Terça-feira, 29 de Dezembro de 2009

Uma noite de passagem de ano...

                                          

 

 

 

 

 

Há já bastante tempo que deixei de fumar. Mas em minha casa tenho sempre um maço de cigarros e alguns charutos.

Uma pequena história explica a razão desta minha mania.

Há um bom par de anos atrás, vivi, por motivos profissionais, algum tempo numa pequena vila. Além de pequena, era triste, monótona, fechada, quase sem existência. Para mim foi como uma penitenciária onde espiei um qualquer crime que não cometi. Não vivi lá muito tempo, portanto também não me cheguei a integrar numa coisa que também não vislumbrei: qualquer tipo de vida social. “Fui estando”.

Uma noite – noite de passagem de ano – depois dum jantar melhorado num dos poucos restaurantes que havia, e que nessa noite esteve aberto porque eu era cliente diário, sai a dar uma volta para ajudar a fazer a digestão, antes de regressar a casa. Tinha comido demais e bebido também mais que o meu normal. Uma espécie de vingança por ter de passar sozinho naquele local “fora do mundo” aquela noite. Estava uma noite fria e um nevoeiro cerrado envolvia a pequena povoação como uma capa negra. Só de muito perto se vislumbrava a claridade dos candeeiros da iluminação pública. Àquela hora já ninguém andava pelas ruas. Nem um único carro vi passar durante o tempo em que durou o meu passeio. Para não me perder, limitei-me a andar junto aos prédios do quarteirão onde morava. Tinha dado já duas voltas quando de repente junto a um dos candeeiros fui abordado por um homem que tinha aparecido não sei de onde. Na volta anterior, pelo menos, não estava lá.

Deu-me as boas noites, pediu desculpa pela abordagem e pediu-me um cigarro.

- Não tenho. Deixei de fumar já há algum tempo. – Respondi enquanto olhava para a cara do homem que estava mesmo junto a mim.

Havia qualquer coisa de estranho, e que não oferecia confiança, na cara do sujeito.

-Raios… - resmungou ele entre dentes – como é que eu vou agora arranjar tabaco nesta terra? Tudo fechado… com este nevoeiro não passa ninguém pelas ruas…

Eu não deixava de o fitar com algum receio e lembrei-me de um conto do Miguel Torga sobre uma situação semelhante: a de um homem que sem tabaco, desesperado, pede um cigarro a um outro homem que por acaso passou por ele, lá no meio da serra. O segundo homem ia a fumar, portanto tinha tabaco e deu-lhe um cigarro. No fim de puxar umas fumaças o primeiro homem confessou que se ele lhe tivesse negado um cigarro o tinha matado.

Esta lembrança, o ar desesperado do homem e o facto de naquele momento “estarmos sós no mundo” fez-me arriscar um convite:

- Tenho em casa alguns cigarros, se me quiser acompanhar, dou-lhos. Moro aqui perto.

- Fico-lhe muito agradecido.

Andamos os poucos metros que me separavam do prédio onde morava e quando entrei em casa convidei-o também a entrar.

Procurei um maço meio cheio que, por esquecimento, um amigo aí tinha deixado, e entreguei-o ao homem, que me pediu licença para fumar logo um deles.

Disse-lhe que sim, abri uma janela apesar do frio que entrava, e fiquei a observar a maneira “dramática” como o fumou: as duas ou três primeiras fumaças foram prolongadas, engolindo e retendo o fumo durante o máximo de tempo, consumindo logo quase metade do cigarro, depois passou a fumar mais calmamente.

- Não sei como lhe agradecer – disse o homem.

- Não precisa. Teve sorte em um amigo meu se ter esquecido desse tabaco aqui em casa, senão…

- Senão estava eu tramado.

- Está tudo fechado por aqui … – atirei eu sem saber que dizer mais.

- Tudo. E com este nevoeiro e na noite de hoje não anda ninguém na rua…

Bem…Obrigado mais uma vez …e boa noite. Vou andando.

Pensei em convidá-lo para uma bebida, estava agora seguro que nada de perigoso aconteceria, mas depois desisti da ideia.

- Gosta de charutos? – perguntei um pouco abruptamente.

- Creio que só fumei um ou dois em toda a vida, portanto não sou grande apreciador. Mas se esta noite tivesse um, já me teria dado por muito satisfeito.

- Tenho aqui meia dúzia deles que tenho recolhido nuns casamentos e outras festas, vou-lhos dar.

Ofereci-lhos, mas ele só aceitou um.

- Obrigado, mas fique com os outros. Levo só este para fumar amanhã que é dia de Ano Novo.

E dito isto, dirigiu-se para a porta de saída.

- Agora me lembrei – disse eu, talvez para não ficar calado. O posto da polícia está aberto com certeza. Aí teria encontrado algum guarda que certamente lhe teria dado um ou dois cigarros.

- Tem razão, mas nem pensei nisso… então obrigado uma vez mais e boa noite. Um bom ano para o senhor.

- Bom ano também para si.

E saiu.

 

Dois dias depois, ao fim da tarde quando regressei a casa, tinha na caixa do correio um maço de cigarros e uma folha de papel manuscrita.

Dizia mais ou menos assim:

“Este maço de cigarros não é para pagar aquele que o senhor me deu há dois dias. É sim para ficar com ele, para poder valer a alguém numa aflição, como aquela por que eu passei. Percebi que o senhor não é de cá, senão certamente não me teria convidado para ir a sua casa. Também aquele seu alvitre de eu ir à polícia pedir um cigarro, prova que o senhor não sabe quem eu sou. Se eu tivesse ido à polícia, era mais certo prenderem-me do que darem-me um cigarro. Mas isso é outra história.

