Quinta-feira, 2 de Junho de 2011

Jogo da sueca

 

 

 

 

Há dias, para tomar uma água, sentei-me numa esplanada ao lado dum senhor de chapéu na cabeça e em frente a outro, sentado e de mão estendida. Um pouco afastado e mais à minha direita estava uma outra personagem da mesma laia e um pouco mais longe e fora da minha vista, mas logo ao virar a esquina, ainda um outro figurão. Imaginei os quatro, agora desempregados e com tempo livre, a jogar à sueca, com uma mesa virtual situada algures num ponto em que se tocam a Rua do Alecrim, o Largo do Chiado e o Largo de Camões, ali na esquina da igreja da Encarnação, para assim ficar à vista e ao alcance de todos. Os quatro jogadores seriam o Fernando Pessoa, o do chapéu, o Poeta Chiado (António Ribeiro de seu nome), o da mão estendida, o Luís de Camões, de pala no olho, e o Eça de Queiroz, de bigode e com o “manto diáfano da fantasia” a acompanhá-lo. As duplas seriam, evidentemente, Pessoa - Eça versus Camões - Chiado. Já pela posição relativa em que se encontram e pela dificuldade em mudarem de lugar, já porque foram contemporâneos, dois a dois.

Se é certo que os dois últimos se conheceram e eventualmente terão bebido uns copos juntos, já a primeira dupla nunca se sentou à mesma mesa (por uma questão de diferença de idades) ainda que fossem dados também a beber uns copos (mais o primeiro que o segundo, que gostava, mas era fraco do estômago).

Quem irá sair vencedor deste jogo da sueca é que é difícil vaticinar.

A dupla Camões - Chiado é mais homogénea e o Camões é bem aceite como capitão da equipe. Já do outro lado se não pode dizer o mesmo, não funciona bem enquanto tal, mas a valia dos jogadores é incontestável e cada um, de per si, pode fazer a diferença em partidas mais renhidas. Uma coisa é certa. São quatro “tesos”, mas o par Pessoa - Eça tem uma capacidade de recorrer a “cartões de crédito” que os outros dois não possuem. Já quanto à capacidade de angariarem créditos femininos, as equipes parecem empatadas, já que em cada uma há nitidamente um elemento que atrai algumas “poupanças”, enquanto os outros dois não são nada populares. Um por opção, ao que se dizia, e o outro por manifesta falta de jeito. O Saramago, que não faz parte deste jogo, nem como árbitro, um dia insinuou que o Pessoa (ainda que vestido com outra “farda”, no que aliás era perito), teve uma aventura com uma tal Lídia, empregada dum hotel, mas isso deve-se mais ao facto de ele, Saramago, querer explorar esse filão (o filão Pessoa, continua a dar) do que outra coisa.

Quanto a “parlapié” todos eles eram exímios na arte, cada qual com seu estilo, mas palheta não lhes faltava. Digamos que o que lhes sobrava em palheta lhes faltava em dinheiro (verdade seja dita que de Pessoa nunca se ouviu dizer que precisasse de pedir. E Eça, se vivia sempre a crédito, também é verdade que angariava com mais ou menos facilidade esse crédito. Digamos que era o consumista do quarteto). Dos outros dois nem é bom falar quanto a cacau. Nem dinheiro nem crédito.

Dos quatro o mais pacato parece ser o Chiado, que vindo de Évora ancorou ali por aquelas bandas (daí o nome por que é mais conhecido) e tudo leva a crer que se coçou por todas aquela esquinas, enquanto o parceiro da pala correu este mundo e o outro (ou Seca e Meca, olivais de Santarém) e os da outra equipa também andaram por esse mundo e não se limitaram a frequentar a zona a que agora o bronze e a pedra os obrigam.

Nesta hipotética partida de sueca, estou a vê-los todos com um copo ao lado, mas “cheira-me” que os copos não têm todos o mesmo liquido. Não que não se pudesse arranjar uma bebida comum, mas porque cada um tinha suas predileções e sobretudo a dupla mais recente gostava de ir um pouco mais além do carrascão, não o enjeitando todavia.

Como a sueca é um jogo calado, é evidente que eles também não falariam uns com os outros, nem no fim de cada partida para discutir as peripécias do jogo. Aliás, nas condições em que estão atualmente, ser-lhes-ia ser muito difícil fazerem-se ouvir. Não fora eu servir de intérprete e nem o jogo começariam.

