Quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010

Diálogos (IV)

 

                                                                           

                                          (Ora ponha aqui, ponha aqui o seu pezinho…)

 

 

 

- Bom dia!

- Olá, bom dia! Fung, fung, fung….

- Funf, fung, fung? Que vem a ser isso?

- Estou a rir-me. Não é a primeira vez. Sempre que me saltas para cima dá-me vontade de rir.

- Salto para cima?

- Tens razão, não é bem assim, até és delicado…mas que queres?

- Que quero? O costume, ou pensas nalguma coisa diferente?

- Eu simplesmente não penso. Mostro-te o resultado e fico calada.

- Para isso aqui estás. Mas explica, já agora, essas fung…adelas iniciais.

- É fácil e não resisto. É a minha maneira de rir. Quando te vejo assim de baixo para cima, todo nu com esse penduricalho, dá-me vontade de rir e não resisto. É só isso.

- Deixa-te dessas fitas. Ou gostavas mais que o penduricalho, como lhe chamas, não estivesse caído, a “olhar” também para ti?

- Interessa-me pouco isso e não quero entrar nesses teus trocadilhos. Ficas ridículo e é disso que me rio.

- Deixa lá o ridículo e diz-me lá como estou hoje.

- Na mesma. De há uns tempos para cá, estás na mesma.

- E passo eu uma vida de cão, para estar sempre assim?

- Não sei disso, nem sei mesmo o que é vida de cão. Já me basta esta vida de Balança, sempre aqui no canto, arrumada junto à parede. Nem a janela vejo.

-Querias estar no salão nobre não? Tem juízo e dá-te por satisfeita. Ao menos não apanhas humidade, nem frio nem calor.

- Também se apanhasse, já sabias o que acontecia à minha mola…

- E trata de manter a mola em forma, senão…

- Senão o que? Vens com as ameaças do costume?

- Do costume? Nunca te ameacei. Foi agora a primeira vez que…

- Já ameaçaste a Cadeira, a Porta, o Espelho e sei lá que mais. Passas a vida nisso.

- Sabes muito para uma simples Balança e ainda por cima das antigas.

- Sou antiga mas nunca te falhei. Ou já?

- Não.

- Então arranja uma dessas modernaças que trabalham a pilhas ou lá o que é e vais ver como elas te cantam. Volta e meia ficam caladinhas ou dizem que pesas uma arroba…

- Por falar nisso, sabes que há colegas tuas que falam?

- E eu que estou a fazer agora contigo?

- Mas elas falam mesmo. Outras conversas. Até sabem línguas e tudo…

- Interessa-me pouco. Também só te peso a ti e a … pouco mais. E só tu usas esse penduricalho.

- Outra vez?

- Que queres? Faz-me impressão.

- Pois a mim faz um jeitão. Percebes a diferença?

- Não, nem estou interessada. E se te faz assim tanto jeito, por que é que as outras pessoas que também me usam, mas não abusam como tu, não têm isso?

- Pergunta-lhes.

- Não são como tu. Nunca falam comigo.

- E tu gostas de falar comigo não?

- Ora! Dá para desenferrujar a mola…

- Isso. Tem cuidadinho com a mola, senão já sabes…

- Lá volta a conversa outra vez ao mesmo. Põe-me na sucata e arranja logo uma dessas que usam pilhas e falam, se calhar até cantam. Uma chinesa que até tem os olhos em bico e fica baratinha…

- Que sabes tu disso?

- O que ouço nas notícias. Aqui onde estou nem vejo nada, só ouço. E é só à noite…

- Sabes que além dessas há outras baseadas no efeito piezoeléctrico?

- Ena! O que tu sabes. E essas piezoqualquercoisa também dão o peso?

- Claro.

- A minha prima da cozinha já é dessas?

- Não. É como tu, uma antiquada. Além disso não tem uso. Já nem sei dela.

- Não tem uso? Então a pobre está assim tão mal?

- O problema não é estar mal ou bem. Não é utilizada. Aquilo na cozinha é outro reino.

- Ai não é a mesma república?

- Não. Sabes que hoje as coisas já vêm pesadas, medidas, em doses. Nada já é a granel.

- Granel?

- Depois ali predomina a alta tecnologia do “a olho”, “por palpite”, “mais coisa menos coisa”. É uma pitada disto, uma colher daquilo um gole de assim, uma mão cheia de assado. Para que é precisa uma balança?

- Oh coitada da minha prima, assim fica muito desvalorizada.

- Que queres? Agora só os adeptos da cozinha molecular ainda usam disso.

- Vais despedi-la?

- Não sei. Em princípio vai ficar por aí…

- Fico mais satisfeita. Um dia quando me mandares embora já não vou sozinha…

- Porta-te mal e vais ver… Já ando a desconfiar de ti. Marcas sempre a mesma coisa, não sei se não terás já a mola plasmada…

- P(l)asmada estou eu com essa tua conversa. Nunca enganei ninguém. Sou Balança séria…

- Qualquer dia faço um teste com o vizinho do lado. Ele pesa uns 150 kg quero ver se te aguentas com ele…

- Bem diz a Porta que não regulas bem! E a Cadeira também insinua…e o Espelho…

- O quê? Vocês falam uns com os outros sobre mim? Temos um sistema de escutas aqui instalado? Não me digas que também o Gravador está metido…

- Não, não é nada disso, só trocamos umas impressões, nós…

- Quero a verdade toda! Já!

- Mas eu…

- Já!

- Mas…ai…não me apertes … olha que eu gri…

- Já! Tudo! Vomita tudo o que sabes!

- Ai…eu…ai…tá bem… não apertes tanto, eu digotens quase 4 quilos a mais…

 

 

(Já nem em balanças podemos confiar...)

 

 

 

 

publicado por Carapaucarapau às 14:20
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