Domingo, 27 de Abril de 2008

A Solha Zarolha

 

Tinha nascido no lado errado da vida. Ela que sempre sonhara andar na crista das ondas, limitava-se a ter de andar ao rés da areia, muitas vezes mesmo, abaixo dela. Para se defender é certo, mas também porque assim lho impunha a sua condição económica. E um azar nunca vem só. Para piorar a situação ainda lhe tinha acontecido em pequena aquele acidente, de que resultava só ver dum lado. A única coisa que ganhou, fraco ganho afinal, foi o sobrenome. Zarolha ia ficar, e duplamente, para o resto da vida. Continuava sempre a sonhar. Não havia revistas cor de rosa que não lê-se, festas a que não ambicionasse ir, sapatinhos de cristal que um dia lhe servissem na medida certa, príncipes encantados que a viriam tirar daquela vida rasteira, médicos que a não quisessem operar e restituir a visão dupla.

Até que um dia…

Correu depressa a noticia. Apreciados Linguados e Distintos Pregados foram dos primeiros a saber. Os Búzios gritaram ao mundo a noticia, ampliando-a. E não houve peixe careta que a não viesse a saber. E foram festas intermináveis, entrevistas sem fim onde o papelinho premiado era sempre exibido, pretendentes em fila. Até lá dos confins do mundo o Esturjão Fidalgo (arruinado certamente) lhe mandou uma caixa de caviar (jóias de família) e se ofereceu para lhe prestar todas as assessorias que o novo estatuto certamente requeria.

Saíra o Euromilhões à Solha Zarolha, que a partir daí começou a ser conhecida pela Solha Simpática… E foram dias e noites loucas, festejos contínuos… V. Exa. para cá, Vossa Senhoria para lá. “V. Exa. dê as suas ordens”, “ficamos ao dispor de V. Exa.”, “o nosso Banco será o que melhor servirá V. Exa.”, “a nossa clínica está ao inteiro dispor de V. Senhoria para resolver o vosso problema de visão”, “será uma honra contar com V. Senhoria entre os nossos clientes”, “estamos inteiramente ao dispor de V. Exa. para tratar de toda a parte jurídica de que irá certamente necessitar nos seus investimentos, somos uma sociedade de advogados especializada e bem relacionada no meio”, e aí por diante foi um nunca mais acabar de pessoas, instituições e afins a porem-se ao dispor de Sua Exa.

Não faltando também os que pediam directamente auxilio sem dar nada em troca. Instituições de benemerência aos centos (incluindo aquelas que lhe bateram com a porta na cara aquando do acidente de que resultou a sua zarolhice) e casos individuais aos milhares, incluindo os que sempre a tinham gozado.

A Solha Simpática, mas ainda zarolha, a todos fez ouvidos de mercador. Frequentava as festas, dançava com príncipes e plebeus, a todos insinuava a grande simpatia que por eles tinha, bebia champanhe e petiscava o caviar, causava ciúmes, dava entrevistas, aparecia em todos os noticiários. Até o Unicórnio entra na dança, ele que afinal nem existe mas que deu jeito meter nesta história só para simbolizar a dor de corno de muito bicho…

Quem conhecesse melhor a Solha, se nesses dias estivesse mais atento, notaria  no entanto, que no meio de toda aquela alegria e agitação pairava uma sombra de tristeza no seu olhar. Mas quem é que estava interessado nesses pormenores? Ninguém.

Por isso todos ficaram espantados quando uns dias depois alguém gritou que a Solha Zarolha se havia pendurado no primeiro anzol que apanhou pela frente. Uma vez mais os Búzios voltaram a gritar a notícia ao mundo.

Ninguém entendeu. Só o Safio Psicólogo é que explicou sucintamente que a Solha não aguentou a pressão. Ninguém lhe prestou atenção.

Como todos sabiam que a Solha Zarolha (outra vez Zarolha, desapareceu o Simpática) não tinha herdeiros, logo começaram a vasculhar as areias à procura do já famoso papelinho que daria direito a receber os milhões a quem se apresentasse com ele. Não ficou centímetro quadrado por vasculhar. Amêijoas, Cadelinhas e outra bicharada foram removidas para tudo ser inspeccionado. E o papel sem aparecer. Até que um distraído goraz de olho arregalado o viu encaixilhado num rochedo bem à vista de todos mas onde a ninguém passou pela cabeça procurar. E estava acompanhado por uma carta onde a Solha Zarolha explicava tudo. Que só pretendera brincar, que as coisas fugiram ao seu controle e que tinha aproveitado para viver uns dias como sempre sonhara. O bilhete era falso, porque os números estavam certos mas eram da semana anterior. Ela limitara-se a preencher uma aposta na semana seguinte com os números premiados da semana anterior para se divertir com a vizinhança e a verdade é que ninguém reparara nesse “pormenor”. Assim sendo deixava ali o papelinho para ninguém se esquecer. E terminava com um adeus a todos.

Os insultos, os gritos, as pragas, também as risadas de alguns e o torcer de orelhas de outros, já não fazem parte desta história, mas pela intensidade e duração, ficarão para a História.

publicado por Carapaucarapau às 16:35
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De Maria Araújo a 27 de Abril de 2008 às 22:11
Ó carapau, continuo a afirmar que de facto tens muito jeito para inventar histórias. És como um peixe na água. A solha zarolha não tinha nada de burra! Soube viver o sonho...
E tu viveste o teu????


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