Quarta-feira, 21 de Abril de 2010

Histórias da Padeira

              

 

 

Era uma pequena padaria de aldeia onde todos os trabalhos, desde o aquecimento do forno, à amassadura do pão e à sua venda estava a cargo de um casal.

A padaria resumia-se a uma sala única onde funcionavam todas as valências do negócio. Nela estavam os dois fornos a lenha, o equipamento mecânico único – uma máquina de amassar – e a um canto o “serviço comercial” – representado por uma balança, numa pequena mesa com uma gaveta, onde era depositado o dinheiro das vendas.

Os donos eram pessoas simpáticas, mas sobretudo com a padeira, nenhum novo cliente era aviado sem lhe ser feito um interrogatório: quem era, onde morava, de quem era familiar, etc. Só depois de satisfeito o inquérito/curiosidade da senhora, tinha “direito” a levar o pão. Às vezes também fazia uns bolos feitos com a massa do pão, açúcar e nozes, e outras vezes eram os chamados bolos de ferradura, de casamento ou das festas.

Mas o pão e a broa eram os produtos - âncora do estabelecimento.

Eu, sendo embora um cliente sazonal, gozava dum tratamento especial, só porque conversava muito com eles e contava-lhes umas histórias que em geral os divertia.

Assisti a algumas cenas divertidas lá no estabelecimento e não só, e nalgumas delas tive até um certo papel activo, como foi o caso da balança e da passagem do escudo para o euro. A balança era daquelas que além de darem o peso (de admirar seria se não dessem …) também dava o preço a pagar, mas a tabela estava feita para escudos e quando entrou o euro em funções foi uma atrapalhação danada. Vali-lhe eu, à padeira, que era em geral, quem estava ao serviço na padaria, já que o padeiro fazia mais a venda no exterior, e de tal maneira a minha explicação foi perfeita e bem entendida que, desse dia em diante creio que o pão nunca mais parou de aumentar…de preço.

Convém dizer que o asseio na padaria não era propriamente uma prioridade. Bastaria o facto de qualquer pessoa entrar lá para se fazer uma ideia disso. E os padeiros (ele e ela) também não se preocupavam muito com certas regras… Valia-lhes o facto de a ASAE ainda não existir, mas mesmo assim às vezes o estabelecimento estava fechado “para obras” (nunca vi nenhum melhoramento, pelo que o eufemismo deveria ser interpretado como tendo recebido um aviso para alterar certas normas, o que nunca aconteceu).

Um dia entrei no estabelecimento onde só estava a senhora padeira muito atarefada na arte de meter pão no forno, trocamos os cumprimentos da praxe, ela pediu-me para esperar uns minutos para poder acabar a tarefa e eu fiquei a apreciar o trabalho enquanto falávamos disto e daquilo. Ela tinha uma mesa junto à boca do forno, mesa essa onde já se encontrava o pão devidamente tendido e o trabalho consistia em pôr os pães numa pá comprida, que levava uns 5 ou 6 de cada vez, e depois introduzi-los no forno que tinha sido previamente aquecido (com lenha) e limpo das cinzas.

A pá era previamente polvilhada fartamente com farinha dum alguidar que também estava sobre a mesa e depois por cima de cada pão havia mais uma polvilhação. Resumindo, havia farinha espalhada por tudo quanto era sítio (entenda-se sobre a mesa e no chão à roda da mesma).

Quando acabou a tarefa de meter todo o pão no forno, ela agarrou numa pequena vassoura e varreu toda a farinha espalhada sobre a mesa para o tal alguidar e depois, mantendo o ritmo, fez o mesmo à que estava no chão: alguidar com ela. Notava-se perfeitamente que eram gesto automatizados de quem os praticava há muito anos. Quando acabou de pôr a farinha que apanhou do chão junto à outra, é que ela reparou que eu estava presente a apreciar a cena. Então com a mesma desenvoltura com que tinha feito todo o trabalho disse-me assim: “isto agora é para as galinhas”. Com dificuldade não soltei uma gargalhada, mas ainda disse qualquer coisa sobre a felicidade de certas galinhas…

É altura de dizer que não havia melhor pão e broa nas redondezas por muitos padeiros que houvesse nessas mesmas redondezas. Tudo talvez resultado dos “temperos”, se é que nas outras padarias as coisas não se passavam de maneira semelhante.

