Quinta-feira, 10 de Junho de 2010

Porto castiço (II)

Porto castiço (II)

 

Eu já estava há uns dias no Porto e portanto o efeito choque do nível sonoro e da descontracção linguística das primeiras horas já tinha passado. É certo que não aprendi nada de novo, só a descontracção e as circunstâncias em que tudo era dito é que estavam fora dos parâmetros a que estava habituado. Mas mesmo assim, de vez em quando, lá vinha uma excepção que ainda me “chocava”.

Assim numa tarde em que me dirigia para casa, seguia à minha frente, no mesmo passeio, uma mulher com o filho ao colo. O miúdo teria um ou dois meses e ia num berreiro desgraçado, por qualquer motivo que eu desconhecia. Às tantas a mãe dirigiu-se-lhe carinhosamente nestes termos

- Oh meu filho da puta, vê lá se te calas!

 

                                                  -o-

 

Uns meses depois dei uma volta por “fora de portas” e no final da tarde tomei um carro eléctrico, exactamente no ponto em que ele invertia a marcha de regresso ao centro do Porto. Era um sábado ao fim da tarde. Entrei no eléctrico, que se encontrava parado a “fazer horário”. Estava com os lugares sentados quase todos já ocupados, mas arranjei um ao lado duma senhora, já de certa idade, que estava a fazer tricot. Passados uns minutos o carro foi invadido por um grupo de homens, vindos dumas obras próximas, que entraram em grande algazarra e ocuparam os lugares em pé, nas plataformas da frente e de trás e também no corredor central. O nível sonoro das conversas cruzadas era alto, pois falavam de uma ponta do eléctrico para a outra. O nível “cultural” das conversas era impressionante, pela quantidade de palavrões ditos por unidade de tempo. Tudo aquilo durou o tempo da viagem, talvez meia hora ou mais, e ninguém se incomodou, não senti o menor constrangimento de qualquer pessoa, ainda que tudo se passasse no espaço fechado do carro eléctrico, onde tudo parecia tomar outras proporções.

Certamente só eu notei tudo aquilo, pois era certamente o habitual.

Pelo canto do olho mirei a minha eventual parceira de banco, mas ela seguia impávida e serena a tricotar. E não me apercebi que tivesse falhado qualquer malha…

 

                                                  -o-

 

Por essa altura entrou para o Tribunal de Polícia do Porto, um certo juiz convencido que havia de “meter nos eixos” o linguarejar livre e vernáculo da população portuense. Os jornais da cidade, quase todos os dias, traziam notícias do que se passava no dito Tribunal (de pequenos delitos) com algumas histórias com piada e mostrando as prelecções que o douto juiz fazia aos réus e as respectivas condenações, pelo uso “imoderado” “e não conforme com os bons princípios” da linguagem desbragada, em locais públicos.

Era então corrente, quando alguém se expressava mais veementemente utilizando as expressões “proibidas”, haver sempre quem dissesse “Olha se o Fulano te ouve ainda vais dentro”. (O Fulano era o tal juiz que já não sei como se chamava).

Corriam então algumas histórias, umas verdadeiras e outras inventadas, sobre o tema.

Como esta que aqui deixo:

Uma sujeita vê a vizinha Micas a passar na rua acompanhada por dois polícias e pergunta-lhe:

- Oh Micas aconteceu alguma coisa?

- Aconteceu pois. Não vês que vou presa?

- E que fizeste tu Micas?

- Ora! Disse porra e estes polícias ouviram e prenderam-me.

- F***-se, car****! Por tão pouco?



 

 

 

publicado por Carapaucarapau às 23:10
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10 comentários:
De Maria Araújo a 11 de Junho de 2010 às 22:53
Olá. Estava a ler este post e lembrar-me que, infelizmente, os filhos destas pessoas com quem nos cruzámos na rua, no eléctrico, no café, em qualquer lado, são aquelas crianças e adolescentes que nós ,professores, tentamos educar no dia-a-dia da escola.
Constantemente se escuta os pais insultarem os filhos, e maltratá-los.
Por sua vez, estes contaminam a escola com más atitudes, insolência, agressividade.
Por mais que tentemos impor alguma ordem educação, respeito, falta-nos a força. E, quando chegamos ao final do ano lectivo, sentimos um grande alívio.
Hoje, por nada, fui ameaçada por um aluno que nem sequer faz parte das minhas turmas.
Quantos processos aquele adolescente tem lá na escola, quantas vezes a GNR foi lá, quantas vezes ele manipulou quem quis? E NADA, NADA é feito.
E ele sabe que ninguém consegue controlá-lo, logo faz o que entende. Nós, professores, ficamos sem forças para agir.
Perante uma sociedade que tem comportamentos desses na via pública, nos tranportes, em qualquer lugar, como podemos nós incutir algumas regras, se os pais são o exemplo dos filhos?
Sinto-me decepcionada com o ensino.
Dois anos de luta, com as mesmas turmas, para no final nos dizerem "vou passar e não estudei nada".
Gostaria que levassem como positivo a educação.
Resta-me esta esperança .



De Carapau a 12 de Junho de 2010 às 18:48
A um post feito em tom jocoso. publicaste um comentário sério e que dá bem a ideia de como vão as coisas pela "inducação".
Tu que estás metida "no barulho" e que também sofres as consequências da "rebaldaria" em que se afundou a sobre dita, sabes disso muito mais do que eu, que sou mero observador.
Sinal dos tempos!
Que mais posso dizer?
Há no entanto grandes diferenças, quer para melhor, quer para pior, do tempo em que aquela mãe do post tratou "carinhosamente" o bebé.


De maria teresa a 15 de Junho de 2010 às 16:53
Mim ter razão! Carapaú gostar muito de palavras com sabore a picántê! Carapaú ser muito breijeiru e ter muita piadóla....Mim gustar seú sentidu de umor...
Beijú na barbatana dorsalé!


De Carapau a 15 de Junho de 2010 às 22:42
Tu agora virô índia ou bateu com a tola no escudo do D. Quixote de la Mancha? Ou tu caiu do cavalo dele? Ou foi a Dulcineia, com ciúmes, que te bateu na tola?
Tem cuidado...
:-)


De maria teresa a 15 de Junho de 2010 às 23:23
D. Quichóte pensar que mim ser Dulcineia, me agarrar com muita forçá e cumo eu resistir me dar com escúdu na terra dos pioulhos. D, Dulcineia ver sena me dar co rolo da maçaroca eu ficar meia arralampada...


De Carapau a 17 de Junho de 2010 às 19:30
Atão tu vais-te meter com o Quixote estando a D. Dulcineia ao lado? Mais que descaramento isso é não conhecer nada das dulcineias...
Agora vai-te tratar.
:-)


De maria teresa a 17 de Junho de 2010 às 20:28
Já comeceiotratamentoe parecequeestáadarumbocadinhodeefeitomassóumbocadinho.:):):)


De Carapau a 17 de Junho de 2010 às 22:21
maisvalepoucoquenenhum.
:-)


De Paula a 15 de Junho de 2010 às 18:48
Amigo Carapau, muito obrigada pela visita e comentários:)
Regressarei quando por aqui houver novidades...
Beijo


De Carapau a 15 de Junho de 2010 às 22:43
Venha sempre que quiser, que aqui atendo toda a gente bem. Nem precisa de bater à porta, que está sempre aberta.
Também eu vou passando por lá.
Bjo.


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