Segunda-feira, 1 de Março de 2010

Gente (V)

 

 

 

 

                                  

 

Ou “A Vinha do senhor…”

 

Durante uns anos trabalhamos na mesma empresa, mas raramente nos víamos, pois a nossa actividade desenrolava-se em áreas geográficas diferentes. Mas, em geral todos os meses, tínhamos de fazer umas visitas em conjunto, o que normalmente durava um dia inteiro.

Vivia na região do Oeste, “capital da pêra rocha e da maçã” como ele gostava de dizer.

Era um tipo alto, fisicamente bem constituído e fazia muitos exercícios físicos para se manter em forma e poder praticar a actividade de que mais gostava: a caça submarina. Era quase um profissional, pois fornecia alguns restaurantes de peixe e marisco, quando as coisas corriam bem. Andava nessa altura pelos cinquenta e poucos anos.

Num certo dia de Outono em que percorríamos uma estrada da região e onde a cada passo se viam, junto à berma, toneladas de maçãs e peras já encaixotadas e à espera de serem carregadas e transportadas, ele tem esta saída:

- Se quiser levar uma caixa de fruta não tenha problema. Pare e meta uma na caixa do carro.

- Eu olhei para ele e disse-lhe, calculando já qual seria a resposta:

- Então eu ia lá roubar uma caixa de fruta?

- Qual roubo? Roubo seria se as levasse todas. Assim uma caixita… ninguém diz nada…

Eu ri-me com a teoria e lá seguimos viagem.

Ele era daquela zona, conhecia meio mundo, era duma descontracção total e não ligava a certas convenções. Às vezes tinha atitudes que me faziam rir. Com o tempo fui entendo melhor a sua maneira de ser.

Numa outra vez, ao passar em determinado sítio, ele disse-me:

- Ali naquela vinha há as melhores uvas Moscatel que já comi.

- É uma vinha toda de Moscatel? - Perguntei eu para dizer alguma coisa.

- Não. Só duas ou três cepas. Uma vez…

E contou-me a história.

Uma vez, poucos anos atrás, ia a passar por ali e de repente viu-se obrigado a parar o carro para ir fazer uma necessidade fisiológica, que se lhe pôs com carácter de urgência.

Subiu então a uma vinha que ali havia num plano superior à estrada, para ficar mais resguardado dos olhares de quem passasse de carro. Era fim de Setembro, as uvas, já maduras, estavam à espera da vindima. Provou um bago, era Moscatel, estava no ponto. Apanhou um cacho e comeu-o. Depois apanhou outro e levou-o para o carro. As uvas eram deliciosas. E então durante 3 ou 4 anos “aquelas” cepas estiveram por sua conta. Na altura certa, parava, apanhava um ou dois cachos de Moscatel e comia-os. Aí pelo 5º ano após a descoberta, ia a passar com um amigo, parou o carro e convidou-o a ir com ele:

- Vais comer as melhores uvas Moscatel da tua vida – disse-lhe.

O amigo pensou que a vinha fosse dele ou de algum familiar chegado. Não teve dúvidas em segui-lo.

Subiram a pequena rampa de acesso à vinha e banquetearam-se. Tão entretidos que nem deram pela chegada dum homem já de certa idade, de sachola ao ombro, que chegou perto deles e os cumprimentou:

- Ora então boa tarde meus senhores. São boas as uvas não são?

Eles olharam um para o outro, como dois miúdos apanhados a roubar bolachas à mãe, e disseram que sim, que eram muito boas.

Então o homem, que era o dono da vinha, falou-lhes assim, com muita calma:

- Não me lembro de ver aqui os senhores quando foi preciso cavar a vinha, podá-la, empá-la, pulverizá-la. Ou estou enganado?

Eles gaguejaram umas desculpas, disseram que só por acaso tinham vindo ali à vinha, que estavam a provar só uns bagos e retiraram-se.

- Nunca tive tanta vergonha na vida – disse-me ele a rematar a história – e não voltei a parar aqui para ir às uvas.

E acrescentou:

- Também nunca mais comi uvas tão saborosas.

Eu ri-me e fiquei a imaginar a cena.

