Sexta-feira, 25 de Junho de 2010

Um fio de cabelo (1ª parte)

O dia tinha sido trabalhoso, complicado e comprido, só tarde conseguiu ir jantar. Entrou no pequeno restaurante onde nunca tinha ido antes, só porque foi o primeiro que encontrou, ainda aberto, na pequena vila.

Mal entrou reparou que não já não estava nenhum cliente e a empregada arranjava as mesas para o almoço do dia seguinte. Por isso perguntou se ainda era possível jantar.

- Suponho que não – respondeu ela.

- E então quem sabe?

- Tenho de ir perguntar lá dentro.

- Sei que já é um pouco tarde, mas se for possível arranjar qualquer coisa, agradeço.

- Um momento.

Desapareceu atrás duma porta oscilante, supôs Ele que desse para a cozinha. Voltou passado um minuto a dizer que já não havia nenhum dos pratos do dia, só se fosse um bife, que era o mais rápido. Iam fechar…

- Sim, sim, pode ser um bife com sparguetti, se possível.

- Faça o favor de se sentar nesta mesa.

Foi lavar as mãos e veio sentar-se na mesa que já estava preparada. Agarrou a lista de vinhos e escolheu uma meia garrafa de uma marca de que gostava particularmente.

A empregada trouxe o couvert que colocou na mesa juntamente com o pão, mas Ele disse que podia levar pois não ia comer nada daquilo. E encomendou o vinho.

Minutos depois tinha o prato pedido, na mesa.

Preparou-se para comer quando descobriu um cabelo no meio do sparguetti. Chamou a empregada, apontou o cabelo e disse que aquilo era incrível e que não se admitia um descuido daqueles.

 Estava irritado. O dia tinha corrido mal e agora para acabar tinha um cabelo para jantar. A empregada gaguejou qualquer desculpa que Ele nem ouviu, tal a irritação com que reclamava, e acabou por pedir para falar com o responsável pelo restaurante.

- Um momento – disse a empregada e voltou a desaparecer atrás da porta.

Era um pequeno restaurante com bom aspecto, decorado com algum requinte, as mesas bem postas com toalhas, guardanapos e talheres de bom gosto, cadeiras cómodas. Tinha poucas mesas e, pela vista de olhos que entretanto dera pela lista, mostrava alguma originalidade e variedade. Os preços “condiziam” com o ambiente. Não era propriamente um restaurante barato.

Vinda da tal porta, deu entrada na sala uma mulher elegante, bonita e movendo-se com determinação, chegou junto dele.

- Boa noite!

- Boa noite.

- A minha empregada já me informou do sucedido. Lamento, peço desculpa, nunca nos aconteceu antes, cumprimos todas as regras de higiene, mas a verdade é que a culpa é nossa – despejou, num jacto, sem dar tempo para Ele apresentar a reclamação.

- Mas convenhamos que tive então muito azar com o que me aconteceu – replicou Ele, fitando-a e apontando com o garfo para o cabelo no meio do sparguetti.

- Meu caro senhor, tem toda a razão, já lhe pedi desculpa, temos livro de reclamações para o caso de o querer utilizar. Está ainda em branco, mas está às suas ordens.

- Não é caso para tanto, só estou a chamar a atenção para um caso que não devia ter acontecido. Eu sei que estou já fora de horas, que se calhar…

- Não tem nada a ver uma coisa com outra. Acedemos a servi-lo e a culpa é nossa. Agora temos de resolver o caso. O senhor continua interessado em jantar?

- Sim, claro, para isso entrei aqui.

- Podemos arranjar outro bife com sparguetti?

- Perfeitamente.

Ela fez um discreto sinal à empregada que se aproximou e disse-lhe para pedir outro bife com sparguetti. A empregada ia a pegar no prato que estava na mesa e ela não deixou.

- Deixa ficar.

Ele sorriu disfarçadamente, aproveitou para pedir desculpa por ter sido um pouco brusco na reclamação, o dia tinha sido cansativo, aproveitou para dizer que o restaurante tinha um bom aspecto, que certamente andava ali dedo de gente que sabe…

- Dedo e o corpo todo – atalhou ela. Direi até que corpo e alma. O que aqui está é obra minha, sou a proprietária e quem dirige isto, os próprios pratos são da minha autoria, sou a responsável por tudo… - fez uma pequena pausa  e concluiu já com um ligeiro sorriso - …até sou a responsável por esse cabelo  que está aí no prato.

