Quinta-feira, 13 de Janeiro de 2011

As três Alices (II)

                                                                     

 

 

Alice (a do norte)

 

Era casada, tinha dois filhos já adultos, já era avó de dois netos, filhos da filha mais velha. Morava com o marido e o filho mais novo. O marido não trabalhava, tinha uma pequena reforma, o filho fazia umas coisitas mas ficava com o dinheiro e só ela trabalhava no duro, para sustentar a casa. No entanto era o marido que ficava com o dinheiro todo e só lhe dava o que ela precisava, fosse para o “passe” nos transportes públicos, fosse para comprar umas cuecas, fosse para carregar o telemóvel. Tudo contado e devidamente justificado. Além disso tratava-a mal. Ela dizia que ele nunca lhe tinha batido, mas insultava-a por dá cá aquela palha e controlava-lhe os passos, para além de lhe “controlar” o dinheiro, como já ficou explicado. Os filhos também fingiam que não sabiam de nada, não queriam chatices com o pai ou então tinham medo dele.

 Ela era muito católica - apostólica - romana não queria ouvir falar em separação ou divórcio. O lema dela era “tenho de carregar a minha cruz, como Cristo carregou a dele”.

 Um dia o acaso pôs-nos frente a frente. A conversa começou por banalidades e acabou na “confissão” que deixei acima. Insurgi-me contra aquela situação e tentei abrir-lhe os olhos. Ou a mente, já que me parecia que ela “via” bem. Argumentei e argumentei, dei exemplos e fiz perguntas, perdi o meu latim que esbarrava contra uma barreira de ideias feitas. Era de desanimar. Porém eu pressentia que ela gostava de falar comigo, aliás ela também mo dizia, e eu não desisti. Um dia, em desespero de causa e vendo que não a convencia a nada, dei-lhe o telefone e a morada da APAV para ela passar por lá, expor o seu caso ou, pelo menos, fazer um telefonema. Disse-me que ia pensar, mas que eu já sabia qual era a posição dela sobre o assunto.

Passado pouco tempo informou-me que uns dias antes, depois do marido sair de casa, ela ligou para a APAV e começou a falar. O marido entrou inesperadamente em casa, apanhou-a ao telefone e ainda ouviu parte da conversa e foi o bom e o bonito. Entre outras coisas retirou-lhe o telemóvel.

Não resisti e chamei-lhe burra, assim com todas as letras. Dei-lhe um último conselho, antes de eu ir para férias. Que a partir do emprego voltasse a telefonar para a APAV. E disse-lhe que esperava que quando eu voltasse já ela tivesse mudado de ideias.

Uns dois meses depois, voltamos a falar. Já estava à espera da conversa do costume e das justificações tipo “a minha cruz é esta”.

 Eis senão quando ela me conta uma história das mil e uma noites. Estava divorciada!

 Não acreditei. Perguntei como era possível? Então ela disse-me que chegou a falar com a APAV, que estava já pronta para seguir os conselhos que lá lhe deram, mas que entretanto o marido arranjou outra mulher, ele propôs o divórcio e em três tempos resolveram o assunto.

 Hoje vive com o filho, que entretanto também se zangou com o pai, e só não diz que é muito feliz, porque a vida não vai para grandes felicidades, mas que ela continua a trabalhar e o filho também se empregou.

 

Qualquer pequena influência que eu possa ter tido ficou sem efeito, pois na verdade, foi a “outra” que resolveu o problema. Ironias do destino…

 

 

Aviso à navegação: são três as Alices como se diz no título. Um imprevisto acontecido com a 3ª obriga-me a adiar a sua publicação. Portanto a sua história não será no próximo post, mas em tempo oportuno ela aparecerá.

 

 

 

 

 

 

publicado por Carapaucarapau às 14:39
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