Quinta-feira, 14 de Abril de 2011

Petrarca (parte I)

 

 

 A crise também chegou ao Carapau, com o seu rol de faltas: falta de tempo, de inspiração e de vontade. Por isso e para respirar durante umas duas semanas aqui reproduzo, com pequeníssimas alterações, esta historieta  publicada há anos, lá para trás. Será publicada em dois posts.

 

 (1ª parte - no contentor do lixo)

 

Logo que viu o dono a dirigir-se para o portão que dava acesso à rua, Petrarca, em dois saltos, já estava com o focinho junto à abertura. Pela hora, o dono ia até ao café que ficava ao fundo da rua. Era o primeiro passeio do dia. Logo que sentiu o empedrado debaixo das patas, deu três ou quatro pinotes e dirigiu-se ao primeiro poste onde alçou a perna esquerda. Duas casas mais à frente morava a Marilyn, uma cadela com uma boa pinta, resultado de cruzamentos de raças várias. Também ele era um rafeiro com uma bela apresentação, pelo castanho-escuro e luzidio, fruto de uma vida repousada que vivia com cuidados e também graças ao dono que o tratava acima de cão.

Farejou que a amiga estava no jardim, não a via por causa da sebe alta que protegia a moradia dos olhares curiosos dos passantes, e então faladrou para ela:

- Estás por aí?

- Sabes que sim, porque perguntas?

- Para ouvir o teu doce faladrar…

- Vais dar a tua volta?

- Claro!

- Sozinho ou com companhia?

- Triste y solo – respondeu a dar-se ares de quem faladrava também em castelhano.

- Tens sorte. Só eu não saio daqui…

- Impõe-te.

- É fácil de dizer…

- Então até logo, já me atrasei.

- Tem juízo, olha que… - mas  ele já não a ouviu.

Com uma pequena corrida voltou a ultrapassar o dono e dirigiu-se ao contentor do lixo que ficava mais à frente. Era a segunda paragem obrigatória. Preparava-se para o gesto habitual, quando qualquer cheiro, que não era suposto vir daquele local, lhe entrou pelas narinas e então ladrou para o contentor ao mesmo tempo que se apoiava nas patas traseiras e tentava chegar com o focinho ao cimo. Convém dizer que tinha uma bonita voz de barítono, por vezes com alguns graves de baixo, e com umas modulações que usava conforme as circunstâncias. Marilyn por exemplo dizia que até se arrepiava quando o ouvia ladrar de certa maneira. Também agora, enquanto tentava subir ao contentor, a entoação era especial e diferente do normal.

Isso bastou para o dono, que se aproximava, lhe prestar atenção e falar com ele.

- Que se passa Petrarca? Algum gato aí dentro? – E preparava-se para passar à frente, mas o cão quase lhe puxou pelas abas do casaco, tal parecia ser a sua aflição.

Deu três passos atrás e levantou a tampa do contentor. Estava quase vazio, só com um embrulho lá no fundo. Qualquer coisa embrulhada no que lhe pareceu um bocado dum cobertor cinzento com uma risca vermelha. Não viu mais nada, voltou a fechar a tampa do contentor e preparava-se para continuar o passeio, mas o cão não o deixou. Achou aquela reação estranha, ainda lhe perguntou “afinal o que se passa?”, o cão rosnou qualquer coisa que ele não entendeu, mas resolveu olhar em volta para ver se arranjava um pau ou uma cana para conseguir chegar ao embrulho. Lá conseguiu arranjar um bocado do cabo duma vassoura que por ali estava abandonado, voltou a abrir a tampa e tocou no embrulho com cuidado. Nunca se sabe o que pode estar embrulhado num resto dum cobertor no fundo dum contentor do lixo, e ele, Dr. Nero Moreira, inspetor da Policia Judiciária, sabia disso melhor que ninguém.

Ao primeiro contacto pareceu-lhe qualquer coisa mole e então com cuidado tentou desenrolar o tal pedaço do cobertor. Palpitou-lhe que poderia ser um animal doméstico morto, talvez um cão, talvez um gato.

Também podiam ser trapos velhos. Mas ao puxar a ponta do farrapo eis que surge um pezito de criança. Parou a investigação, fez um telefonema e falou para o Pereira da pastelaria que ficava logo ali à frente no fim da rua. Dois minutos depois já ele estava junto ao contentor. Então os dois, com cuidado, deitaram o contentor e tiveram acesso ao embrulho. Era de facto um bebé recém-nascido e que estava vivo, ainda que aparentemente em mau estado físico.

- O melhor é chamar a doutora Fátima que mora ali no 37 e que é pediatra… - alvitrou o Pereira.

- Então chame-a lá enquanto eu ligo para o 112 e para a Judiciária.

Alguns minutos depois chegava novamente o Pereira acompanhado pela médica e pela Marilyn.

Depois dumas explicações rápidas, levaram a criança embrulhada numa toalha, que entretanto alguém trouxera, para a casa da doutora para fazer um primeiro exame. A cumprir ordens do dono, Petrarca montou guarda ao contentor e aos farrapos. A acompanhá-lo ficou Marilyn de quem a dona, na atrapalhação, se esquecera.

- Foste tu que o descobriste?

