Quarta-feira, 28 de Abril de 2010

Série B (I)

Bola de bilhar

 

Acordou mal dormido e mal disposto. Tivera um sonho maluco, sonhara que era uma bola de bilhar, a branca, a que leva com o taco e choca com as outras. Doíam-lhe as costas, a cabeça, um olho. Levantou-se e viu-se ao espelho, mirando bem o olho que lhe doía. Pareceu-lhe ver umas manchas azuis, talvez restos do giz do taco. Ao fazer a barba achava aquilo tudo meio estúpido, mas umas coisas estavam certas: sonhara, estava dorido e mal disposto. Qualquer coisa para além do que os búzios, comidos na véspera e acompanhados com muita cerveja, pudessem ter causado.

Ao tomar um banho de chuveiro as coisas começaram a aclarar-se. Afinal havia razão para o sonho. Era isso mesmo que ele se sentia: uma bola branca de bilhar. Levava directamente com o taco, ora com força ora “fininho com efeito”, ora bem puxada por baixo, de vez em quando um “macé”. Devia ter sido um “macé” mal dado que lhe provocara aquela impressão no olho. Depois saía disparado da tacada a transmitir o movimento às outras bolas, grandes cabeçadas às vezes, pequenos toques outras vezes.

Vestiu-se, tomou o pequeno-almoço e foi até à varanda. Estava uma manhã suave com um sol bonito e ainda não muito quente. Sentou-se na espreguiçadeira e ficou a gozar aquela calma. Nunca fizera aquilo, sempre fazia tudo a correr para não chegar atrasado ao emprego. Aquele bem-estar, que agora sentia, sentado ali ao sol, mostrava-lhe como se estava a “deixar ir” sem reagir. E sem agir.

Levantou-se, tomou o transporte e já passava 1 hora do horário quando entrou no gabinete do Sr. Tavares.

- Aconteceu alguma coisa “senhor Aufuredo”? – O Tavares tratava-o sempre por Aufuredo em vez de Alfredo como constava na ficha. E sempre por “senhor Aufuredo” quando estava danado com ele. Para o gozarem todos os colegas já o tratavam por Aufuredo. Com uma excepção: a menina Alice sempre o tratara por senhor Alfredo, respeitosamente.

Alfredo olhou para o senhor Tavares e respondeu secamente:

- Não. Não aconteceu nada.

- Então, isto são horas para se chegar? – Insistia o senhor Tavares.

- Para o que venho fazer qualquer hora é boa. – E puxando do revólver disparou 2 tiros no peito do senhor Tavares, ao nível do coração. Este ficou todo torcido na cadeira, sem se mexer, com os olhos e a boca muito abertos, como quem ia dizer “que vais fazer Aufuredo”?

Alfredo saiu do gabinete e entrou no da menina Alice, a quem pediu para chamar o 112.

- Diga-lhes que houve uns tiros e parece que há um morto. Que venha a Polícia também. – E sentou-se em frente da menina Alice que, atrapalhada, fazia o telefonema e não se atrevia a perguntar nada.

                                                  ***

- Dez anos não são nada senhor Alfredo. O julgamento correu bem, vai ver que daqui a menos de 3 anos está cá fora. O senhor porta-se bem, vai ver… - conversa de advogado, depois do julgamento.

                   

                                                   ***

The happy end.

De facto, dois anos e sete meses mais tarde era posto em liberdade, e “em boa altura”, pensou Alfredo. Estava já a sentir-se outra vez bola de bilhar, desta vez tacada pelo director da prisão.

Algum tempo depois casou com a menina Alice – a única pessoa que o visitara na prisão – mudaram-se para uma outra cidade, onde passou a ser o senhor Reis, instalado com um pequeno negócio que explorava com, a agora, senhora Alice Reis.

Nunca mais sonhou com bolas de bilhar.

