Quinta-feira, 23 de Dezembro de 2010

O presépio

                                         

 

   O homem dirigiu-se a um armário, retirou uma caixa de papelão e trouxe-a para o hall de entrada do pequeno apartamento onde vivia.

   Faltavam poucos dias para o Natal e ele achou que era altura para fazer o presépio. Preparou um pequeno espaço num móvel que aí havia para poder dispor as figuras. Olhou para dentro da caixa e a primeira figura que tirou foi um soldadinho de chumbo bastante maltratado e sem uma boa parte da pintura. O homem encontrara-o há uns anos na rua. Fez-lhe lembrar um soldado dos exércitos de Napoleão e, considerando o estado em que se encontrava, baptizou-o logo de “Waterloo”.

   Desde esse ano, “Waterloo” também entrava nesta operação de montar o presépio. Não que o integrasse, mas tinha direito a sair da caixa e a ficar também em cima do móvel suficientemente afastado para não pertencer à cena, mas perto o bastante para a mirar ou mesmo a proteger.

   Todas as restantes figuras também tinham a sua história e levaram uns anos a reunirem-se na caixa onde o homem as guardava. Eram desirmanadas, umas grandes, outras mais pequenas, não obedecendo a uma escala comum. Mesmo algumas figuras não eram bem as do presépio tradicional. A vaquinha era aqui representada por um possante boi castanho avermelhado e o burro era aqui uma pequena mula quase preta.

   Para o homem isso não tinha importância nenhuma, até porque aquelas figurinhas lhe eram familiares. À medida que as retirava da caixa e as colocava em cima do móvel, ele tratava-as pelo nome. O “Amarelo” fica aqui, a “Carriça” fica do outro lado, o “senhor José” e a “senhora Maria” ficam aqui à frente. E tu, “menino” ficas aqui no meio, bem protegido.

   Em poucos segundos ficou pronto o presépio. 

   Nem gruta, nem estrela, nem manjedoura, nem mais uma figura. Nem musgo. Apenas muita e pura emoção a rodear todo aquele conjunto. E tão pura e tanta que uma lágrima começou a rolar pela face do homem. Também não havia os reis Magos.

   Nessa altura alguém bateu à porta. Ele enxugou a lágrima, deu dois passos e abriu-a.

 

                                                                -o-

Para todos os que habitualmente fequentam esta caverna, para os que já deixaram de a visitar e para outros que possam vir a frequentá-la dedico este pequeno conto com votos de Feliz Natal.

publicado por Carapaucarapau às 00:58
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16 comentários:
De Maria Araújo a 23 de Dezembro de 2010 às 14:04
Eu tinha de vir aqui hoje. Nem fiz almoço para poder ler os posts da pessoas que habitualmente visito.
Fiquei de lágrima no olho com este teu conto.
Sabes? Este dias colocquei algumas das decorações de Natal, que estão guardadadas há anos, e que ano após ano vou colacando ora umas, ora outras. O presápio já não faço há muitos anos. Contudo, tenho o preesépio tradicional, Nossa Senhora, José, Jesus, a vaquinha e o burrinho.
Ontem, ao guardar o carro na garagem, lembrei-me do presápio. Peguei nele para o pôr na mesa antiga que tenho no hall.
Com tanto saco que trouxe, esqueci-me do presépio.
Vou buscá-lo, agora. para me lembrar de ti e deste conto lindo . São estas pequenas coisas que mexem com a sensibilidade.
E tu és um conhecedor de histórias.
Já sabes o que penso.
Aproveito para te desejar um Natal Feliz, tranquilo(come, mas não te excedas).
Um beijo de Natal cheio de carinho e amizade que sabes que tenho por ti.
Maria


De Carapau a 26 de Dezembro de 2010 às 22:38
Ao teu "presápio" cheio de "prosápia" aqui fica um grande abraço e um obrigado pela simpatia e amizade.
Já estive lá no teu canto a ver a foto que a gata te tirou.
:-)
Bjo.


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