- Claro! Quem havia de ser? Tu estavas em casa e o meu dono não tem faro. Se eu não berrasse alto com ele nem metia o nariz.

-E agora?

- Agora é lá com eles.

- Viste se era menino ou menina?

- Ver não vi, mas cheira-me a menina.

- Consegues distinguir?

- E tu não consegues?

- Não sei, nunca experimentei.

- E agora? Ficas aqui comigo ou vais embora?

- Enquanto ela não me chamar fico aqui. Ou não queres?

- Quero, mas não podemos divertir-nos. Estou de serviço.

- Faço-te companhia.

- Estava um lindo dia para irmos dar uma volta pelo campo…

- Como da outra vez?

- Eu queria melhor. Não te lembras o que aconteceu?

- Se lembro! Foste corrido à pedrada e eu fui à trela para casa e fiquei lá presa.

- É verdade. Quando estava mesmo para acontecer o melhor, apareceu a tua dona furiosa a atirar-me pedras. Ia-me acertando a fulana…

- Ain , ain, ain…

- Isso, ri-te agora…

- Estou a lembrar-me dos saltos que davas a fugir das pedras. Mas olha que não achei piada nenhuma, na altura. E depois… foi a partir daí que passou a levar-me ao veterinário e deixei de ter apetites…

- Que apetites?

- De brincar…

- Ah! Eles fizeram-te isso?

- Fizeram.

- E agora?

- Agora… parece que se acabou o nosso turno. Vem ali o teu dono com uns tipos…

- São colegas dele, da polícia.

- Conhece-los?

- Um deles conheço, já esteve lá em casa e meteu-se comigo. Parece ser bom sujeito.

- E que será feito da criança?

- Deve estar lá em casa da tua dona. Ela é médica geriatra disse o Pereira da pastelaria…

- Ain , ain, ain…não é geriatra, é pediatra.

- E o que é isso?

- Trata de crianças. É a especialidade dela.

- Então vais ficar com a miúda lá em casa? Eu é que a encontrei e tu é que vais ficar com ela? Trata-a bem, senão…

- Olha, chegou agora a ambulância. Se calhar vão levá-la para o hospital.

- Lá ficamos sem ela… Vamos nós aproveitar e fazer uma corridinha ali pela praça. Daqui a pouco aparece aí a tua dona a chamar por ti…

- …e a atirar-te pedras.

- Ainda a mordo.

- Não mordes nada. Ela tem aquele feitio mas é boa pessoa.

- Dizes tu que não foste corrida à pedrada como eu.

- Sabes o que a minha dona disse de ti?

- Ela fala de mim? A propósito de quê?

- De ti e do teu dono. Há tempos estava a falar com uma amiga e disse que o teu dono deve ser meio esquisito. Ele tem nome de cão e tu é que tens nome de gente.

- Ai sim? E não disse mais nada?

- Disse. Explicou que o Petrarca foi um poeta importante e que o Nero foi um imperador romano, mas que era meio bruto e que é costume dar o nome dele aos cães…

- O que tu sabes Marilyn…

- Ouço e fixo. E como era sobre ti, prestei mais atenção.

- O meu dono também já falou da tua dona a uns amigos e não foi para dizer grandes coisas. Disse que ela devia ser uma chata, sempre muito senhora do seu nariz e que não era uma boa vizinha…

- Ain, ain, ain…ela diz o mesmo dele…

- E é caso para dizer que agora têm a criança nos braços…

- E se ficassem com ela?

- Não podem. Agora vão levá-la para o hospital. Depois se ela viver…

- Vai viver pois. É saudável.

- Como sabes?

- Sei. Não esqueças que fui eu que dei com ela. Pode estar fraquita mas vai viver.

- Se não fosses tu…

- Sim. Concordo que foi a sorte dela. Outro não se tinha apercebido ou não ligava importância.

- Sim senhor Petrarca. Deve ser por seres poeta e humanista…

- O que é isso?

- Era o Petrarca. Com o nome herdaste-lhe as qualidades.

- Olha. Já lá vem a tua dona. Pira-te já senão amarra-te o resto do dia.

- Não amarra não. Repara que ela já me viu aqui e ainda nem me chamou. Vai falar com o teu dono e com os outros polícias.

- Até estou admirado.

-Vamo-nos chegando para tentarmos saber novidades.

- Vamos.

 

                                                                                                                               (Continua…)

 

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 11:45
link do post | favorito
De maria teresa a 16 de Abril de 2011 às 15:04
Será que a doutora era assim tão boa pessoa? "Cortar" os ímpetos da natureza é crueldade e faz-me pensar, terá feito o mesmo a si própria?
Adorei a história e estou contigo nessa de "falta de motivação" ou deverei dizer de falta de tempo?
Inspiração não me falta, pelo menos ainda não deixei de respirar .
Venha a segunda parte na quinta-feira:):):)
Beijinhos


De Carapau a 16 de Abril de 2011 às 18:13
Passo a vida a dizer que é um crime de lesa liberdade, mas nunca ouviste a Associação dos Animais (quero dizer a associação alguns animais que pretensamente defendem alguns outros animais) a falar sobre isso. Gostam é de falar dos touros, pobrezinhos, que esses ao menos têm-nos no sítio. :)
Conta com a 2ª parte na 5ªf, antes de eu levantar ferro para outro porto.
Bjo.


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