Quinta-feira, 10 de Março de 2011

Os filhos do Caldelas

                                                                                 

 

Já falei deles, de passagem, quando contei aqui a história do velho Caldelas. Eram cinco, três rapazes e duas raparigas, que não podiam nunca negar que eram filhos de tal pai.

Num dos últimos verões, quando “à sombra de ampla árvore fitava o tabuleiro antigo” e com “um púcaro com vinho refrescava sobriamente a minha sede”, fui surpreendido pela visita casual de dois deles. O outro, o mais velho, tinha morrido entretanto, segundo me contaram. As irmãs, eu via com alguma regularidade. Estes dois há longos anos que fazem a vida lá pelas franças e raramente vêm ao torrão natal, razão porque os não via há uns bons séculos. Como nunca foram de se negar a um bom púcaro de vinho, abancaram e começaram a desenrolar o pergaminho das recordações. Os olhos brilhavam-lhes quando recordavam cenas mais malandras, partidas que tinham pregado, aventuras em que tinham entrado.

Algumas destas peripécias eu já as conhecia, umas contadas por eles noutros encontros, outras contadas por terceiras pessoas que delas tiveram conhecimento.

 Eu também lhes poderia ter lembrado umas tantas em que não tinham ficado nada bem na fotografia, mas ficaria eu certamente mais constrangido que eles, que não são homens (nem nunca foram) para se incomodarem com “chinesices”. Limitar-se-iam certamente a soltar umas gargalhadas e a reluzirem ainda mais os olhos marotos. Assim passamos um bom bocado daquela tarde de verão e já quando, pelo adiantado da hora, pudesse surgir a “sanhuda face dum guerreiro invasor” e estavam para se retirar, contaram-me mais uma história, acontecida há bastantes anos e que eu, de todo desconhecia.

- Mas a melhor de todas - disse um deles quase a despedir-se -  foi o que aconteceu com o padrasto do padre.

Voltou a sentar-se e contou.

Um dia o padre, ao falar com eles, lamentou-se com a vida que o padrasto estava a dar à sua mãe (sua, do padre). O homem encontrava-se muito doente, de cama, mas não parava, dia e noite, de chamar a mulher, por tudo e por nada. A pobre senhora queixara-se ao filho que, a continuar assim, ela não aguentaria e ficava também doente, pois não conseguia descansar.

Ao ouvirem este relato, os manos Caldelas, que conheciam o senhor António – o padrasto do padre – prontificaram-se logo a resolver o problema. Sabendo que o senhor António se pelava por beber umas aguardentes, disseram que se ele tivesse acesso a bebê-las, passaria a dormir e assim já não incomodava a esposa. A verdade é que no dia seguinte seguiram os dois manos e o padre, de carro, até à aldeia onde morava o casal de velhotes, que ficava a uns 40 km de distância. Chegados lá, cumprimentaram o senhor António, perguntaram como ele se sentia e disseram-lhe que lhe iam deixar uma prenda. Na cabeceira da cama penduraram um pequeno pipo com uns dois litros de aguardente munido com uma pequena mangueira com uma torneira. E explicaram ao doente como utilizar o sistema, recomendando, claro, o maior cuidado em não abusar da bebida. Só um golinho lá de vez em quando para não lhe fazer mal.

Posto o sistema a funcionar, voltaram com o padre para a terra deles, que era também a terra onde o padre em questão vivia. Passada uma meia hora já tinha regressado e, conta um dos manos:

- O melhor de tudo foi quando aqui chegamos. O padre já tinha um telefonema da mãe a dizer que voltasse depressa porque o padrasto tinha morrido. – E os dois manos Caldelas, olhinhos a brilhar da marotice e dos púcaros que entretanto tinham bebido, riram-se descaradamente. E um deles ainda acrescentou, enquanto se levantavam os dois para irem embora:

- Acabou por ser um desperdício. Levamos quase dois litros de aguardente e afinal ele poucos goles bebeu, segundo nos disse o padre depois.

