Terça-feira, 20 de Julho de 2010

Gente (VII)

                                  

                                              Vitória de Samotrácia (que não tem nada a ver com o post, mas fica aqui para dar cor e elevar o nível)

 

 

Vitória

 

Vitória (Bitória para os vizinhos) era um pedaço de carne da perna de lhe se tirar o chapéu e qualquer fabiano que passasse por ela não deixava de a medir de alto a baixo, ostensivamente os mais destemidos, de ladegues os mais tímidos.

Mas, ardida como era, nem qualquer um tinha competência para apagar tal fogo e desses menos ainda faziam o rescaldo convenientemente.

A um ou outro que não fechava bem a mala e que se atrevia a dar-lhe trela a tentar cair-lhe nas graças, respondia à maneira, não os deixando esticar muito. Dar trela a alonsos e totós não era para ela, que se podia dar ao luxo de escolher quem lhe enchia o olho e mesmo assim, olha lá, não eram muitos os que se aguentavam mais que o sebo de uma vela, outro sim é dizer, que não se aguentavam muito nas flautas.

Ninguém lhe apontava defeitos e na vizinhança, mesmo conhecendo-lhe o feitio e os gostos, ninguém a considerava uma da micas-da-boa, pois era feita de outro barro. Vivia nas Fontainhas com a mãe, já velha e considerava os vizinhos como se da família fossem, isto é, sem hipóteses de sonharem em levar dali alguma coisa para além de um bom dia ou uma boa tarde. Claro que eles mediam-na de alto a baixo a tirar-lhe as medidas a olho, ainda que o que gostariam era mesmo de a medirem com a fita métrica, feitos costureiros de alta-costura. Quando as escadas de abrir não estavam por perto, havia sempre um ou outro que contava vantagens, mandando uns bitaites a dar-se ares de já ter provado do bom, quando nunca tinham passado dos coiratos e dumas tripas de vez em quando e olha lá!

Vitória aviava os cabritos que escolhia com a mesma competência com que aviava sandes de presunto e negus ou neguinhos na tasca da travessa dos Congregados, onde trabalhava, mas eram raríssimos os que tocavam aquela gaita-de-beiços durante muito tempo. Entenda-se, para não ficarem dúvidas, que não era mulher de andar ao engate ou de fazer qualquer coisa por arame. Para isso trabalhava. Aos azeiteiros despachava-os a alta velocidade, nem que para isso tivesse de arriar a giga. Tinha lábia para dar e vender e não lhe davam a volta com facilidade. Das poucas vezes em que apranchou com um ou dois foi sol de pouca dura. Antes só, que aturar por muito tempo, quer fosse um artolas, quer fosse algum a armar-se em Zé de Sousa, daqueles que só têm letra, a cantarem loas aos respectivos pífaros de carcela.

Raramente passava atestado a um ou outro mesmo que prestasse boas provas e só uma vez se enganou bem enganada com um finguelas que lhe deu água pela barba e a deixou dois ou três dias a pão e laranjas. Mas a esse nunca mais viu. Pelo falar não era menino da zona, mas sabia a música toda de cor e salteado, aquilo sim é que era tocar!

O normal era eles, passado pouco tempo, já não terem unhas para tocar e vazarem antes de começarem a roer o sabugo. Davam corda aos vitorinos e faziam-se ao largo.

Gostava particularmente dos bem encadernados e com boa tabuleta, mas não tinha problemas em bater no Siska, se as coisas não corriam a contento. Alguns, só de lhe olharem para o coxame, arregalavam os olhos e ficavam com eles maiores que a barriga, sinal evidente de que não valia a pena perder muito tempo a dar-lhes trela.

Nunca se negava a uma boa conversa, por mais lábia que o fabiano ou o fidalgote tivessem e desconcertava-os com as suas labrecas. No entanto, em serviço na tasca, não os deixava esticar muito, fiel ao princípio que trabalho é trabalho e conhaque é conhaque.

Pássaros bisnau a pedir cheguinhas nem resposta levavam, que apesar do seu afogueamento, não era mulher de solheiro e dava-se ao respeito.

Assim era a Vitória (Bitória para os vizinhos).

 

Este texto explorou, como se nota, um certo tipo de calão. Muito está generalizado de norte a sul, outro é mais confinado ao Porto e arredores. Socorri-me, nestes casos, do glossário publicado no livro “Porto-naçom de falares” de Alfredo Mendes, da Âncora editora.

publicado por Carapaucarapau às 12:33
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16 comentários:
De Calendas a 20 de Julho de 2010 às 13:23
Fantástico. Excelente, excelente, excelente. Parabéns.


De Carapau a 21 de Julho de 2010 às 12:32
E-xa-ge-ra-da!!!
E eu até calculo a razão disso: saturada de corrigir testes e exames de nivel médio baixo, qualquer coisa diferente te entusiasmou.
Mas que fiquei meio babado é verdade, sobretudo vindo o elogio de quem escreve mais que bem.
Obgdo.


De Teresa Santos a 20 de Julho de 2010 às 21:18
Aí tens uma Mulher "às direitas", daquelas de fibra que, penso, já só existem (subsistem) nesse teu Norte.
Apetecia-me tanto colocar-te uma questão, mas fica para a próxima. Não quero "estragar" a beleza do texto.
Belissimo, na riqueza vocabular.
Abraço.


