Quarta-feira, 2 de Junho de 2010

Porto castiço (I)

 

Rua de Santa Catarina - Porto

 

Quando meto pés ao caminho, para dar uma volta pelo “jardim à beira mal plantado”, jardim em geral mal arranjado e cheio de ervas daninhas, prefiro a geografia física (rios, montes, vales e planícies) à geografia humana.

Há excepções: gosto de visitar certas aldeias e algumas vilas do interior e gosto duma cidade: o Porto.

No Porto vale a pena passar uns dias, sobretudo para quem como eu, gosta de recordar tempos e sítios que ainda se mantém, ou, pelo menos, quase se mantém. O “Porto antigo”, pesem embora algumas alterações que entretanto sofreu, vale ainda bem uma missa cantada, isto partindo do velho dito que diz que Paris vale bem uma missa. Certo que o Bairro da Sé já não é o mesmo, certo que a Baixa está muito alterada, que a Ribeira não tem nada a ver coma velha e pobre Ribeira. Mas as pessoas, certo tipo de pessoas, ainda por lá estão e ainda vale a pena ouvir uma conversa de rua com algumas delas.

Claro que sou suspeito. Vivi no Porto numa época importante para mim, assisti lá a alguns eventos que me marcaram, calcorreei todas as ruas do antigo burgo muitas vezes, alarguei lá o meu rico vocabulário que emprego em momentos apropriados e ainda hoje uso com frequência entoações que até “num certo Porto” já se faz questão de não usar.

Como qualquer cidade, o Porto é uma miscelânea de pequenas “cidades”.

É bom ir à Foz e passear por ali numa tarde de sol, à beira mar, sentar numa esplanada e beber qualquer coisa, visitar o Parque da Cidade e o Museu de Serralves, mas tudo isso, ou melhor, coisas parecidas com essas encontramos em muitos outros locais.

As pessoas, essas não. São de lá e muitas delas ainda estão lá.

Durante anos adorei ouvir os seus ditos, as suas conversas, a maneira descontraída e pura como se manifestam.

Ainda numa das últimas estadias na terra das tripas (e ir ao Porto e não comer tripas é como ir a Paris e não ver a torre Eifel) apreciei a cena que vou relatar e que me confirmou que, felizmente, está garantida uma certa autenticidade.

Rua de Santa Catarina, a que já foi a rua chique do burgo e ainda hoje é a principal rua comercial, tarde de um dia de sol, bastante movimento. Eu estava um pouco cansado de tanto andar e resolvi sentar-me uns minutos num dos bancos que existem nos passeios dessa rua. A dois passos de mim, meia encostada a um enorme vaso de flores que por sua vez estava encostado ao banco, uma mulher dos seus cinquenta e tais, vestida a rigor: avental, chinelas e na mão um enorme saco de plástico. Conversava animadamente com outra fulana e ia sendo cumprimentada e cumprimentando várias pessoas que por ela passavam, o que me levou a concluir que era figura “habitué” do local e admiti que seria vendedora ambulante e que estaria com a mercadoria “recolhida” no tal saco de plástico, o que queria dizer, a ser verdade o meu palpite, que a polícia andaria por ali perto.

Às tantas uma senhora já de certa idade que passou por ela disse-lhe qualquer coisa que eu não percebi, trocaram meia dúzia de palavras, e a minha vizinha saiu-se com esta, alto e bom som:

- Oh minha senhora! Miserável eu? Se eu fosse miserável ia ali para a esquina dar a cona!

 A Senhora não disse nada e continuou o seu caminho, passeio fora, a eventual vendedora ambulante continuou a conversa com a vizinha, não houve nenhuma reacção, nem um sorriso nem um levantar de sobrancelhas, só eu engoli uma gargalhada que me ia engasgando. Tinha valido a pena toda a tarde a calcorrear as velhas ruas do burgo. 

No dia seguinte passei pelo mesmo local e lá estava ela a apregoar peúgas, “dois pares, cinco euros”! Não, não era miserável, era uma pequena empresária a trabalhar por conta própria e a gerir o seu negócio.

