Quinta-feira, 6 de Janeiro de 2011

As três Alices (I)

                                                  

                  (Nem esta é nenhuma das Alices nem o país é o das maravilhas)

 

Alice (a alentejana)

 

Eu era assíduo leitor do Diário de Lisboa e frequentava o mesmo café com um pequeno grupo de amigos, onde quase todas as noites nos reuníamos. Uma noite, quando a cavaqueira tinha chegado ao fim e me dirigia para o carro Ela chegou-se perto de mim e disparou:

- Conheces o Ramiro?

Eu olhei-a com estranheza, não a conhecia, e respondi:

- Conheço pelo menos dois.

- O grandalhão, o conhecido por “doutor” e que é um boémio.

- Estou a ver. Conheço-o de vista, sei quem é, mas não mais que isso. Vem quase todas as noites ao café.

- Ele estava lá no café?

- Não reparei, não me lembro de o ver, não sei. Vá lá ver.

- Não quero. Se quisesse já lá tinha ido. Se fores para os meus lados dás-me uma boleia?

- Sou capaz disso…

- Sabes que eu sei quem tu és?

- Ai sim? Como?

- És jornalista do Diário de Lisboa.

- Eu?

- Sim, não vale a pena disfarçares. Tu e o grupo de amigos, com quem costumas vir ao café.

- Está enganada. Está a confundir-me com outra pessoa.

- Não estou nada e não precisas negar. Também isso não faz diferença nenhuma. Não te vou pedir dinheiro. Nunca peço dinheiro a ninguém. O que ganho chega-me. Quando estou aflita o “doutor” resolve-me o problema. É o único homem de quem aceito dinheiro e ele sabe porquê. A ti só te peço uma boleia. – E disse isto tudo num jacto quase sem respirar.

E lá fomos e a conversa prolongou-se.

Foi desta maneira que conheci Alice, uma alentejana que vivia em Lisboa há bastante tempo.

Era morena, de cara mirrada, olhos vivos e aspecto de quem não tinha vida fácil.

Já não era nenhuma criança, trabalhava no que lhe aparecia e era uma “compincha” para as farras, sendo o célebre “doutor” Ramiro um dos seus assíduos companheiros. Além de outras coisas eram os dois alentejanos e ambos lá das bandas da Amareleja. Ficamos um bom pedaço de tempo a falar e contou-me a história da vida dela. Ninguém é historiador isento em causa própria e certamente que pintou umas coisas com cores diferentes das verdadeiras, mas ouvi-a com interesse. Disse-me como vivia, tinha um quarto em casa dum casal, que também lhe deixava servir-se da cozinha e que o grande sonho da vida dela era ter uma casa só para ela. Andava à procura duma de renda barata, pois já estava farta de viver em casa dos outros, mas a coisa estava difícil.

Quando nos despedimos disse-me que eu era um tipo porreiro, que podia estar à vontade que ela não ia dizer a ninguém que eu era jornalista, mas que não percebia porque eu negava.

Mais tarde vim a saber desta teimosia dela em querer à força que eu fosse jornalista. No “meu” grupo de amigos todos éramos leitores do Diário de Lisboa, cada qual comprava o seu jornal e no café muitas vezes estávamos a lê-lo. Acabamos por ser conhecidos, sem sabermos, pelo “grupinho do Diário de Lisboa”. Daí a conclusão que a Alice deve ter tirado sobre a nossa “profissão”. De leitores passou-nos a redactores.

Por diversas vezes a partir dessa noite encontrei a Alice que, sempre que me via, me contava mais um episódio da sua vida. Uma noite estava eu parado num semáforo e ouvi uma gritaria na rua, a que não liguei importância. Daí a uns segundos bateu-me no vidro do carro a Alice que queria falar comigo. Entrou, eu arranquei e ela despejou a grande novidade: tinha alugado um andar. Ainda não morava lá, ainda não tinham ligado a água nem a electricidade, o que aconteceria dentro de dias, mas mesmo assim queria lá ir comigo para me “apresentar” a sua casa. Nunca iria querer homens lá em casa “nem o Ramiro, já lhe disse isso mesmo”, mas eu era um caso especial e queria que eu lá fosse. Disse-lhe que ficava muito honrado pelo convite, que ficava tão contente como ela por ter arranjado casa, mas que naquelas condições, sem luz, não iria lá, não dava para ver nada, ficava para outro dia. Reclamou, queria mesmo que eu lá fosse, mas ao fim de pouco tempo aceitou as minhas razões e ficou combinada a visita para uns dias mais tarde.

Assim foi. Num fim de tarde, algum tempo depois deste último encontro, encontramo-nos e ela levou-me a visitar a casa.

Mostrou-me todos os cantos e recantos, mostrou-me mesmo o quarto duma hóspede que entretanto já tinha arranjado, uma estudante de medicina que tinha em cima duma pequena mesa no quarto um dos volumes da Anatomia, que a Alice me mostrou com orgulho como se fosse ela a estudante, e na despedida fez-me um pedido: queria que um dia, a combinar, eu fosse jantar lá a casa, um jantarinho feito por ela, um jantar alentejano.