De Carapau a 21 de Julho de 2010 às 12:39
Em 1º lugar uma informação: não sou do norte. Mas gosto de "algum norte" e de "algumas pessoas" do norte.
Obrigado pela simpatia do comentário.
Quanto à questão a ser posta, o espaço está aqui pronto a recebê-la.
Quanto á minha resposta (se a questão pedir resposta) é que já não sei se estará à altura.
Fico a aguardar.


De Maria Araújo a 20 de Julho de 2010 às 23:36
Olá.
Gostei desta V(B)itória. E, pela decrição que fazes dela, nada fica a dever à esbelta Vitória de Samotrácia.
A imagem foi muito bem "encaixada" aqu.

Beijinho


De Carapau a 21 de Julho de 2010 às 12:51
Hoje deve ser o dia mundial do exagero!
Se eu fosse do tipo vaidoso, enfeitava-me com umas peninhas de pavão e ia dar uma volta à praça, a mostrar-me.
Como isso não faz o meu género, fico aqui quietinho (mas contente é claro) e atribuo tudo à simpatia de quem me comenta.
Bjo. e boas férias.


De Padre confessor a 22 de Julho de 2010 às 00:18
Lá no meu convento também há muitas "tracias", deve ser por isso que aquilo anda meio esburacado.


De Carapau a 22 de Julho de 2010 às 22:34
O Sr. Padre é que me saiu uma boa "tracia". Mas se precisar duma ajudinha lá no convento para tapar os buracos, diga coisas, que talvez se arranje qualquer coisinha. Depois passo por lá e bato à porta na esperança que uma das noviças a venha abrir.


De Teresa Santos a 22 de Julho de 2010 às 19:20
Ora vamos lá esclarecer alguns pontitos.
1.º A troca dos B pelos V e vice-versa é muito característica do Norte;
2.º A fibra da dita (B)Vitória idem. A mulher nortenha tem fama de não ser para brincadeiras (e parece-me que o proveito!);
3. º Sou, com está demonstrado, uma grande tótó, porque só estes elementos não deveriam ter-me levado a tirar esta conclusão. Enfim...
Agora, a perguntinha, aliás AS perguntinhas: em qual dos perfis enumerados te revês. No "ladegues" (o que é o pobrezito? Não me faças ir ao Dicionário!), estarás nos "bem encadernados"? Não sei!
Para terminar. O Sr. D. Carapau considera haver muitas mulheres com estas características?
Obrigada.


De Carapau a 22 de Julho de 2010 às 23:13
1º- Claro que sim. Aliás a Vitória “é” do Porto (Bairro das Fontainhas para ser mais exacto).
2º- Quanto a fibra…há mulheres de fibra de norte a sul, não é exclusivo das do norte.
Quanto a proveito, id. id. aspas aspas. E sem proveito também.
3º- Se pelo andar da carruagem se sabe quem lá vai dentro, não serás nem totó, nem alonsa. Conclusões erradas… só não as tira quem não arrisca. Como disse anteriormente, não sou de lá, mas andei por lá alguns anos, e talvez por isso levo algumas pessoas ao engano.
Quanto às perguntinhas…
Nem me incluo nos que olham ostensivamente, nem nos que olham de ladegues. Sou mais do tipo controlado, tirando algumas medidas, mas sem ser costureiro de alta-costura.
“Bem encadernado”? Nem pensar! Hoje diz-se que visto “casual” signifique isso o que significar. (Escamas e barbatanas mais ou menos aparadas, de modo a não cheirar muito a peixe).
Muitas Vitórias? Creio que há algumas, mas não muitas. Por isso mesmo escolhi uma delas para o post. (Entenda-se: há poucas com TODOS os predicados desta; mas com algumas das qualidades há bastantes).

Esclareci tudo?
Obrigado.


De Teresa Santos a 23 de Julho de 2010 às 11:50

Sim, sim, não há ponta de dúvida que subsista!
Os meus agradecimentos.
Bom fim-de-semana.
Abraço.


De maria teresa a 24 de Julho de 2010 às 00:26
Bolas! Cheguei agora e nem sei o que escreber.
Fizeste para aqui um texto e peras mas sem barbas que é aquilo que eu aprecio mais, mas isso é outra conbersa.
Fiquei num dilema... não sei se gostaba de ser a Bitória de Samotrácia, se a Bitória do Porto?
Será que posso ser as duas?
E mais não digo porque já foste muito elogiado e isso pode fazer-te mal às barbatanas...


De Carapau a 24 de Julho de 2010 às 23:43
Podes ser o que quiseres. Bitória ou Derrota tudo é desporto.
As barbatanas agradecem o cuidado que tens com elas.
Qualquer dia vou tentar um post mais barbudo.
:-)


De maria teresa a 24 de Julho de 2010 às 23:45
Já estou a salivar:):):)


De Teresa Santos a 27 de Julho de 2010 às 11:20
Dão-se alvíssaras a quem encontrar, por aí, um Carapau perdido, sem norte.
É que este, o dono deste famoso espaço, esfumou-se, sumiu, desapareceu, "deu de frosques"...
Agradecida.


De Carapau a 27 de Julho de 2010 às 14:19
Com o calor o Carapau mergulhou mais umas dezenas de metros e encontra-se agora na sua caverna de verão, a chamada "branda". Comunicações mais difíceis e pouca vontade de meter as barbatanas a teclar, aliadas ao cansaço de produzir o último post, vai levá-lo a regressar aos contos curtos até a onda passar.
Mas não anda perdido, nem pensar!


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