor e lá pelas três e meia da manhã, quando dei por mim, estava a chegar ao Largo do Chiado. Foi nessa altura que vi na esquina da igreja da Encarnação uns vultos sentados a uma mesa. “Tu queres ver…” – disse baixinho a esfregar os olhos. Mas dando uma olhadela para as três estátuas que daquele ponto eu avistava, reparei que estava tudo bem, tudo de acordo com o bronze e a pedra. O Pessoa até dorme de chapéu, reparei eu.

Já próximo da igreja reparei que os vultos eram quatro pessoas vestidas de verde com umas faixas fosforescentes. Eram cantoneiros da Câmara que andavam na sua faina da limpeza da zona e que tinham feito um intervalo para petiscar qualquer coisa.

- Boa noite! – Disse eu ao chegar junto deles.

- Boa noite – responderam em coro. – É servido?

- Obrigado, não posso comer nada, estou um bocado mal disposto.

- Nem uma cerveja?

- Não, obrigado estou a água das Pedras – disse, tirando a garrafa do bolso.

Em cima da mesa estavam um naco de presunto e meio pão além de umas tantas garrafas de cerveja. A um canto um baralho de cartas.

- Fazem isto todas as noites?

- Não. Só hoje porque o Tobias faz anos e trouxe um petisco.

- E também jogam as cartas? – Perguntei apontando com o queixo o baralho.

- O senhor talvez não acredite, mas a mesa e as cartas já cá estavam quando aqui chegamos, nós só trouxemos as cadeiras ali da esplanada. E mais, todos nós vimos uns tantos papéis a voar com o vento e a caírem aqui nesta zona. Quando nos aproximamos não vimos nenhum papel e só encontramos estas cartas em cima da mesa. Não percebemos nada do que aconteceu, mas aproveitamos a mesa e petiscamos aqui mesmo.

- Oh amigos! Isso não será já efeito das cervejas? – Perguntei a rir, enquanto eles se levantavam, guardavam o resto da bucha e retomavam o trabalho.

- Então continuação de bom trabalho e até outra noite – despedi-me.

- Boa noite. Olhe lá! Não quer levar o baralho? Nós não o levamos, deve estar embruxado.

 Peguei nas cartas, meti-as no bolso, dei uns passos, voltei-me e perguntei-lhes:

- Uma coisa, amigos. Vocês não se terão esquecido de tomar as gotas hoje? E comecei a descer a Rua do Alecrim, a sorrir.

Ao passar pelo Eça disse-lhe que ia até ao Aterro, mas ele estava a dormir, ainda e sempre com a mulher nos braços. Raio do homem…

Acabei a noite sentado no Cais das Colunas à espera do 1º raio de sol e do 1º voo das gaivotas. Maneira para dizer que esperava pelo primeiro Metro para voltar para casa.

Quando cheguei eram sete da manhã, abri a janela que dá para um “Ecoponto” que fica do outro lado da rua, mas uns metros mais acima e, uma a uma, consegui meter as quarentas cartas, a partir do meu 4º andar, no contentor azul.

Acredite quem quiser.

 

 Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

    

publicado por Carapaucarapau às 00:30
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11 comentários:
De Teresa Santos a 9 de Junho de 2011 às 15:38
Criativo, sonhador, brincas com as palavras, misturas ficção, sonho e realidade.
E juntas a tudo isto uma pitada de mistério.
Queres que te diga que a história está muito bem conseguida?
Primeiro: quem sou eu para o fazer? Segundo, é necessário?
És um mistério!
Estava a ler, atentamente, o desenvolvimento da estória e a interrogar-me: mas, afinal, quem é este Carapau?
És um Carapau sonhador, ponto final.
Cada vez gosto mais de ler o que escreves? Claro!
Beijinho.
Hoje mereces um beijinho. Até me esqueci das escamas!
P.S. Estás arranjado se não cumpres o compromisso das 5.ªs . feiras...


De Carapau a 10 de Junho de 2011 às 15:02
A "grande" questão pode ser essa mesma: "afinal quem é este Carapau?"
E a resposta nunca foi tão fácil: um como tantos outros, que gosta de brincar. e que às vezes faz umas coisas com piada e outras vezes quer dizer tá tá e não consegue. :)
Tirando isso, também sabe agradecer as palavras que recebe. :)
Bjo.


