Quinta-feira, 4 de Novembro de 2010

O velho casarão (parte I)

O velho casarão

(ou a vida de Zé Pedro, contada por janelas)

 

É um velho e grande casarão de meados do século XIX, que dever ter vivido os seus momentos de glória, depois tornou-se menos glorioso e mais útil (para as quatro famílias que nele viviam e para quem dele recebia as rendas) e teve o seu declínio, que o levou perto da ruína. Hoje, quase reparado e recomposto, mostra-se outra vez pronto a resistir outros 150 anos. Perto dele estão mais quatro casarões sensivelmente da mesma época e os cinco formam o casco antigo da aldeia.

O velho casarão tem r/chão e 1º andar e no conjunto apresenta 32 aberturas (portas e janelas) para o exterior.

Só três dessas janelas, ao nível do 1º andar, dão para a rua principal da aldeia.

Sentado no seu canto, na varanda do prédio que fica em frente do casarão, no outro lado da rua, Zé Pedro só vê estas três janelas viradas a poente.

E lembra como elas estão ligadas à sua vida.

 

A 1ª janela

Pela 1ª janela, a que fica à esquerda e que pertence a um quarto, ele viu pela primeira vez a luz do dia, tal como também viu e foi visto pela primeira vez pela Mãe.

 Uns vinte e cinco anos depois, no mesmo local, também se viram pela última vez, numa despedida que fizeram como se fosse “mais uma”, mas ambos sabendo que era a última.

“Daqui a uns dias dou aqui um salto”, disse ele a tentar aliviar a despedida e a pensar que mentia pela última vez. Voltou sim, mas já não era Ela que o esperava, mas uma pequena multidão que o aguardava para se dar início às cerimónias fúnebres.

Nele lutou contra as doenças infantis. Lembra-se das “bexigas doidas” e do sarampo. Ainda hoje uma pequena cicatriz no nariz, lhe lembra esses tempos.

 

A 2ª janela

É a janela do meio, a que tem uma pequena sacada com guarda de ferro forjado ainda original, e está ligada à sua infância e adolescência. Janela da ampla sala de jantar, mas que só era utilizada em dias de festa ou quando havia visitas de mais cerimónia, nela Zé Pedro praticara, na sua infância, os seus actos de rapina. Fazia então verdadeiros exercícios de alpinismo para chegar às compoteiras (que estavam sempre nos pontos mais altos dos móveis “et pour cause”), onde com os dedos (e muito na ponta dos pés) conseguia levantar a tampa e mergulhá-los nas compotas e geleias, para depois os chupar e assim satisfazer a sua gulodice. Até que um dia a tampa duma das compoteiras saiu do seu controle e chegou ao chão primeiro que ele, com duas consequências que vieram alterar o rumo da história. A dela, da tampa, que foi para o lixo partida em mil pedaços, e a dele que, uma vez descoberto, teve de deixar a sua proveitosa e doce actividade de rapina.

Uns, poucos, anos mais tarde a grande mesa no centro da sala, que era desdobrável, serviu durante muito tempo de mesa de ping-pong onde ele e os irmãos se aperfeiçoaram na arte das raquetes, onde disputavam renhidos campeonatos, que invariavelmente acabavam em pancadaria, mais por discordância quanto a interpretação das regras, do que por falta de fair-play…

Mais tarde haveriam de derrotar alguns temidos adversários que foram encontrando pelo caminho e que não sabiam destes intensos treinos a que se dedicaram durante alguns anos.

(continua…)

publicado por Carapaucarapau às 14:46
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13 comentários:
De AGM a 4 de Novembro de 2010 às 20:24
Texto que podia bem ser um testemunho real. Gostei muito e espero pela continuição.


De Carapau a 7 de Novembro de 2010 às 18:33
Um velho amigo, desaparecido há muito e ele também ligado ao velho casarão, quando eu me punha a inventar histórias, encolhia os ombros e dizia, invariavelmente: "comédias"!

A continuação seguirá dentro de momentos.


De Teresa Santos a 7 de Novembro de 2010 às 19:06
Vou contar-te um "segredo": sempre tive (vá lá saber-se porquê!) e tenho um enorme fascino por casas senhoriais, grandes, imensas e abandonadas. Passava/passo por elas e interrogo-me. "Quem teria vivido aqui? Que vidas, que histórias, que alegrias e tristezas, que gente, que gentes por aqui passaram?"
Por isso, venha o resto da história, depressinha ...


De MagyMay a 4 de Novembro de 2010 às 21:53
Não demores...

(me encantam estes contares com casarões, afectos e tralhas do passado)


De Carapau a 7 de Novembro de 2010 às 18:36
São mais as malhas (que o destino vai tecendo) que as tralhas. Essas vão ficando pelo caminho.

Dentro de momentos segue o resto.


De Maria Araújo a 5 de Novembro de 2010 às 18:04
Olá. Mais um história que tens para nos contar, e que parece ser interessante.
Ou quem conta um conto...acrescenta mais um ponto?
Confio que esta é uma das verdadeiras, que só tu sabes contar.

Beijinho


P.S.: Não deixes a continuação para daqui a uma semana...


De Anónimo a 7 de Novembro de 2010 às 18:40
O comentário que deixei à AGM também pode ser para ti.
Quanto à continuação está para breve. :-)
Bjo.


De maria teresa a 8 de Novembro de 2010 às 01:27
Agora ando sempre atrasada nos comentários! Mas que coisa tão feia da minha parte.
Para esta história não serviria um caseirão, em Lisboa, com quase metade das saídas para a rua, r/c e sótão habitável, com janelas de sacada e com uma mesa da sala de jantar em que também se jogava ping pong e que servia de obstáculo para se brincar à apanhada?
Estranhas semelhanças... por isso aguardo calmamente pela continuação da história.
Bj


De maria teresa a 8 de Novembro de 2010 às 10:49
A minha cabeça , começa a acusar a vida desregrada que levo, esqueci-me de uma coisa que está no meu post de ontem, passa por lá por favor.
Bjo


De Carapau a 8 de Novembro de 2010 às 13:00
Gostei da "vida desregrada que levo".
:-)


De maria teresa a 8 de Novembro de 2010 às 14:16
Nem calculas! É cá um "desregramento", ainda hoje levei a manhã toda a remendar roupa da minha filha e afins! Brrrr!
Bj


De Carapau a 8 de Novembro de 2010 às 18:53
Não esqueças o "didal".


De Carapau a 8 de Novembro de 2010 às 12:59
Só prova que velhos casarões há tantos como chapéus.
E que também havia muitos jogadores de ping pong. Hoje "jogam" plai estachione, feices buques e plantam couves nas quintas.
É a evolução...
Bjo.


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