É dos livros, a melhor fruta, a mais saborosa é a roubada. Já vem lá da origem dos tempos. Adão perdeu-se por uma maçã, só por que não era dele.

A serpente tanto pode ser alguém a bichanar-nos ao ouvido “come, come”, como pode ser uma prosaica dor de barriga a proporcionar a ocasião. E a ocasião faz o ladrão, toda a gente sabe.

Um tipo está “ali” sozinho, começa a olhar para uma coisa que nunca petiscou nem sabe o que é (ou até já conhece, saboreou e gostou) vem a serpente a rastejar e silva: “come, come, olha como deve ser apetitosa” e, seja maçã, Eva ou uvas Moscatel, é difícil resistir à tentação e acaba invariavelmente por comer.

Depois, corre-se sempre o risco de aparecer o dono, seja ele quem for, quantas vezes, mesmo que só metaforicamente, de sachola ao ombro…

 

 

publicado por Carapaucarapau às 13:55
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17 comentários:
De MeninaDoRio a 1 de Março de 2010 às 15:12


O fruto proíbido é sempre o mais apetecido


E em adolescente tb desviei uma uvas, amoras e outras coisas mais (só fruta), nada de confusões....


Um abraço no menino contador de histórias


De Carapau a 1 de Março de 2010 às 22:24
Pelos vistos...uma salada de frutas. :-)
1 abraço.


De Maria Araújo a 1 de Março de 2010 às 18:31
Quem não roubou alguma frutinha jeitosa?
Eu já...quando era menina e moça.
Sabe também.
E naquele tempo, a fruta era muito mais apetitosa.
Roubar do campo, da horta, da videira, do castanheiro, da laranjeira, do tomateiro, seja com a serpente ao nosso lado, a Eva, o Adão, o namorado, o marido...sabe sempre a FRUTA.

Beijinho



De Carapau a 1 de Março de 2010 às 22:34
Bastava que roubasses uma peça de cada qualidade e já podias ser acusada como fazendo parte duma associação criminosa. Tu, a serpente, a Eva, o Adão, o namorado e o marido...ia tudo dentro. Mas como a justiça está pelas ruas da amargura, se calhar ainda ia também o precurador giral e o presentiador supremo.
Quanto a FRUTA, parece que pelo norte tem actualmente outro significado.
:-)
Bjo.


De Maria Araújo a 2 de Março de 2010 às 20:09
ehehehhehehehehe!


De maria teresa a 1 de Março de 2010 às 22:28
Hoje estou "murcha" e mais murcha fiquei quando verifiquei, que fruta nunca roubei...
Sou uma "porcaria"...


De Carapau a 1 de Março de 2010 às 22:47
Para já votos de "arrebitanço". Nem te estou a ver assim de asa caída.
Quanto ao rapinanço de fruta, ainda vais a tempo. Nem que seja um limão a um qualquer vizinho.
O que é preciso é começar...
Ânimo!


De Calendas a 2 de Março de 2010 às 14:45
Moral da história: e fugiram os dois como cão por Vinha Vindimada.


De Carapau a 2 de Março de 2010 às 22:04
É mais do tipo "retirada estratégica".
É o que faz um "exército disciplinado" quando vê que a sachola está do outro lado.


De maria teresa a 3 de Março de 2010 às 15:46

É dos livros? Essa tem ranço!
Mas onde é que já se viu?
Apelar ao rapinanço
Para justificar o que sumiu?

Por uma maçã perdeu-se Adão?
Isso é o que conta a história
Ele tinha fome pois então…
A Eva andava com a escória!

A serpente coitadinha !
Com as culpas sempre leva
Era tão, tão pobrezinha
Ela representava a treva !

Se pr´a coisa o tipo olha
É porque a coisa está lá!
Será que ele usa uma “folha”?
E não sabe o “trá-lá-lá”?


Carapau não tens emenda
Só pensas na comidinha…
Mas que raio! Olha a lenda!
Inda arranjas uma sardinha…

Para mal dos teus pecados,
Uma sardinha não entra,
Nestes enormes assados
D´esta q´isto frequenta…!