Entretanto eu acabei de beber a água que tinha pedido, dei uma palmada no joelho de Pessoa, acenei com a mão ao António Ribeiro, dei uns passos para piscar o olho ao Camões e ao Eça e desci a Rua Garrett (só faltava mesmo mais este, mas a sueca é só para quatro).

Nenhum deles me respondeu ao cumprimento.

 

Nota: Quando o fotógrafo privativo deste blog tirou as fotos, pareceu-lhe ter ouvido o Eça dizer: “esta choldra continua a mesma de sempre. Agora fizeram de mim cabide e penduraram-me isto ao pescoço. Disseram-me que fizeram o mesmo ao Poeta Chiado”.

De facto os dois tinham uma “tabuleta” pendurada a incitar ao voto. Coisas...

Daí a foto do Eça estar mais reduzida para a tabuleta não aparecer já que a do Poeta Chiado foi fácil esconder.

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico – convertido pelo Lince.

 

publicado por Carapaucarapau às 14:00
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9 comentários:
De Eva Gonçalves a 2 de Junho de 2011 às 21:51
Ficamos sem saber qual par terá ganho o jogo. Uma sueca calada é coisa triste ( e não carapau... não me referia ao espécimen feminino proveniente da Suécia, se bem que me palpita que para qualquer dos jogadores, uma sueca dessas, calada ou não, seria indiferente...)pessoalmente, gosto de uma partida de sueca com graçolas, anedotas e amendoins à mistura, vale tudo para distrair o par adversário, :)))) beijinhos


De Carapau a 3 de Junho de 2011 às 19:09
Jogo poucas vezes a sueca, mas quando jogo é mais a conversa e a discussão que o jogo. Há mesmo quem não aguente a "pressão". :)
Quanto ao jogo dos quatro... para já só fiz a apresentação dos jogadores. Não sei se vou ter pachorra para assistir a uma partida. Ando a pensar...
:)
Bjo.


De Anónimo a 2 de Junho de 2011 às 21:53
Histórias de homens da literatura! Fotografias ,afinal,bem tiradas! Histórias de "alguém" que é um bom contador ! Histórias de "alguém" que "passeia" pelas épocas literárias e seus "marcos"! Como uns golos de água tépida dão origem a este jogo de figuras literarias entretidas num valente jogo virtual! Olhe os meus olhos e receba um beijo real :) EU


De Carapau a 3 de Junho de 2011 às 19:12
É bem verdade. Nada como uns goles de água para me inspirar. :)
Prefiro outras fontes de inspiração, mas no caso presente foi mesmo água. (Talvez por isso a inspiração não tenha sido muita...)
Bjo.


De Maria Araújo a 3 de Junho de 2011 às 09:41
Uma grande jogada literária, com muito requinte.
Pessoa , TU, que sabe o que diz e escreve, e que deveria estar MUITO BEM DESTACADA na página do SAPO:.
És um grande escritor.
Sem mais palavras.

Beijinho


De Carapau a 3 de Junho de 2011 às 19:16
Eu nem na minha rua me destaco quanto mais no batráqueo.
Isso é para certo Cantinho, com muito mérito e com grande contentamento meu. Já deixei as felicitações no sítio devido, aqui fica só um bjo.


De Teresa Santos a 4 de Junho de 2011 às 22:40
Carapauzito,
Mas que belo quarteto!
Não sei quem ganhará a partida, nem percebo nada de sueca, (mea culpa, mea culpa), mas uma coisa é certa: Pessoa, em termos de fundos económicos também não era muito abonado!
Venha o desfecho do jogo, com pormenores se possível!
Abraço (com barbatanitas fechadas!)


De Carapau a 6 de Junho de 2011 às 13:56
Eu também não disse que era abonado. Só que, ao contrário do Eça, não consta que andasse sempre a pedir dinheiro emprestado aos amigos.
Quanto à partida...vamos a ver o que consigo "ver".
Abraço.


De Teresa Santos a 6 de Junho de 2011 às 14:41
Pois não, o Homem era mais envergonhado! E tanto, tanto que gosto dele!
O Eça? Carapauzito, o Eça não era de cerimónias, logo, os amigos são, ou não, para as ocasiões? Então?!
Vais ver se vês?
Então vê depressa que quero saber quem é o ganhador e, principalmente, quero ler a tua escrita.
Ah, pois!
Abraço grande, do tamanho do descaramento do nosso querido Eça.


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