Outra cena a que assisti foi num dia de feira na vila que fica próximo e onde os meus ilustres padeiros tinham num recanto do pavilhão um pequeno balcão de venda dos seus produtos. Aí vi a padeira vestida a rigor – bata e toca brancas – a aviar a clientela. Enquanto esperava pela minha vez assisti à “cena”: o cliente dizia o que queria, ela agarrava no pão ou pães, pesava, dizia o preço, agarrava num saco de plástico, lambia dois dedos para abrir o saco, pegava no pão e ensacava-o, recebia o dinheiro e dava o troco, tudo em gestos rápidos e automatizados e tudo sem luvas!

A lambidela também era um dos condimentos que tornava o pão mais saboroso…

Alguns amigos, quando iam passar o fim-de-semana comigo, nunca perdiam a ida à padaria e tornaram-se também entusiásticos fãs da padeira e dos seus métodos menos ortodoxos. E nunca deixavam de comprar o pão e a broa da praxe.

Com muita pena minha, há dois ou três anos, este simpático casal reformou-se e lá se foi a cavaqueira e o melhor pão da zona.

 

Quando estava para publicar este post, abro a net e a 1ª notícia que vejo foi esta (do Diário Digital, via Sapo. Aliás a foto é desta notícia):

 

Um estudo concluiu a presença de Ocratoxina (substância química tóxica produzida por fungos e com potencialidade tóxica para os rins, fígado e aparecimento de cancros) em alguns tipos de pão consumidos pelos portugueses.

 

Comentário final: que pena a tal padaria já ter fechado...

 

publicado por Carapaucarapau às 17:50
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10 comentários:
De Calendas a 21 de Abril de 2010 às 20:24
Não há como uma boa salivadela, uma boa lambidela e uma boa cuspidela para dar sabor à broa.Condição sine qua non.


De Carapau a 22 de Abril de 2010 às 18:39
Juntando a lambidela à notícia que apresentei no fim e depois de aprofundados estudos, concluí que a saliva tem um componente que vai dar cabo da Ocratoxina. Daí mais uma qualidade do tal pão e broa.


De Maria Araújo a 22 de Abril de 2010 às 00:23
Sem dúvida.~Fazes-me lembrar uma história que o meu pai contava. Aqui em Braga havia um restaurante, daquekes familiares, mas com boa comida. Os bolinhos de bacalhau eram a especialidade da casa.
Um dia, alguém viu a cozinheira a fazer a massa dos bolinhos. Ao que parece, a azáfama de envolver os ingredientes, fazia com que as glândulas nasais segregassem algum liquído a que chamamos de "pingo do nariz". Como não podia tirar a não da massa para assoar o nariz, ela passava a mão no respectivo nariz para limpar o dito cujo pingo. A mão ao seu trabalho.
Reza a história que o pingo que ela limpava com a mão era o ingrediente que dava sabor aos célebres bolinhos de bacalhau.
Como vês, noutros tempos comia-se merda pura.
Agora só se come merda composta.
Li a notícia.
Não há nada que dê tanto paladar ao que comemos como os ingredientes de antigamente.
Beijinho


De Carapau a 22 de Abril de 2010 às 18:45
Exactamente sobre os bolinhos de bacalhau, também conheço outra "receita" que os fazia serem os "melhores do mundo"...
Depois de amassados e moldados levavam um último aperto no sovaco. No caso, diziam, o sovaco era o dum cozinheiro negro que, como bom cozinheiro transpirava por todos os poros. No fundo os ingredientes eram os mesmos que entravam nos "teus".
Uma coisa todos nós sabemos: é que nunca sabemos o que comemos.


De Rafeira a 22 de Abril de 2010 às 17:42
Conta-se que, há muitos anos, num povoado na Serra de Monchique, havia uma tasca que servia as mais saborosas sopas da região. Tinha uma mãe de família na cozinha e duas filhas nas mesas e no balcão. A maioria dos habituais clientes eram trabalhadores rurais. A fama chegou longe e passaram a ir lá os abastados da região. Um dia alguém divulgou o segredo do famoso tempero da divina sopa. Uma peúga usada, do marido da Senhora, depois de andar uma semana entalada entre um pé suado e uma bota velha em trabalhos árduos no campo.