 

 

publicado por Carapaucarapau às 22:57
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14 comentários:
De Calendas a 2 de Junho de 2010 às 23:53
Vivi em pequena uns tempos em Matosinhos. Logo no início, a minha mãe que é uma perfeita algarvia, foi à praça e perguntou o preço das nésperas. Resposta da vendedora "néspera é a Cxxx da sua tia minha malcriadona". Dias mais tarde a minha mãe soube que nésperas afinal lá para o Porto são magnolios (ou parecido, não me lembro bem).


De Carapau a 9 de Junho de 2010 às 19:27
Agora ve lá tu se alguém disser: "Oh vizinha, que saborosa é a sua nêspera..."

Já agora são magnórios e não magnólios.


De Paula a 4 de Junho de 2010 às 09:50
Olá, olá amigo Carapau....
Já tinha saudades de aqui vir:)
Pois aqui fica uma beijoca e o convite para me visitar num novo "cantinho"... Estou de volta:)
Beijo


De Carapau a 9 de Junho de 2010 às 19:31
Seja bem vinda, de volta a "este mundo" dos blogs. Já lá fui meter o meu delicado focinho, mas só de passagem, amanhã ou depois lá deixarei vestígios da minha passagem.


De Maria Araújo a 4 de Junho de 2010 às 22:07
Olá!
Depois de uns dias recolhida, com uma "cachola" do caraças , mais um post que me fez rir.

Tu sabes que no Porto é mesmo assim, carago.
Olha, vieste ao Porto, por que não deste um salto a Braga?
Vou cobrar-te esta.


Beijinho


De Carapaucarapau a 9 de Junho de 2010 às 19:33
Esperando que a cachola já tenha passado... claro que sei bem como é o Porto e arredores: Braga nem fica muito atrás...
;-)
Bjo.


De maria teresa a 6 de Junho de 2010 às 23:20
Depois de ler, reler, biler, triler,...cheguei à brilhante conclusão: tu gostas do Puerto porque lá se podem dizer palavras "proíbidas", no dizer dos meus netos..., sem se levar com pimenta na língua.


De Carapau a 9 de Junho de 2010 às 19:35
Ai é?
Então espera pelo próximo que até vai levar bola vermelha e tudo...
:-)


De Maria Araújo a 8 de Junho de 2010 às 11:57
Carapau, por onde andas? No Porto, no Douro, no Minho?
Já fazes falta aqui.
Beijinho


De Carapau a 9 de Junho de 2010 às 19:37
Tenho andado por ali e acolá a apanhar com chuva e só mesmo um Carapau destemido aguentava.
Bjo.


De Tretoso_Mor a 9 de Junho de 2010 às 01:40
2xCarapau,

Caro Amigo,

Ora cá estou eu de nuobo outra biez a comentar-te!..

Carago, homem!... entaum tu metes-te em zonas recuondidas do belho Puorto a oubir as cumbersas alheias?... E ainda por cima tens o desplante de reproduzir tamânha berborreia?... ai, ai!...

Bom, vamos lá a ver se consigo dar uns mergulhos nestas águas, com mais frequência, para poder conversar contigo mais amiúde. Esta Treta de andar nos bacalhoeiros, levou-me a uma ausência muito prolongada!...

Um gandabraço.


De Carapau a 9 de Junho de 2010 às 19:43
Pois "oubo" mesmo as cunbersas e inté gosto, carago!
Cá t'espero para novas visitas. E cuidado com o arrasto do bacalhau, espécie em vias de extinção.
Se os rapazes do green peace sabem...
1 abraço, carago!


De Maria Araújo a 10 de Junho de 2010 às 00:38
Bem-vindo ao blog do Carapau!
Ó Carapau, não te importas que eu saúde o nosso amigo Tretas?!
Andou perdido noutras águas mais profundas...
Beijo aos twice (Carapau e Tretas)

cantinho


De feromoni a 15 de Junho de 2010 às 12:31
Este texto bonito. escrever é uma terapia natural que nos ajuda não só para lançar luz sobre os problemas, mas também para superar


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