Quarta-feira, 24 de Novembro de 2010

Mértola e o Guadiana

              

                                       Zona de Mértola. Rodeado de lã por todos os lados

 

 

 Há dias, num dos concursos de televisão, daqueles de perguntas de “coltura giral” e que são óptimos para avaliar o tal grau de “coltura” da “pipulação”, foi posta a seguinte questão:

Mértola é banhada por que rio? Hipóteses dadas: Douro, Tejo; Mondego ou Guadiana.

Claro que o concorrente, que era dos tais que representava bem a média dos concorrentes, respondeu Tejo.

Eu já nem fico triste com as figuras tristes dos outros. Já me vacinei há muito contra essa doença. Mas serviu o episódio para me lembrar de uns outros episódios que me aconteceram em Mértola e arredores, ou relacionados com Mértola, ao longo dos tempos.

A 1ª vez, era eu “menino e moço”, fui em trabalho profissional e “vi-me obrigado” a passar a noite numa herdade (aliás rodeado de todo o conforto). Acordei a meio da noite sobressaltado com o “barulho do silêncio”. Foi a 1ª vez que tive essa experiência. Já tinha lido que isso pode acontecer a quem esteja habituado a um certo nível de ruído e um dia acorda quando o silêncio é absoluto.(Era também o que acontecia com o guarda da passagem de nível que acordava quando o comboio das 4h e 30 se atrasava. “Faltava-lhe” o barulho à hora certa e isso acordava-o).

De outra vez que passei por Mértola, vinha de visitar o “Pulo do Lobo”, no Guadiana, a uns quilómetros a norte da vila, e apontei para lá ir almoçar.

Dei uma volta, debrucei-me na “varanda” sobre o rio e como eram horas de almoço, procurei onde comer qualquer coisa. Um restaurante com um grande letreiro à porta onde se lia “Hoje há açorda de bacalhau” lembrou-me que estava no Alentejo e que uma açorda não ia nada mal. Entrei. Éramos duas pessoas e o restaurante estava vazio. Ainda era relativamente cedo e nós os primeiros clientes do dia. Sentamo-nos e pedimos 2 açordas de bacalhau. Ao fim duns 20 ou 25 minutos ainda não tínhamos sido servidos e chamei a funcionária. Reclamei pela demora. Pediu um momento e foi ver o que se passava na cozinha. Voltou um minuto depois e disse muito calmamente: “ Afinal não temos bacalhau. Pode ser uma açorda de pescada?” Olhei para ela como o concorrente do concurso da TV deve ter olhado para a pergunta e devo ter pensado o mesmo que ele: “que vou responder?”. Eu ia passar uns dias de férias e não me estava para chatear. Levantei-me e saí.

Uma outra história teve a ver com as lampreias do Guadiana. Um dia, numa conversa com um amigo, disse-me ele que nesse dia ia ter um jantar de lampreia e eu respondi-lhe que não gostava de lampreia. Só tinha comido uma vez e não tinha gostado. Ele ficou muito admirado e disse-me que se eu não gostei devia ser porque não estava bem cozinhada. Fui então convidado a ir jantar com ele que morava então na casa dum casal de primos, mais velhos e para quem ele era quase um filho, e a prima era uma excelente cozinheira e sabia toda a técnica para arranjar a lampreia, pois era uma minhota da zona delas. A lampreia era do Guadiana como já disse, da zona de Mértola, o que muito me admirou pois nessa altura eu julgava que o apreciado ciclóstomo só existia nos rios do norte.

Fui, comi, apreciei e “fiquei freguês”. O jantar correu animado e veio à baila a maneira como eu tinha conhecido o casal, uns meses antes.

O episódio do nosso conhecimento foi assim: “num domingo de fim de Primavera” almocei com esse meu amigo no local onde era habitual almoçarmos e depois duma ida ao café, e atendendo ao calor que fazia, ele desafiou-me a ir “a casa dele” para ver um desafio de futebol que havia nesse dia com a selecção. Eu disse que não queria incomodar os primos, que eu não conhecia ainda, e que certamente quereriam estar à vontade. Ele disse-me que os primos tinham saído e só voltariam ao fim do dia. Acabei por ir. Sentamo-nos em frente à televisão, ele serviu uns digestivos e assim começamos a ver o jogo. Entretanto, a digestão do almoço foi-se processando, o álcool foi fazendo o seu efeito a comodidade do maple foi amolecendo a atenção e entrei naquela fase de abrir os olhos e logo os fechar, de olhar mas não ver, de ouvir mas já não ligar. Sonolência completa. Ao intervalo recordo-me do meu amigo dizer qualquer coisa como cigarros que tinham acabado, de ter de ir à rua, que voltava já. Ele saiu e eu adormeci instantaneamente. Muito tempo? uns minutos, certamente. Acordei e dei um salto pois tinha à minha frente um senhor alto que eu nunca tinha visto a perguntar-me o que estava eu a fazer ali. Naqueles segundos eu não sabia onde estava, não sabia se tudo aquilo era um filme ou o se estava a sonhar. Valeu-me o meu amigo que nesse momento meteu a chave na porta vindo da rua com o tabaco. Ficou tudo esclarecido. O Senhor era o primo, o dono da casa que, juntamente com a mulher tinha regressado mais cedo do que estava previsto e que ficaram muito admirados por ver um ilustre desconhecido a dormir na casa deles, em frente à televisão. Ficamos amigos e daí para a frente várias vezes fui convidado a ir lá a casa, quando havia uns petiscos.

A ligação desta história com Mértola claro que foi feita pela lampreia.

 

A foto foi tirada no dia do episódio da açorda de bacalhau, fez há dias precisamente 12 anos. Fui envolvido, em plena estrada por um rebanho de ovelhas. Rebanho pequeno se comparado com outro que vira uns minutos antes e que tinha umas 3000 ovelhas, conforme me informaram os responsáveis por ele.

publicado por Carapaucarapau às 12:52
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