De Carapau a 22 de Abril de 2010 às 18:52
É a chamada sopa de peúga!
Também é verdade que muitas vezes correm boatos sobre restaurantes com duas origens: ou por brincadeira de alguém que foi tomada como informação séria (há ainda muitos ingénuos neste mundo, é só olhar em volta em relação a certos casos e pessoas...), ou invenção da concorrência posta a circular por motivos óbvios. Todos certamente já ouvimos algumas histórias sobre o restaurante A ou B.
As minhas histórias, quero dizer as da padeira, são autênticas e só contei o que vi.
Eu sou um cronista sério...
:-)


De maria teresa a 22 de Abril de 2010 às 21:41
Era uma vez uma padeira
Cujo pão boa fama tinha
Mas ela era bem matreira
Bem poupava na farinha

Todos sabiam da tramóia
Mas fingiam que “isso não”
Continuavam na rambóia
A apreciarem o seu pão

Eu se disso tal soubesse
Era incapaz de o comer
Se por acaso o fizesse
Era por não o saber

Carapau tu dizes-me lá
Comias mesmo este pão?
Não estás numa de blá,blá,blá
Não nos tás a enganar não?

Sei que como muita merda
Mas por estar inconsciente
Caso contrário “arreda”
Não lhe metia o dente

Que história foste buscar
Que bom cronista que és!
Fiquei aqui a pensar
Porque não foi o invés?

A padeira seria linda
Uma moça de pasmar
Tinha o nome de Benvinda
Era séria a trabalhar


Das suas mãos saíam
Belos espécimes de pães
Todos aqueles que lá iam
Eram fiéis como cães.

E assim ficava a história
Com um final feliz
Ninguém se atreveria
A falar no que cai pelo nariz.


De Carapau a 22 de Abril de 2010 às 22:36
Se por vezes comi o pão
Que o diabo amassou,
Por que não comer então
O que a padeira enfornou?

Que o pão era saboroso
Posso eu aqui jurar.
Por isso todo o guloso
Corria para o ir comprar.

E não estou a exagerar
Ao dizer que era o melhor.
Afinal, para desinfectar
Não se usa o calor?

Depois de cozido, a lambidela,
Já o disse ali acima,
(Muita sabedoria a dela!)
Era para anular a Ocratixina.

Sabes lá tu o que comes,
O que comeste ou vais comer!
Há no mundo tantas fomes...
Que interessa a limpeza da colher?

Tivesses tu apreciado
A delícia deste pão,
Que mesmo de nariz empinado
Lhe rezarias uma oração.

Os episódios que aqui contei,
Vi-os porque sou observador.
É certo q não respeitavam a lei,
Mas o pão, repito, era o melhor.


De Maria Araújo a 22 de Abril de 2010 às 22:38
Essa versão dos sovacos, também a conhecia.
Com verdade ou não, mesmo assim, o que comiamos tinha outro sabor.

Beijinho


De arroba a 29 de Abril de 2010 às 18:23
Do pão nunca vi nada, mas uma história sobre a messe dos oficiais conto aqui:
Belas sandes eram servidas aos ditos cujos, aqueles que puxavam pelo cabedal dos cabos e soldados rasos. A vingança era terrível, no meio de um pedaço de fiambre, carne ou queijo, acompanhava ( e porque a vingança é um prato que se come frio), com um fluído saido da cavidade oral, produção em tempo invernoso, segundo sei , dava textura e apaladava bem a dita sandocha!
Peço que me desculpem, mas não consegui arranjar outro modo de ilustrar a história. verídica !
E quando se vai a um café e observamos o prato que nos serviu o rissól ou o salgadinho, ser retirado do balcão, mandar para o lixo o guardanapo de escassa gramagem de papel e ..lá volta novamente o prato para a pilha da loiça lavada!
Isto para não falar nos copos que apenas são passados por água!
A falta de higiéne passa, sobretudo pela falta de consciência de muitas cabeças mal arejadas.
Aqui o carapu ao menos, não se pode queixar , corre-lhe a água pelo lombo, oceâno atlântico fora !Só o peixe grelhado se parece safar! o lume purifica!!
Rsrrss


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