Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 2011

Alice (3)

                                                                 

                                                                  

 

                                                  

                                            

 

Por motivos que se tornam óbvios lá mais para frente, esta história só agora é publicada, quando inicialmente estava previsto sê-lo a seguir à história da 2ª Alice.

 

Alice (a de Lisboa)

 

 Era uma mulher de “meia-idade”, de aspecto simples e semblante sofrido. Quase todos os dias me cruzava com ela. Daí que, passado um tempo, acabamos por nos cumprimentar, ao passar um pelo outro. Nada mais do que isso. Um sorriso, um baixar de cabeça, um “bom dia”, uma “boa tarde”. Não sabia nada dela e suponho que ela não sabia nada de mim.

Um dia “apanhei-a” a chorar.

- Boa tarde. Vai a chorar, que se passa? Algum problema?

Olhou para mim, senti que hesitou em me dizer alguma coisa, mas depois e de repente contou-me que o marido a maltratava, que lhe batia mesmo e que já ia com medo de chegar a casa, porque nesse dia ele tinha ido para uma almoçarada com uns amigos, que certamente viria bêbado e já sabia o que a esperava quando ele estava assim.

 Perguntei-lhe porque então continuava a viver com ele e ela respondeu-me um breve “ora…”, despediu-se e seguiu o seu caminho.

A vida continuou a decorrer, voltamo-nos a cruzar muitas vezes mas nunca mais trocamos uma palavra sobre o assunto,até que um dia voltei a vê-la a chorar.

- Continua a mesma vida não? – perguntei, para dizer alguma coisa.

- Não, infelizmente não. Agora ainda é pior. O meu marido morreu!

Abri os olhos espantado e disse-lhe que não percebia então aquelas lágrimas, atendendo à má vida que ele lhe dava.

- Coitadinho dele, sofreu tanto…

Abri a boca para dizer qualquer coisa e voltei a fechá-la sem dizer mais nada e desta vez fui eu que me despedi primeiro e fui embora. Pelo caminho fui-me perguntando se tinha o direito de julgar o procedimento de outra pessoa.

 

                                                                 -o-

 

A história desta Alice acabava aqui. Acontece que, poucos dias depois daquele último encontro, ela me viu a sair de caverna com a Carapoa ao lado a arrastar-se agarrada a umas canadianas e quando já íamos a entrar no carro, aproximou-se e perguntou:

- Acidente?

Foi-lhe explicado que não, que era um problema na articulação. Falta de cartilagem que provocava fortes dores. Só a operação resolveria o caso.

- Eu sei disso. Já fui operada pelo mesmo motivo.

- Pois, vamos exactamente ter uma consulta para marcar a operação em regime particular, já que o Serviço Nacional de Saúde não sabe quando a pode realizar, mas nunca nos meses mais próximos.

E com grande espanto meu, a Alice pediu para esperarmos mais 2 ou 3 dias, ela ia tratar de tudo, em princípio ainda no dia seguinte diria qualquer coisa, mas estava convencida que tudo iria ser rápido, que a operação iria ser no melhor hospital para esse tipo de problemas, efectuada por uma das melhores equipas e tudo pelo SNS.

Para não entrar pormenores e para além dum pequeno atraso graças à incompetência de alguém num centro de saúde, a verdade é que tudo correu assim e tudo estava resolvido em 2 semanas.

No dia seguinte à operação, numa visita médica aos operados na véspera, o médico operador depois das perguntas profissionais que fez, perguntou:

- Então conhece a Alice?

- ?

E contou outra história da Alice que explicava tudo. Mas isso já era entrar noutro campo que fica fora desta história.

E eu voltei a falar para as minhas barbatanas:

“Quantas vezes as aparências iludem e os juízos que fazemos das pessoas estão completamente errados”.

 

                                                                 -o-

 

Tenho tido alguma sorte na vida: conheci várias Alices. Duma maneira geral sempre me surpreenderam. Deixei aqui a história de três, como poderia deixar a história de mais umas tantas.

 

                                           

publicado por Carapaucarapau às 19:18
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15 comentários:
De Maria Araújo a 17 de Fevereiro de 2011 às 22:01
Fantástico.
A ajuda e boa intenção vêm de quem menos se espera.
Pelo que vejo dás-te bem com as Alices. E , por curiosidade, fui ver o significado do nome: a verdadeira, a autêntica"
E a Carapoa está bem?
Beijinho


De Carapau a 18 de Fevereiro de 2011 às 11:19
Com Alices, com Marias, com Elisas e tb com alguns Zés, Maneis, Augustos...
De resto tá tudo bem obrigado.
Bjo.