De Teresa Santos a 15 de Junho de 2011 às 13:40
Em que fase estamos? No tá tá?...
Não me interessa nada de tá tás!
Amanhã é quinta-feira, lembra-se Sr. D. Carapau?
Ok!
Para já não há abraço. Amanhã? Depende...


De Maria Araújo a 9 de Junho de 2011 às 23:18
"atirou a bisca que tinha seca, despedindo-se dela: “alma minha gentil, que te partiste", ahahahahah !
Fabuloso!
Mas diz-me carapau, que adoras feijoada de chocos e bacalhau, frigideiras e outras coisas mais...
Foste mesmo dar uma volta pelo Chiado?.
Fiquei curiosa.
E acertares no contntor 40 cartas, uma a uma, com certeza que não bebeste água das pedras...
Como sempre és o Ás da escrita. Qual pessoas, qual Eça, qual Camões?
Biejinho


De Carapau a 10 de Junho de 2011 às 15:09
Voltas pelo Chiado dou eu algumas, de vez em quando, é claro. Falar com os tipos das estátuas, nem sempre. Em geral quando não ando a água (em boa verdade já falei mais com eles que actualmente) Falar com os tipos da Câmara, sim algumas vezes, quando calha e quando ando a água das Pedras. :)
Portanto a diferença está mesmo no líquido ingerido.


De Eva Gonçalves a 10 de Junho de 2011 às 16:24
Adorei Carapau! Às vezes este Carapau tem piada, como diz acima num comentário, e desta vez teve até muita piada! :))O texto está muito engraçado e bem feito. Então em vez de devolver o seu a seu dono e deixar as cartas na mesa no dia seguinte para a próxima rodada de sueca, preferiu treinar a pontaria no contentor?? Como se eu acreditasse que elas entraram todinhas sem nenhuma cair ao lado, rrsssss .... gabarolas!! :))) Beijinhos e bom fim-de-semana alargado!


De Carapau a 12 de Junho de 2011 às 18:01
Vou ter de explicar tudo. :)
A mesa tinha sido desviada da esplanada próxima. No dia seguinte alguém a restituiria ao lugar de origem e as cartas lá iam parar não sei onde. Achei uma boa solução "enfiá-las" daquela maneira no contentor para experimentar as suas (delas cartas) tendências voadoras. Só com cartas daquelas era possível os quatro figurões acertarem com a mesa.
Acontece mais um pormenor. Acabei por saber a origem do baralho e quem as faz com aquelas características. Assim sendo, o futuro dos jogos está garantido. :)
(Isto de ter de explicar tintim por tintim tudo, obriga-me a escrever uma resposta que é quase outro post. Mas a comentadora merece. :))
Obrigado pelos votos de bfs que ainda vai a meio, aqui por estas bandas.


De Anónimo a 11 de Junho de 2011 às 13:12
O jigo da vida,o jogo da verdade ou da mentira! Jogos..jogos há muitos..jogos de olhar,jogos de traiçao,jogos amorosos ou simplesmente...jogos de cartas! Cartas em branco,cartas pintadas,cartas em que todos têm um"Ás"! Cartas para jogar,cartas para brincar,cartas para extravasar eus " escondidos! Enfim..os senhores da literatura estão em "alta" jogam cartas no coraçao de Lisboa e...dão cartas a quem por eles passa! Lembre-se daquele beijo:) EU


De Carapau a 12 de Junho de 2011 às 18:05
Com um comentário assim fico com pouco para dizer.
Já pratiquei "lançamento de cartas" (para o contentor) vou agora aprender a "deitar" cartas para ver o futuro, mesmo que seja o mais próximo...
Bjo.


De Arroba a 24 de Junho de 2011 às 15:15
Tinha escrito um comentário que não consegui publicar ( acho)
Aqui vai o 2.º :
delicioso texto, com uns diálogos fabulosos! Até li em voz alta à minha colega aqui da frente) ela arrumava livros e eu ia lendo , :)))
Não pense que não venho aqui de vez em quando, mas agora diga-me cá... anda a altas horas da noite pelo Chiado e passa por mim no Rossio e népias?? Que é lá isso??
Quando ao projecto , vai andando devagarinho.. sabe.. convidaram-me para fazer parte de uma Antologia de Poesia, mas depois lhe conto. Apareça!
Abraço amigo :)


De detectives privados portugal a 29 de Novembro de 2011 às 02:07
Boas mito thanks! agradou-me ler esse artigo é mesmo enriquecedor.. considero me fa 100% aqui do blog cmprmentos


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