Bye estou de serviço, hoje sou motorista....


De Carapau a 3 de Março de 2010 às 22:33
Que estavas murcha, disseste.
Bem depressa arrebitaste!
Norte, Sul, Este, Oeste,
Vê lá tu por onde andaste!

Se nunca roubaste fruta,
De fruta tu não és ladra.
Aqui podes entrar "à bruta",
Desde que deixes uma quadra.

Afinal deixaste seis,
É mulher de muita "renda".
Se fosse dia de Reis,
Of ' recia-te uma prenda.

Tu sabes do "trá-lá-lá"
Eu sou mais do "tró-ló-ló".
Sei bem porque vens cá.
És tratada a pão-de-ló.

Boa serpente me saíste!
Diria eu se fosse mau.
Por que muito nos divestiste,
Os agradecimentos do Carapau.

E volta sempre, que és bem vinda, mesmo com o barrete de motorista.


De maria teresa a 3 de Março de 2010 às 23:21
Estava murcha, estava ausente
Isso inda não terminou
A vida às vezes consente
Algo que muito me magoou

Sou serpente! Podes crer!
Isso no signo chinês
Não me podes ofender
Desde que fales português

Estou grata por essa ideia
De me ofereceres uma prenda
Mas como não sou plebeia
Só pode ser uma agenda

Uma agenda para marcar
Toda uma programação
Dum “caso” que não está a andar
Mas que precisa de atenção

A pão-de-ló tu me tratas?
Ora essa! E porque não?
Por muito bem que tu faças
Haverá sempre um "sermão"…

Já me safei da missão de motorista …Amanhã serei bábá…


De Carapau a 4 de Março de 2010 às 14:18
Ora motorista ora babá,
Serpente e não plebeia.
Venha de lá esse "caso"
P'rá animar a plateia.

Se for segredo dos fundos,
Não o divulgues aqui.
Caías na boca dos mundos,
Melhor fazer logo haraquiri.

Se for segredo brejeiro
Dos que animam o pessoal,
Até podes ganhar dinheiro
Se o divulgares no jornal.

Ontem motorista, hoje babá,
Deixa-me agora adivinhar
O que amanhã será...
Palpito cozinheira. Se calhar...

Ou então, hum, hum, hum,
Vais cantar o "trá-lá-lá".
Dar à perna com algum,
Que te impede de vir cá.
:-)

O que me vale é que lá para domingo já ponho novo post, senão esgotava o meu latim todo aqui a "quadrar" para te responder.
Trata bem das criancinhas!


De maria teresa a 4 de Março de 2010 às 14:49

Mente perversa? Não tens!
Mas o “caso” que me apontas
Tem muito a ver com “bens”
Coisas de pessoas tontas!

Antes fosse um namorico
Dava-me cá um certo jeito
Só com fama eu cá não fico
Também quero ter proveito

Sem proveito não há nada
Mesmo nada, p´ra contar
Continuo “chateada”
Com vontade de chorar

Agora que já o “disse”
Vou-me embora, vou sair…
Espero que ninguém me visse
Neste meu “grande carpir”

Daqui a pouco tenho por aí a mais pequena…
Estou quase arrebitada mas esta semana não “correu” muito bem! Para além do problema que cito, o meu leque de amigos de longa data fechou-se um pouco mais…


De Carapau a 5 de Março de 2010 às 22:05
Quando os leques se vão fechando é que é pior. Nada a fazer.
Agora quanto a chatices menores, tudo de resolverá.
Quando as pessoas não conseguirem, vem o Tempo e trata do assunto.


De Eva Gonçalves a 5 de Março de 2010 às 01:08
Deliciosa história esta... :) Só uma coisinha... que é difícil de me resisitir, é bem verdade, mas nem sempre acabo comida :))))))))


De Carapau a 5 de Março de 2010 às 21:59
A 1ª também era irrestivel (eu não estive "lá" mas o Adão olhou em volta e não tinha escolha).
Agora aquela treta da maçã e da serpente é só para disfarçar e pôr as pessoas a olhar para a macieira.
Agora que comeu, comeu.

Claro que nem todos são Adão...
:-)


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