Sexta-feira, 1 de Outubro de 2010

Memórias de um ex-espermatozóide

                                     

A grande corrida. Sou o 1º da direita e nesta altura já levava uma cabeça de avanço. Nota-se perfeitamente o Y na testa.

 

 

 

O título deste post, além de pretensioso, é um pouco enganador. Na realidade não tenho memória de muitos dos momentos da minha vida, quer enquanto espermatozóide, quer enquanto “ex”. Desde logo do meu nascimento. Quando dei por mim, encontrei-me num ambiente escuro, húmido e pastoso, como se estivesse a nadar num lago de lama. Mais tarde, já na categoria de “ex”, soube que até estar pronto para a grande enxurrada em que me vi envolvido, devem ter passados uns 64 dias. Tenho uma vaga ideia de ter uma linda cabeça, toda armadilhada com a última palavra da tecnologia, com um Y na testa e uma cauda que bom jeito me deu na hora da verdade. E essa hora da verdade surgiu, quando um dia (ou uma noite, nunca soube, pois estava escuro como breu) fui lançado num turbilhão medonho. É certo que continuava tudo escuro, pastoso e húmido e sentia à minha volta uns milhões de tipos como eu. Mas senti logo que aquilo era muito diferente da vida que tinha levado até então. Sei que travei uma luta de vida ou morte, vi milhões deles morrer à minha volta e então tentei fugir em frente o mais rapidamente que me foi possível. Andei quilómetros (hoje sei que foram só alguns centímetros), corri, nadei, saltei, fiz acrobacias, tudo para tentar fugir àquela confusão. De repente esbarrei contra qualquer coisa, atirei-me de cabeça e tive a sensação ao mesmo tempo, de ter sido sugado. A partir desse momento senti-me desmaiar e estive um certo tempo sem saber muito bem onde estava. Em breve comecei a sentir umas alterações esquisitas e resolvi deixar correr o marfim, se é que um espermatozóide se pode expressar deste modo. Olhei em volta e não vi nenhum dos que entraram comigo na corrida. Creio que foi nessa altura que passei à condição de ex-espermatozóide para o resto da vida. Um tempo depois dumas peripécias que nem consigo explicar, deixei o local escuro e húmido e senti que tinha saído de qualquer sítio para outro totalmente diferente. Lembro-me, tenho a mania que me lembro, que um dia descobri que tinha olhos, pernas e braços. Isto sem saber o que eram olhos, braços e pernas. “Olha se soubesse…” - penso eu hoje. Agora via, comia e enfim vivia. Mas não me lembro de nada interessante dessa fase. Uma das minhas lembranças mais antigas foi de quando me meteram uma sacola a tiracolo e disseram-me: “vai para a escola”. E eu fui, estrada acima, sozinho, sem medo e sabendo bem para onde ia. Daí para a frente foi “sempre a abrir”. Isto digo eu hoje, que aprendi esta expressão com outros ex-espermatozóides do Porto. Mas isso já foi muito mais tarde.

E “abri” tanto ou tão pouco que um dia abri um blog ou blogue, ainda não decidi a forma a usar, e fiz descobertas do outro mundo. Por exemplo, que há milhões de ex-espermatozóides que também andam aqui pela blogosfera, mas curiosamente nenhum deles é daquele grupo que comigo iniciaram há muitos anos aquela corrida/luta maluca de que eu saí vencedor. Esses outros morreram todos, como vim a saber mais tarde. Uns de cansaço, outros de morte macaca e os outros acabaram levados por um provável jacto de água ou outra coisa parecida. Eu fui o único sobrevivente. E todos os que andam por aqui, quer sejam carecas, quer usem cabelos curtinhos ou compridos com tranças, rabo-de-cavalo ou totós, também, como eu, são espermatozóides vencedores.

Quem havia de dizer?

E hoje, quando penso na pequeníssima probabilidade que eu tinha à partida (entre uns quinhentos milhões de outros como eu) de ter ganho a corrida, encolho os ombros e deixo de me chatear com a vida, com as medidas de austeridade, com os cortes aqui e ali e com as partidas que outros ex-espermatozóides me pregam.

A sorte grande (ou o grande azar?) já me saiu nesses recuados tempos em que ganhei a corrida/luta.

Também aprendi, com o tempo, por que na minha testa de espermatozóide trazia o tal Y. Era a marca para mais tarde não me esquecer de agarrar a taça…

 

publicado por Carapaucarapau às 15:02
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