De Teresa Santos a 17 de Fevereiro de 2011 às 22:35
A eterna mania dos homens em quererem entender as mulheres.
As Alices " são, de uma maneira geral, generosas, amigas de ajudar, etc. mas, mas... no que toca ao "seu" homem, não tentes que nunca vais entender.
As mentalidades mudaram, esta é uma verdade indiscutível, mas uma "Alice" de meia-idade ainda pertence à geração das que se queixavam, eram maltratadas, mas adoravam o "seu" homem.
Este tua história fez-me lembrar uma "Alice" que conheci há uns anos.
Eu era uma miúda, a minha mãe visitava-a e por vezes levava-me. Lembro-me dela contar que o marido a maltratava, etc., etc. minha mãe aconselhava-a, enfim, o costume.
Certo dia, numa das nossas visitas, , ele chega com uma bebedeira monumental e começa a querer vomitar ali mesmo, na sala. E eu, num espanto sem nome, VI aquela "Alice", levantar a ponta da saia, e ir amparando, a ele e ao vomitado, até à casa de banho. Há imagens que nos acompanham vida fora, e esta é uma delas.
Resumindo: envelheceram juntos.
Eu fui crescendo e continuando a visitá-los, e assim assisti ao nascer de uma ternura enorme, uma ternura da parte dele que era um misto de gratidão, amor, amizade (pelo menos eu assim o entendia) por aquela mulher que foi companheira, mulher, amiga, mãe dos seus filhos, tudo.
E acredita, aqueles dois tiveram uma velhice feliz. Penso que a "Alice" soube perdoar, esquecer, viver apaziguada com o "seu" homem.
As relações humanas por vezes, assumem aos nossos olhos, contornos incompreensiveis.
Desculpa a dimensão do comentário!!!


De Carapau a 18 de Fevereiro de 2011 às 14:24
O espaço aqui é ilimitado podes estender à vontade a escrita, sem precisares de pedir desculpa. A minha história e a tua são só duas das milhemtas que todos so dias acontecem. Quanto à "eterna mania dos homens em quererem entender as mulheres", ao contrário do podes julgar, não é nada mau. Mau é quando isso não lhes interessa. E que eu "entendi" a reação da Alice está no facto de eu ter aberto a boca e não ter dito nada.
Que as reações humanas assumem por vezes "contornos incompreensíveis" não me admira nada. Já vivi o suficiente para saber que o bicho humano é assim mesmo: incompreensível. Ainda bem. E acho que é uma boa maneira de terminar este comentário.


De Teresa Santos a 18 de Fevereiro de 2011 às 14:35
É sim senhor, uma boa maneira de terminar.
Percebi, pela tua discrição, que tinhas entendido aquela "Alice". Mas, e sabes isso tão bem, ou melhor do que eu, que a maioria dos homens não entende NADA.
Incapacidades!
Ontem, de tão lançada, esqueci-me de desejar as melhoras à tua Carapoa . Oxalá corra tudo bem, e que ela fique a 100%.
Abraço, Carapauzito (recolheste as barbatanas? Sim? Está bem!)


De Carapau a 19 de Fevereiro de 2011 às 14:09
Babatanas recolhidas, abraço recebido, tudo bem com os animais cá da caverna.
Obrigado.
Abraço retribuido.


De Teresa Santos a 19 de Fevereiro de 2011 às 17:14
Bom fim-de-semana, de preferência com muita chuva.
Sim, porque Carapau é disso que gosta: águinha!
Abraço


De Carapau a 22 de Fevereiro de 2011 às 13:53
Carapau também gosta de um bom vinho tinto. Isto para falar só em líquidos...


De Teresa Santos a 22 de Fevereiro de 2011 às 16:25
Não páras de me espantar!
Vinho?! O carapauzito gosta muito, mas mesmo muito, é de vinagre, quando o fazem de escabeche.
E olha, não faças mais escabeche, ok?


De Carapau a 24 de Fevereiro de 2011 às 14:29
Màzinha!


De Teresa Santos a 24 de Fevereiro de 2011 às 12:34
Que dia é hoje?

5.ª feira.

Então???


De maria teresa a 22 de Fevereiro de 2011 às 19:30
Cada vez chego mais atrasada ao nosso "encontro" o que me safa é que, por enquanto, os atrasos não pagarem imposto e "os últimos serem os primeiros".
Devo dizer-te que das três "histórias" das Alices, esta foi aquela de que gostei mais, que se enraizou em mim.
Por detrás de cada rosto, de cada corpo, há uma pessoa e todas as pessoas são seres únicos, com motivos, modos de estar na vida, afectos,...que as levam a agir e a encarar a vida de maneiras muito diferentes ...
Cada vez interiorizo mais que não podemos inferir quase nada ... nem julgar nada apenas pelo que nos parece que é.
Hoje comentei muito a sério, prometo que estou em vias de me curar:):):)
Beijinhos


De Carapau a 24 de Fevereiro de 2011 às 14:32
Cura-te depressa que esse estado de "seriedade" faz-te mal.
(Mas tens razão nessa coisa "do que nos parece que é").
Jinhos.


De Red Maria a 22 de Fevereiro de 2011 às 22:03
Muita coisa ficou por dizer nesta história pelo que ficarei pelo que li.
Não compreendo esta Alice e nem nunca compreenderei nenhuma.
Quanto ao resto espero que esteja tudo bem.


De Carapau a 24 de Fevereiro de 2011 às 14:35
Perspicácia de quem pinta as unhas de vermelho...
Mas está (quase) tudo lá.
Quanto ao resto está tudo bem, obrigado.


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