- Aceitas? – Havia ansiedade na voz dela ao fazer a pergunta.

- Claro que aceito e sinto-me muito honrado. Havemos de combinar isso.

- Ainda bem. Fico muito contente. Quando tiver a casa já mais composta eu ofereço-te o jantar.

 

O tempo passou, deixei de ser leitor do Diário de Lisboa, porque entretanto o jornal acabou, o café onde me reunia com os amigos fechou e algum tempo depois passou a ser um centro comercial, a minha vida levou uma volta, o grupo de amigos foi-se desfazendo, tomando cada um o seu rumo e eu nunca mais vi nem soube da Alice, nem nunca mais tive oportunidade de vir a apreciar os dotes culinários duma mulher, que, sem eu saber ainda hoje porquê, simpatizou com um jovem “jornalista do Diário de Lisboa” a quem tinha convidado para um jantarinho.

Estejas onde estiveres, Alice, eu “ainda” não me esqueci do convite.

 

 

publicado por Carapaucarapau às 14:15
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20 comentários:
De Teresa Santos a 6 de Janeiro de 2011 às 16:16
Estranha a tua história? Nada disso!
Há muitas Alices " solitárias, sofredoras/lutadoras que correm atrás de um sonho, seja ele qual for, que agrupam - de uma maneira geral com sabedoria -, os homens que vão fazendo parte das suas vidas, quanto mais não seja do seu imaginário.
É curiosa a forma como caracterizas o Ramiro, o doutor, o companheiro de farra, mas não mais do que isso, e o personagem principal (tu próprio?) como o homem que a Alice elegeu para Amigo, o amigo com quem gostaria de partilhar alegrias, a quem gostaria de mimar.
Embora isto te possa parecer uma frase feita, acredita que não é: há pessoas que nos marcam para sempre, independentemente da questão do género.
Tenho a certeza que a "tua" Alice, onde quer que esteja, ainda te receberá de braços abertos para o prometido jantar.
Beijinho.


De Carapau a 6 de Janeiro de 2011 às 23:59
Não me lembro de ter dito que esta história era estranha. Pelo contrário há toneladas delas iguais ou muito parecidas. O "Dr. Ramiro" existia de facto e era uma figura bastante conhecida em certos meios da boémia lisboeta.
A Alice era uma "personagem" com uma história de vida que valia a pena escutar.


De Teresa Santos a 7 de Janeiro de 2011 às 20:41
Não disseste, mas disse eu, ora essa!
É que há pessoas que pensam que estas histórias não passam de estórias , o que não é verdade.
Apetecia-me tanto perguntar-te se tens saudades dela, se gostarias de a ver/rever, se gostarias de partilhar esse jantar a dois, gostava tanto? Mas...
Abraço.


De Teresa Santos a 10 de Janeiro de 2011 às 14:56
Peço mil perdões pela intromissão.
Uma vez que a menina maria teresa quer, à viva força, um "Aliço ", será que o menino Carapauzinho não arranja para ai um?!
Mas para que quererá o peixito (que só por acaso não é da horta!) saber: "Como se são feitas as bolinhas pequeninas e brancas que se põem a enfeitar certos bolos" e a partir muitos dentes, digo eu?. Será que o Carapauzito quer enfeitar a menina maria teresa com as ditas????



De Carapau a 10 de Janeiro de 2011 às 15:02
Como vês já retirei o duplicanço. Mas com isso tabém desapareceu o meu comentário e creio que também um outro teu. Conclusão: "foi pior a amêndoa que o sainete". Para a próxima deixo ficar tudo, até porque fico com mais um motivo para responder aos teus comentários, que são bem vindos. Se deixasses de vir o blog continuaria? Sim, continuava, mas não era a mesma coisa!
:-)

(Isto ficou tudo desalinhado, tive de fazer o "teu" comentário entrando como se fosses tu, enfim um trabalho técnico de alto risco que acabou por não compensar.
:-)
Abraço.


De Teresa Santos a 10 de Janeiro de 2011 às 15:13
E agora fico cheia de remorsos, não é?
Ora! Esses trabalhinhos técnicos são óptimos!
O bolg sem esta tonta (repara que é sem aspas!), não era a mesma coisa, não, não!
E é quase quinta-feira...


De Maria Araújo a 6 de Janeiro de 2011 às 22:50
Carapau, o que mais desejo é que a Alice frequente estes "meandros" da internet, e, por mero acaso, ou não, te leia e te encontre.
O Sapo destaca repetidamente certos blogs. Não sei o porquê de não destacarem o teu e outros tantos. Será pela idoneidade, que não significa ser cota?! Mas, pelo que vou "cuscando" e não são muitas as vezes que o faço, fico com a sensação de que previligia os mais jovens.
Concordo.Há que motivar os jovens, mas penso que tu, e não é por seres meu amigo, mereces um destaque há muito tempo....Nem que seja para a Alice te descobrir e oferecer o jantar prometido.