 

Nota: As três frases entre comas são uma participação forçada de Fernando Pessoa/Ricardo Reis, embora com pequenas nuances.

publicado por Carapaucarapau às 10:18
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11 comentários:
De Maria Araújo a 10 de Março de 2011 às 23:18
O senhor, que esteja em paz. deveria ter feito confusão entre água e aguardente.
Por isso, com a sede que teria...
Coisas da vida.
E fixou a senhora descansada para todo o semprel ele também, com o devido respeito.


Bj


De Maria Araújo a 10 de Março de 2011 às 23:18
ficou*
sempre*


sorry


De Carapau a 12 de Março de 2011 às 13:39
Eles não souberam, se é que alguém soube, as causas da morte. A mim só me disseram qua afinal a aguardente tinha ficado quase toda no pipo...

bjo.


De MagyMay a 11 de Março de 2011 às 09:29
O Padre e os manos Caldelas formaram o trio da aguardente... inspirador (e salvador), para muita situação que anda para aí de "nem o pai morre nem a gente almoça!".

... e o Sr. António morreu feliz. Uma bênção.


De Carapau a 12 de Março de 2011 às 13:43
Fazendo humor negro é caso para dizer que na verdade "mantaram o bicho" com a aguardente.
(Se é que foi a aguardente a causa da morte, eu não sei. Tenho um palpite sobre o que deveria ter acontecido, mas nada mais do que um palpite.


De Teresa Santos a 13 de Março de 2011 às 17:40
E ninguém foi preso?!
E o pobre do velhinho, tão frágil! Teria bebido só um golo? Há mesmo a certeza disso? Abriu demais a mangueira, foi o que foi.
Ou então foi a alegria com tamanha gentileza!
Os manos Caldelas são umas pestes, é o que é!
Mais uma vez venho defender a inocência do Homem.
Para não sacrificar mais a mulher, embebeda-se o homem?
Ai, Carapauzito, só tu!
E assim escapam os pecadores!
P.S . Esta frase, de que tanto gosto, tua?!
"um púcaro com vinho refrescava sobriamente a minha sede”
O "meu" Pessoa, sempre!


De Carapau a 14 de Março de 2011 às 14:31
A frase é do Pessoa, está bem explicadinho no post. Leste as 2 últimas linhas (a azul)?
Quanto ao que aconteceu ao senhor António o que sei é que morreu. De quê? Como? Em sequência de?...
isso não sei ,mas tenho uma "teoria".
Já lá vão uns largos anos, tirando os manos, creio que já ninguém se lembra do caso (se é que houve "caso").
Direi mesmo mais. É muito provável que na altura ninguém tivesse sabido do "episódio" da aguardente, salvo os intervenientes.


De Teresa Santos a 14 de Março de 2011 às 17:49
Resumindo: pobre do Sr. António que se finou!
Ouve lá, Carapauzinho, será que twnho que te inscrever nas Novas Oportunidades? Aquele novo arremedo de "ensino", que conhecerás!
É que li, sim li muito bem as últimas linhas.
O que eu queria dizer (será que sou eu que tenho que ir para o dito curso?!!!) é que TU, NUNCA, mas NUNCA, escrevwerias aquela frase.
Fiz-me entender?!
Uf, que estafa!
Abraço, Carapauzito.


De Teresa Santos a 14 de Março de 2011 às 17:50
Desculpa os erros.
A pressa, ai, ai.


De Carapau a 15 de Março de 2011 às 19:10
Admito que nunca escreveria aquela frase. Mas que sou muito carapau para beber o púcaro com vinho isso é bem verdade.
Já tu nem escreverias a frase nem beberias o vinho.
Ora toma.
:-)


De Teresa Santos a 15 de Março de 2011 às 19:49

Um púcaro?
Não podia ser um copito normal?
É que tenho que te dar razão?! Custa-me um bocadito, mas a verdade a isso me obriga!
Nem uma coisa nem outra.
Uma tristeza!!!


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