Quinta-feira, 26 de Maio de 2011

O último diálogo

                            

 

Quando o vi pela última vez, o diálogo não foi nada animado e senti nele uma grande amargura.

- Bom dia. Então aqui a apanhar um pouco de sol?

- Bom dia.

- Está tudo bem consigo?

- Está.

- Já há algum tempo que não falávamos.

- Já.

- Parece-me desanimado…

- Eu?

- Sim.

- Não sei.

- Passa-se alguma coisa de anormal?

- Não.

Por mais que eu tentasse não lhe arrancava uma conversa. Entre nós as conversas sempre foram fáceis, eu gostava de brincar com ele, de lhe recordar coisas passadas, de o provocar só para o ouvir responder: “essas coisas são comédias e eu não gosto de comédias”. E riamo-nos os dois.

Com ele aprendi algumas das coisas mais importantes que aprendi na vida: a falar com as vacas, a conhecer os cães, a saber onde os coelhos fazem a cama e a responder com assobios ao canto dos pássaros. E aprendi-lhes o nome e as particularidades de cada um.

Agora estava ele ali ensimesmado e eu não lhe arrancava nem uma palavra nem um sorriso.

- Estou a ver que já não sabe quem eu sou.

- Sei.

- Está quase na hora do almoço.

- Está.

- Olhe! Vem ali a sua sobrinha com as sopas.

- Pois vem.

- Então bom almoço e até outro dia. Agora estou por aqui uns dias…

- Adeus.

Ele levantou-se e entrou em casa e eu ainda fiquei a conversar um minuto com a sobrinha, que me disse que desde que a mulher morrera ele estava assim, de poucas falas.

Duas semanas depois foi encontrado morto pela mesma sobrinha.

“Olhe, estava deitado na cama, vestido e arranjado. Quando entrei no quarto  já estava morto. Não deu trabalho nenhum. Foi só fazer-lhe a barba”.

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 12:12
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13 comentários:
De Eva Gonçalves a 26 de Maio de 2011 às 14:55
Acontece com muitos casais. As pessoas duvidam, mas é literalmente possível decidir morrer... nos observadores, fica a sensação de estarmos em presença de um grande amor ... ou de uma grande impreparação para uma vida solitária. Prefiro acreditar na primeira hipótese. É sempre triste ver os amigos partir... Beijinho


De Carapau a 27 de Maio de 2011 às 14:03
Eu sei que não é tão romântico como a 1ª hipótese sugerida, mas em geral é mesmo impreparação para uma vida a sós.
Bjo.


De Maria Araújo a 26 de Maio de 2011 às 19:26
Cinheço casos deesses em que, especialmente os homens, não aguentaram a morte das esposas e, logo a seguir , deixaram-se ir.
Acontece nos casais mais idosos.
Por vezes, nem duas semanas...
Beijinho


De Carapau a 27 de Maio de 2011 às 14:04
Há casos desses é claro, mas o mais normal é, passadas duas semanas, andarem já a "olhar" para uma substituta.
:)
Bjo.


De Teresa Santos a 26 de Maio de 2011 às 20:15
A solidão, querido Carapau, é das coisas mais dramáticas, principalmente na velhice.
É a desolação, a mágoa, a saudade, e muito principalmente o vazio.

Abraço grande (barbatanas fechadas? Lindo!).


De Carapau a 27 de Maio de 2011 às 14:06
Alguém disse que a natureza tem horror ao vazio. Talvez o remédio seja imitar a natureza.
:)
Bjo.


De Anónimo a 28 de Maio de 2011 às 00:51
Chama-se Saudade! Habita lá no fundo de cada um de nós envolvendo-nos de emoções e de lágrimas que, teimosamente, caem! A Saudade é aquele eco,aquele silêncio feito dum passado que ja foi presente....A Saudade é este olhar para trás e arrastá-lo para o agora através de palavras fortes e doces! Muito boa esta partilha...quer um beijo? agarre-o! EU


De Carapau a 28 de Maio de 2011 às 18:19
Será tudo isso, mas no caso presente foi uma espécie de "homenagem".
Bjo. agarrado e retribuido.


De Anónimo a 28 de Maio de 2011 às 20:21
: ) percebo!


De maria teresa a 28 de Maio de 2011 às 18:41
Depois de uma longa "viagem" cheguei a este porto de abrigo de que tanto gosto.
Esta história que pode muito bem ser real comoveu-me profundamente, os meus pais morreram com 5 meses de diferença, felizmente o que se sobreviveu não deu pela falta do outro, se tivesse dado teria tido uma reacção idêntica à descrita, tenho quase a certeza.
É normal as pessoas de bastante idade "definharem" quando o companheiro (ou companheira) de quase toda a vida desaparece. Uma parte deles é-lhes retirada...e é um pedaço vital!
Estou a ficar tétrica, irra!
Toma lá vários beijos, bem sonoros, a distribuir pelas semanas que não passei por aqui, esperando que não fiques surdo de nenhum dos opérculos


De Carapau a 30 de Maio de 2011 às 10:44
Não sei se por os opérculos já não estarem habituados aos teus beijos sonoros, se por te julgar longe na tua “viagem”, a verdade é que fui apanhado de surpresa. Julgava-te embrenhada numa qualquer vereda que nem deixa ver o sol e de repente…zás! Aquele estalido que deixa qualquer opérculo a zunir. :)
Com esta conversa toda quero simplesmente dizer que é bom ver-te por aqui depois duma “prolongada” ausência e desejar-te que a “viagem” continue com vento pela popa.
Beijo (hoje com as letras todas. :))
PS: Aquela palavra "tétrica" fez-me lembrar uma quadra que eu só não transcrevo aqui porque isto é um blog sério. :)


De MagyMay a 28 de Maio de 2011 às 19:35
Eu opino que:
.... o ser o humano quando "sente" que já não tem "nada a fazer por cá" tem a faculdade de instigar o próprio corpo a desistir da vida...

E quando se é velhinho a natureza naturalmente ajuda, com tranquilidade.

Se desligamos a esperança, o físico morre.


De Carapau a 30 de Maio de 2011 às 10:51
Sou da mesma opinião.
Difícil é mantermo-nos e sentirmo-nos vivos. Se nos sentamos e desligamos de tudo, é o fim.
Claro que o "fim" é certo e garantido, mas o que interessa é que sejamos sempre apanhados de surpresa.


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