 

publicado por Carapaucarapau às 19:14
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12 comentários:
De Maria Araújo a 28 de Abril de 2010 às 19:38
Olá.
Comecei a ler o texto. Ri-me. "Pousei" a cabeça em cima da mesa a rir.Pensei em muita coisa.:
-numa "negra" que sobressaía da minha pálpebra , talvez de um sonho que tivera e que nunca me recordei;
-nas boladas da vida que as pessoas levam, como o senhor Aufuredo que foi preciso comer uns búzios e ter a má disposição para perceber que, durante a vida de trabalho, mais não fez e recebeu que levar tacadas, conforme a disposição do senhor Tavares;
-aquela manhã de sol o fez reflectir que tudo se deve fazer com tempo, sem pressas, sem stress;
-que o crime compensa. Oh, se compensa!Cama, roupa lavada, TV, serviços à comunidade prisional sem stress;
-há sempre alguém que espera
Compensado, bem compensado.
Parabéns carapau. Belo post...e muito actual.

Beijo


De Carapau a 29 de Abril de 2010 às 23:10
Eu acho que comer muitos búzios com muita cerveja pode alterar muitas coisas.
Aconselho moderação.
:-)
Bjo.


De maria teresa a 29 de Abril de 2010 às 14:46
É pá com este deixaste-me sem palavras... é demasiado sério para o teu "estilo".
Do que não tenho dúvidas é que já acordei muitas vezes com vontade de fazer o que o Alfredo fez.
Só me resta desejar felicidades ao casal Reis e que vivam durante muitos anos, em grande PAZ e HARMONIA... e que o sr. Reis não volte a sonhar com bolas de bilhar, caso contrário, num impluso ainda pode ficar viúvo...:):):)
Abracinho


De Carapau a 29 de Abril de 2010 às 23:15
Será?
Não estou a ver a ex-menina Alice a portar-se mal e a dar com o cabo da vassoura (qual taco de bilhar) umas cacetadas no amantíssimo esposo.
Assim sendo...
:-)


De Red Maria a 29 de Abril de 2010 às 21:12
Isto de uma pessoa acordar e pôr-se a olhar ao espelho dá nestas coisas.

E sim, o crime compensa mas também há por vezes vontade nem que seja em sonhos ou pesadelos de mandar uns quantos Tavares para a quinta da agonia.

Belo texto, carapau!


De Carapau a 29 de Abril de 2010 às 23:17
É isso mesmo.
Muito cuidado quando olhamos para o espelho...
Lá por trás da imagem, às vezes, aparece um diabinho...


De Calendas a 30 de Abril de 2010 às 13:45
Ora aqui está um texto difícil de comentar: o pouco que me ocorreu já foi dito aqui pelo ramalhete das meninas.

Bom, espero não acordar nenhum dia com a tal da mancha azul porque seria uma macé (maçada em francês, lol).

Bom texto, carapelho.


De Carapau a 30 de Abril de 2010 às 22:40
Como todas as histórias, também esta pode não ser tomada "à letra". Quer isto dizer que os tiros disparados podem ter sido com balas de borracha, o suficiente para o Sr. Tavares se ter acagaçado e desmaiado, os 2 anos e tal de "prisa" podem ter sido 2 anos de "retiro" para o Alfuredo (no fundo o tipo afastou-se da sua rotina) e depois a menina Alice convenceu-o a mudar de estado (civil) , de terra e de modo de vida.
Que tal esta "nova versão"?


De Calendas a 1 de Maio de 2010 às 14:37
Pode ser mas não me convences...
Olha e o selinho, ehehe?


De Carapau a 2 de Maio de 2010 às 17:52
Não quero convencer ninguém de nada, nem a mim me quero convencer.
Não foi por acaso que pus a este post o título de Série B, por semelhança com os filmes Série B.
Quanto ao selinho, para já parece que foi aceite. Pelo menos até agora ainda não recebi a carta devolvida.
E a cola era de boa qualidade, dei-lhe uma valente lambidela.


De cultura spagnola a 5 de Maio de 2010 às 15:03
seu blog é muito bom! Eu não leio Português bem, mas eu amo o que você escreve!


De feromoni a 15 de Junho de 2010 às 12:25
Parabéns pelo seu blog! uma delícia! Voltarei para ler


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