Beijinho


De Carapau a 7 de Janeiro de 2011 às 00:04
Pus-me a fazer contas e acho difícil que a Alice possa ter conhecimento deste post. O Diário de Lisboa fechou há 20 anos, os episódios aqui contados aconteceram um bom par de anos antes, a Alice já não era uma criança...tudo somado...não me parece que vá haver o tal jantar.
Quanto aos destaques do sapo nunca me preocupei, nem me interessam. E destaque não é propriamente o que mais pretendo.
:-)
Bjo.


De Maria Araújo a 7 de Janeiro de 2011 às 09:49
Olá. Sabes tu lá se ela não anda por aqui?
Sabes lá se ela tem uma boa memória e recorda esta história?
Sabes lá se....???? O destino tem das suas...
Quanto aos destaques, só escrevi porque há muitas pessoas que abrem blog com um objectivo e conseguem-no, através do destaque.
Porque destaques/promoções, sei que não queres.

Beijinho


De Carapau a 7 de Janeiro de 2011 às 12:41
Saber, não sei nada senão já tinha reclamado o jantar.
Mas sei fazer contas e palpites (quase sempre errados, é certo) e não me cheira nem a uma açorda de bacalhau.
Bjo.


De Maria Araújo a 7 de Janeiro de 2011 às 19:10
"não me cheira nem a uma açorda de bacalhau", ahahahahahahahahah!


Beijinho


De maria teresa a 8 de Janeiro de 2011 às 01:03
Pois é! Estou baralhada, aliás ando a baralhar-me muito, depois dos comentários que li, tão sérios, não sei se deva dizer o que penso...mas como quem não deve, não teme, vou ousar.
Tenho uma inveja imensa das tuas aventuras, nunca encontrei um Aliço a quem desse boleia, que me levasse a mostrar a casa, que me convidasse para um jantarinho...por isso faço um apelo: Aliços alentejanos ou de outra parte qualquer do país, onde estais, anda por aqui uma moiçola, já entradota, desejosa de te encontrar...:):):)
Faltam duas Alices, vamos lá ver como são!
Beijocas


De Carapau a 8 de Janeiro de 2011 às 12:41
Pois podes crer que o mundo está cheio de “Aliços” e, se calhar, até já tropeçaste em alguns. O que acontece é que são em geral maus cozinheiros...
As "aventuras" que tive/tenho/possa vir a ter não diferem das “aventuras” das outras pessoas. Muitas vezes é só uma questão de as contar com a “crueza forte da verdade ou cobri-las com o manto diáfano da fantasia”.
Ou nem uma coisa nem outra e contá-las simplesmente. É só o que tento fazer.
Percebeste alguma coisa? Eu não.
:-)
Bjo..


De maria teresa a 8 de Janeiro de 2011 às 14:27
Querido Carapau eu sei que "viveste" este episódio...e pelos vistos até percebi este teu comentário:):):):)
Mas continuo com pena de não encontrar os Aliços, mesmo estafermos, que pululam por aí! :):):) Gostava de viver essas aventuras percebes? Agora sou eu que não percebo o que estou para aqui a escrever:):):)
Beijocas


De Carapau a 9 de Janeiro de 2011 às 15:30
Perceber, eu percebo tudo, excepto como são feitas aquelas bolinhas pequeninas e brancas que se põem a enfeitar certos bolos.
:-)
E tu sabes?
Bjo.


De Anónimo a 9 de Janeiro de 2011 às 18:28
Comentário apagado.


De Carapau a 9 de Janeiro de 2011 às 19:56
Só posso dizer que continuas em grande forma física, com tão grande fôlego que agora pões os comentários em duplicado. :-)
Continua a praticar que faz bem à saúde.
Quanto ao "problema" da outra Teresinha que quer um Aliço, eu ainda não cheguei ao ponto de ser agência disso. Ela que esgaravate até encontrar.
:-)


De Teresa Santos a 9 de Janeiro de 2011 às 20:48
Tão mauzinho , mas tão mauzinho! Isso faz-se à Teresinha? Tótós há muitos, Aliços não sei!
Mas olha lá. Não podes "apagar um dos comentários?
É que já é a segunda vez.
És tu, mais essas horríveis barbatanas, que me embruxaram.
Será para eu não voltar mais?!


De maria teresa a 9 de Janeiro de 2011 às 21:19
Eu sei! Então não havia de saber?
(cinco minutos de pausa)
O que é que perguntaste:):):)
Beijocas


De Red Maria a 11 de Janeiro de 2011 às 17:05
Eu não percebi nadinha destes comentários que gosto sempre de ler. .. andam por aqui umas entrelinhas que ando preguiçosa para descodificar.

És um grande contador de histórias ( tanto se me dá que sejam reais, ficcionadas, inacabadas ou 'whatever'!)

Aguardo pelas outras.


De Carapau a 11 de Janeiro de 2011 às 19:19
Fui na conversa de uma menina e isto ficou tudo desalinhado. Eu também já o não sou muito por natureza. :-)
Elogio vindo donde vem até ,e eriça as escamas. :-)
Obrigado.
(Isto de contar histórias por capítulos, diz-me a experiência, é sempre a descer. Portanto não esperes grandes coisas).


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