Segunda-feira, 8 de Novembro de 2010

O velho casarão (conclusão)

  

A 3ª janela

Também a janela da direita tem uma história na vida de Zé Pedro. Durante anos foi a janela do seu quarto e nela viveu um ano trágico, quando o médico o obrigou a permanecer no leito durante meses, com uma doença que em outros tempos poderia ter sido fatal. Ano difícil esse, em que “marcou passo” na vida, mas que lhe ofereceu tempo para ler tudo o que lhe vinha ter à mão e onde, através da rádio, passou a tomar consciência do que se passava pelo mundo, e de como nem tudo era como ele pensava. Tinha então uma vida pela frente e não foi fácil ser o alvo das preocupações e atenções de toda a família, ele que desde os 15 anos se tinha habituado a viver a maior parte do tempo fora dela. Ano triste mas de amadurecimento, assim pensa Zé Pedro ainda hoje.

 

A 4ª janela

Com as três janelas anteriores, Zé Pedro costuma lembrar ainda uma quarta, que ficava nas traseiras, ao cimo das escadas de serviço. Nela costumava aparecer o avô, ao fim da tarde, quando estava bom tempo, para saber “as últimas”. Raramente entrava, pois em geral, ficava do lado de fora a ouvir as notícias. Dele, o único avô que conheceu, herdou além do nome, algumas qualidades e certamente todos os defeitos, como por exemplo a persistência, que muitas vezes era teimosia, que raramente o levava a desistir de qualquer coisa. “Se os outros fazem eu também sou capaz de fazer” – era o lema do avô.

Morreu no dia em que o neto começou a trabalhar e recomendou para não lhe dizerem nada para ele não faltar, logo nos primeiros dias de trabalho.

Assim foi feito. Só dois dias depois Zé Pedro recebeu uma carta com a notícia e com a recomendação para não se esquecer de passar a usar uma gravata preta. O neto sempre viu nessa coincidência de datas como que o passar do testemunho, como se os dois fizessem parte duma corrida por estafetas.

 

Algum tempo depois, Zé Pedro deixou o velho casarão e nunca mais lá entrou. Agora olha para ele, de fora, a partir da varanda do prédio do outro lado da rua, sentado no mesmo local onde seu Pai se costumava sentar nos últimos tempos de vida e onde tiveram algumas conversas, que recorda frequentemente.

Olha para o velho casarão e vê, às vezes, coisas que já lá não estão. Como o velho cartaz, pregado numa esquina, a informar das vantagens de se empregar o “Nitrato do Chile” na agricultura, mais tarde substituído por outro a gritar as delícias do “Licor Beirão”.

E, talvez para não se esquecer dessas delícias, vai voltando sempre que pode.

 

publicado por Carapaucarapau às 18:42
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15 comentários:
De AGM a 8 de Novembro de 2010 às 23:08
Sabes, deixaste-me água na boca. Esperava mais.

Tens aqui uma ideia que, bem contada, daria um romance. Há janelas e portas que ficaram por contar e que, seguramente, têm vidas para partilhar.

Beijo



De maria teresa a 9 de Novembro de 2010 às 11:16
Desculpa querida mas troquei-te a ordem dos apelidos e o Carapau põe aqui as coisas de tal maneira que, quando a asneira vai, não há como corrigi-la sem se dar por isso!
Beijocas


De Carapau a 10 de Novembro de 2010 às 12:51
O que vale é que o Carapau tem as costas largas e assim dá cobertura às asneiras dos outros. :-)



De Carapau a 10 de Novembro de 2010 às 12:55
Sempre que há janelas e portas há certamente motivos para contar histórias, espreitar, inventar.
E no velho casarão deve ter havido (houve certamente) muitas histórias.
Não foi meu propósito ir além do que ficou contado.
A falta de jeito (minha) também é notória.
Pilriteiro, como eu, só pode dar pilritos. :-)
De pessoas com jeito para a escrita de qualidade sei eu, que por preguiça, se limitam a publicar umas fotografias...
:-)
Vem sempre, que a tua visita é bem vinda.



De AGM a 10 de Novembro de 2010 às 14:16
Já nem fotos, lol.


De AGM a 10 de Novembro de 2010 às 14:22
Quando li o primeiro post pensei que o título era fantástico. Pensei até k só pelo título eu compraria a história.
Não é que esteja mal escrito, mas já te li bem melhor e tu sabes disso, o que se passa é k não soubeste ou não quiseste aproveitar a excelente ideia que tiveste.

Sei, de antemão, que aceitarás este comentário como uma crítica construtiva.

Beijos


De Carapau a 10 de Novembro de 2010 às 19:38
Claro que aceito.
Fiquei desapontado foi com o "agora nem as fotos".
Faço votos para que um dia destes haja mais palavras. Das boas.
:-)


De maria teresa a 9 de Novembro de 2010 às 11:13
Isto não é uma conspiração mas sou da opinião da AMG.
Tantos novelinhos que se podiam desenrolar em capítulos...
Bjo


De Carapau a 10 de Novembro de 2010 às 13:03
Não sou dos que acreditam em conspirações. :-)
Quanto a novelos e novelinhos a especialista és tu. E como também tens/conheceste um velho casarão, aproveita a ideia e tece as tuas camisolas com a lã desses novelos, lá no teu sítio. (Aliás acho que até tens contado umas coisas, verdade seja dita).

Aproveito para dizer que o meu comentário anterior que fala em pilritos e pilriteiros era uma resposta ao comentário da AGM que saiu fora do sítio certo.
Bjo.


De Maria Araújo a 10 de Novembro de 2010 às 20:25
Olá.
Eu gostei. Penso que cada um de nós pode imaginar muitas histórias que aconteceram, ou não, no casarão.
a 4ª janela fez-me imaginar amores...
Quanto ao "Nitrato do Chile", lembro-me bem desse anúncio. Nem sei se ainda existe em Portugal o nitrato...do Chile. Talvez existam outros.
O "Licor Beirão", que nunca bebi, está agora na moda, nas discotecas. Não frequento estes espaços, mas quando vou às festas do vinil, vejo-o lá.

Beijinho


De Carapau a 12 de Novembro de 2010 às 10:43
A propósito de "velho casarão" lembrei-me que o José Régio se referia auma casa velha no seu conhecido poema "Toada de Portalegre". Fui verificar e aqui deixo esse pedacinho, para ti, com um bjo.
...
"Morei numa casa velha,
À qual quis como se fora
Feita para eu Morar nela...

Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos"
...


De Maria Araújo a 12 de Novembro de 2010 às 22:20
Carapau, este poema é para mim?
Ou para todas as meninas que te lêem?
Da minha partr , adorei e agradeço-te com aquele carinho especial de amizade.
Obrigado e bom-fim-de-semana.



De maria teresa a 13 de Novembro de 2010 às 16:21
É claro que o comentário é para todas nós!
Alguém duvida?


De MagyMay a 11 de Novembro de 2010 às 11:10
A história é (foi) feita pelas quatro janelas, apesar das trinta e duas aberturas...
... como a proclamar (não as delícias do licor beirão...rs) que não se existe sem passado.



De Carapau a 12 de Novembro de 2010 às 10:46
É isso mesmo.
"Somos o que fomos".
( Já não sei é quem escreveu isto).


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