- Ossos do ofício – respondeu ele também já a sorrir. Sei o que isso é.

- Também está ligado à restauração?

- Não, não, nada disso. Mas qualquer actividade tem os seus ossos…e os seus cabelos.

- Sem dúvida.

- Estive a dar uma vista de olhos para a lista e vi uma certa originalidade. Vou ser franco. Nunca aqui tinha entrado antes e nem sabia da existência deste restaurante tão…tão…

- Tão cabeludo? – interrompeu ela, já de sorriso aberto.

Ele não resistiu e soltou uma gargalhada.

- Vou prometer uma vinda aqui a horas decentes, para provar a sua cozinha. Espero a sua colaboração na escolha…

- Com o maior prazer.

                                       (Continua...)

publicado por Carapaucarapau às 00:43
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12 comentários:
De maria teresa a 25 de Junho de 2010 às 18:33
Só comento quando souber o fim da história (ponto final parágrafo) Lol


De Carapau a 26 de Junho de 2010 às 15:33
Será que todas as histórias têm de ter um fim?
O "fim" não será sempre um recomeço?
Para a semana há mais .
:-)


De maria teresa a 26 de Junho de 2010 às 19:28
Tás a implicar comigo ai tás, tás!
Eu dava-lhe um fim cá au meu modo mas o autori do textu escrebeu "continua". Na minha mudesta opiniao, kuando o autor diz issu, não é precisu pinsar, ispera-se... Eu isperu...:):):)


De Carapau a 27 de Junho de 2010 às 10:35
Eu era lá capaz de implicar contigo? Ou mesmo com qualquer outra pessoa, sobretudo com as que vêm "piedosamente" em romagem a este humilde tegúrio?
Se disse "continua" é porque vai continuar mesmo (aliás o caldinho já está feito, o compasso de espera é só mesmo para provocar o chamado "hitchcockiano suspense").
Mas não está nada mal lembrado fazeres tu um fim "à tua manera". Nem que para isso peças ajuda ao Cervantes ou a um dos seus personagens...
:-)


De maria teresa a 27 de Junho de 2010 às 10:59
"Prontos"! Já percebi tudinho, tu queres é que alguém te acabe a história...:):):) Esperteza de carapaucarapau!:):):)


É um "desafio" interessante escrever uma história a duas ou várias mãos, eu fiz esse desafio à minha filha mas ela tem-se esquivado... Pensa nisso!


De Carapau a 28 de Junho de 2010 às 00:25
Em primeiro lugar a errata: o "tegúrio" do meu comentário anterior devia ser "tugúrio". Até os melhores Carapaus erram. :-)
Quanto às 2,4,6 ou mais mãos, põe isso em marcha que eu posso tb dar a minha "mão de obra". Pouco especializada, de servente, mas pelo menos sei carregar tijolos para dar serventia a pedreiros.
:-)
Talvez até te "conte uma história" sobre o assunto.

Quanto à presente história, ela já está concluida , daqui a 2 dias publico a 2ª parte.


De Maria Araújo a 25 de Junho de 2010 às 23:12
Ó Carapau, não é que me deixaste com a água no pensamento. Mauzinho!
Nem penses que vais continuar a tua história dentro de uma semana.
E se esta for mais uma das que viveste , por favor, toca a escrevê-la brevemente.
Bom fim de semana.


Beijinho


De Carapau a 26 de Junho de 2010 às 15:36
Se " o poeta é um fingidor" o escrevinhador não o é menos.
E tudo o resto é...nada.
:-)
Bjo. e bom fim-de-semana tb para ti


De Red Maria a 26 de Junho de 2010 às 20:46
Ora, ora, põe originalidade nisso, spaguetti com cabelo! E a proprietária também promete, de corpo e alma, mas isto já sou eu a falar que sou uma depravada.

(aguardo...)


De Carapau a 27 de Junho de 2010 às 10:36
Bruxa!


De Rafeira a 27 de Junho de 2010 às 13:50
Espero que seja antes da facadinha . Se vier de lá de bengala e de cão aposto que vou perder o melhor bocadinho ... e alguém vai pagar por isso, ai vai vai


De Carapau a 28 de Junho de 2010 às 00:27
Tá bem. A teu pedido vou ser mais rápido do que estava no programa :-)
Tudo menos levar bengaladas.
E não sejas caguinchas, vai tudo correr mais que bem.


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