Quarta-feira, 2 de Fevereiro de 2011

As osgas

                                         

    É a osga moura (Tarentola mauritanica), a que existe em Portugal, centro e sul.)

 

Aviso: este post, depois de escrito, foi submetido ao “Lince” – conversor para a nova ortografia – que o converteu. Futuramente todos os posts serão escritos dessa maneira. Farei o possível para que aconteça o mesmo aos comentários que aqui faço, mas neste caso sem total garantia de observar sempre o acordo. A rotina também tem a sua força.

 

 Nunca matei uma osga. A afirmação pode não ser completamente verdadeira, mas deliberadamente nunca matei nenhuma. Não me fazem impressão, ao contrário do que acontece a algumas pessoas, e cheguei mesmo a ter um relacionamento diário, durante muitos anos, com uma bem inchada e jeitosa.

Quer estivesse a escrevinhar sentado à secretária, quer a garatujar, já mais perto da janela, ela lá estava na parede da varanda a que eu tinha acesso, a mirar-me, curiosa, aproveitando para tomar o seu banho de sol. Eu piscava-lhe o olho, ela mirava-me através da frincha que tinha nos olhos, imóvel, com uma cara séria, de quem não dá confiança nem mesmo a um velho conhecido, como eu. Eu trabalhava, ou fazia por isso, ela vigiava. Nunca me aplaudiu, nunca me repreendeu, mas convivíamos tão bem um com o outro como Deus com os anjos, sendo que nem eu era Deus nem ela era parecida com um anjinho. Tinha a pele suficientemente rugosa para poder ser comparável à acetinada pele dos anjos. Acetinada digo por já ter lido e ouvido, que em verdade em verdade vos digo nunca apalpei pele de anjo. Já lhe comi os papos, mas isso agora nem era para aqui chamado pois estou a falar de osgas.

Outra osga que conheci de perto, ainda que por pouco tempo, era, e suponho que ainda seja, algarvia. Num restaurante dos chamados “típicos” pois além de se chamar “O Barco”, tem a decoração com apetrechos marítimos (redes, covos, remos, etc). Já na parte final dum jantar que correu normalmente e a gosto, sem motivos nem para elogios exagerados nem recriminações injustas, ali pela hora do café e quase hora da “nota”, ela, a osga de serviço, apareceu no teto, passeando-se calmamente a ver se tudo corria bem e se a clientela estava satisfeita. Vi-a, sorri-lhe como que a dizer-lhe que conhecia uma prima dela, chamei a atenção da Carapoa para a ilustre visitante, mesmo sabendo que isso me ia trazer problemas diplomáticos (se a osga tivesse aparecido no princípio do jantar eu tinha ficado caladinho) e a reação não se fez esperar. O funcionário foi chamado com toques de urgência, foi-lhe perguntado o que era “aquilo” ali no teto e perante a resposta risonha do mesmo, a dizer que era uma osga, que fazia parte da decoração e ainda havia mais, logo foi decretado que nunca mais se jantaria ali. E a verdade é que o decreto-lei ainda continua em vigor e nunca mais “embarquei” naquele Barco.

Com uma outra osga o caso poderia ter sido mais grave, se tivesse sido descoberta a ligação que durante uns minutos tive com ela. Ligação curta mas intensa, pois poderia ter posto em causa a permanência desta caverna como residência oficial do Carapau. O caso conta-se em meia dúzia de palavras. Perdão: o caso contava-se em meia dúzia de palavras se eu tivesse o dom da concisão e não este dom de “encher chouriços” mesmo que seja com osgas. Estava eu descansadamente a olhar (sem ver) para a televisão, quando vejo (neste caso, “claramente visto”) assomar na parede mesmo ao lado de ecrã uma osguinha (o diminutivo tem a ver com o carinho e não com o tamanho), que subiu parede acima e ficou ali a ouvir as notícias, já que não conseguia ver o que se passava. Entrei em pânico como se calcula. Não por mim, mas pelo que podia acontecer se mais alguém tivesse acesso a tal visão (a “tal visão”, não à televisão). E o “perigo” rondava por muito perto, havia que entrar em ação imediatamente, em força, com discrição e sem barulho. Fui buscar a arma, preparei-me para uma intervenção rápida com a vassoura e preparei-me também psicologicamente para abater a minha primeira osga, mesmo sabendo que ficaria com remorsos para o resto da vida. Preparei o golpe, tirei o azimute do lugar, regulei o ângulo de tiro, tomei precauções para não haver danos colaterais e “disparei”. Do ato não houve notícia. Nem osga morta, nem osga viva, nem osga moribunda. Simplesmente osga desaparecida em combate. E aí entrei em pânico. Não estando morta, nem aqui nem ali, onde se teria metido a bichinha? A janela (que dá para a varanda) aberta, podia ter sido o ponto de fuga, mas inspecionado o local e a parede exterior nada foi detetado. Devia estar dentro de casa. Fechei as outras portas do compartimento para não deixar que o problema se propagasse para outras latitudes e vasculhei tudo. Por baixo, por cima, arrastei, levantei, fiz o pino, varri.

“Que andas aqui a fazer com a vassoura?”. Pronto! Estava em iminência uma eventual retirada estratégica da caverna para outra caverna, ou na melhor das hipóteses o recrutamento dum corpo de intervenção rápida para resolver este caso. Era preciso manter a calma e responder depressa e convincentemente à pergunta. Habituado a situações de alto risco e a enfrentar desde arrastões a tubarões, aparentando a calma dum carapau inglês, respondi. “Caíram-me os óculos, ando a ver se os encontro”.

“Esses que tens na testa ou outros”? Uma gargalhada e a “eterna distração dos sábios” resolveram a situação.

Novamente sozinho, o problema subsistia. Onde estaria a osga? Tornei a bater, varrer, levantar e vasculhar e perante a nulidade dos resultados, fiquei à espera das consequências quando ela, noutro dia à sua escolha, resolvesse aparecer novamente para ouvir ou ver as notícias. Também fiquei intrigado como poderia ela ter ali aparecido, já que não me parecia nada provável que, mesmo sendo boa trepadora, tivesse vindo da rua e chegado a tal altura. De lupa em punho e cachimbo pendurado, qual Sherlock Holmes, cheguei à conclusão que só podia ter entrado de uma maneira. Uma mesa de jardim com pernas ocas, de tubo, que tinha vindo de outras paragens onde abundavam osgas, para alindar a varanda, deve ter sido o cavalo de Tróia utilizado pela bicha. De facto a uma das pernas faltava a “tampa” que as outras tinham para tapar o tubo. Algum tempo depois, sem ter mais notícias da “menina”, encerrei o assunto e meti a “rolha” onde ela faltava, prevendo que ela pudesse ter-se enfiado novamente no “cavalo”. Se assim foi…

publicado por Carapaucarapau às 19:18
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