Obrigado pelo que fez por mim. Se alguma vez precisar de alguma coisa da minha parte, basta dirigir-se ao homem que está na bomba de gasolina à saída da vila, e dizer que quer falar comigo, que ele lhe indicará o caminho. Basta dizer que o senhor é o dos cigarros.

Mais uma vez obrigado.”

 

publicado por Carapaucarapau às 18:43
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23 comentários:
De maria teresa a 29 de Dezembro de 2009 às 23:57
Isto é uma histórua de suspense!
Chegou a saber quem era o homem? Se estivesse no seu lugar eu queria mesmo saber, detesto não saber os finais, torno-me impaciente e transformo-me em detective...
Abracinho


De Carapau a 30 de Dezembro de 2009 às 13:44
Há que respeitar os direitos dos outros e a liberdade individual...
A mesma que lhe vai permitir fazer a passagem do ano como bem entender.
("lhe" ou "te"? Nunca mais acertamos as agulhas!)


De maria teresa a 30 de Dezembro de 2009 às 14:28
Vamos acertar agulhas ok! É tu!
Sabes, os espaços são diferentes e eu baralho-me com facilidade, começo a dar alguns sinais de senilidade, também já era altura, caso contrário seria "uma Fausta". Lol
Quem te disse que eu vou passar a noite de 31 de um mês para o dia 1 de outro como entender?
Não vou, não! As pessoas não são ilhas isoladas no meio de um mar calmo ou revolto, seria indiferente, há seres que me prendem, me amarram, ...
Sou livre, mas existem na minha vida criaturas pequenas que me levam, por vezes, a abdicar daquilo que desejava mesmo fazer. Opções...nem sempre as melhores para mim, nem sempre as que eu entendo que deviam ser.
Estou a ficar parva, deve ser desta época que me traz alguns "amargos" de boca.
Abracinho


De Carapau a 31 de Dezembro de 2009 às 20:52
"Ilha" ninguém é. Por muito estreito que seja, há sempre um istmo a ligar a península ao continente.
Por isso quando eu disse "fazer a passagem do ano como entenderes" era uma figura de estilo . :-)
Bom Ano!


De RED a 30 de Dezembro de 2009 às 11:22
Bendita ignorância que faz de nós, neste caso, dos outros, pessoas felizes de quando em vez.


De Carapau a 30 de Dezembro de 2009 às 13:48
"Antes ser insensato do que prudente.
O insensato ao menos menos sente,
Não vê um palmo à frente do nariz,
É mais feliz!"

E quem diz insensato diz ignorante.


De arroba a 30 de Dezembro de 2009 às 16:14
Um contador nato de histórias reais. Aberto à vida, atento e generoso. Estou com alguma curiosidade de saber que personagens sairão deste virar do ano 2009/2010. Acho o seu modo de escrever um encanto!
Quer sejam peixes, mulheres perdidas em auto-estrada, ou figuras mistério que se adensam noite fora! Até os perús são contemplados! Nas suas palavras existe colorido, emoção e sobretudo transmitem-nos VIDA!
Já pensou em transportar para o papel as suas palavras? Lanço-lhe este desafio para 2010 ! :-)


De Carapau a 31 de Dezembro de 2009 às 20:57
1º periodo : exagero!
2º periodo: exagero!
3º periodo: dou-me mal com o papel. Em geral acaba tudo numa fogueira.

Mas que é agradável ler estas coisas é. Ainda que sejam ditadas por muita simpatia.
Obgdo.


De Paula a 30 de Dezembro de 2009 às 19:49
Amigo Carapau,
Eu que sou uma viciada ainda fumo...
Mas o que aqui me trouxe foi mais que a habitual visitinha, vim desejar um 2010 em GRANDE!!!!
Espero que lá no teu marzinho a coisa seja tranquila e que não te deixes apanhar pelas "redes":)
Beijocas grandes
Ah, está oficialmente convidado, caso pretenda, para beber um cafézito no Paraíso(Vale) ou cá na terriola, Aveiras City(de cima)
Beijocas


De Carapau a 31 de Dezembro de 2009 às 21:04
Obrigado pelos votos e obrigado pelo convite. O meu conhecimento do Paraiso vem de uma aventura tipo detectivesca que um dia tive por aí. Acabou tudo bem num churrasco onde uma vitela foi imolada.
A história é longa e por isso não a conto. Antes da A1 passava frequentes vezes por essas bandas. Agora nem me lembro da última vez. Faço por construir o meu paraiso onde me encontrar.
Bjo. e bom 2010.


De Lillith a 31 de Dezembro de 2009 às 10:43
Seria um Zé do Telhado... o romantismo prevalece sempre.

Um Bom Ano.


De Carapau a 31 de Dezembro de 2009 às 21:06
É isso! Uma eterna romântica!

Bom 2010 !


De Maria Araújo a 31 de Dezembro de 2009 às 23:11
22:57, falta uma hora para passarmos de 2009 para 2010. Estou aqui no meu cantinhodacasa a ler o que não li nestes últimos dias que estive aí na capital.
Estou muito orgulhosa de ti. Podes pensar que é simpatia minha, mas não é, não.
É que pessoas como tu, mesmo que desconfiem das pessoas, dão sempre o que há de melhor em si, a humildade.
Há anos atrás, descia eu , acompanhada de uma amiga, a rua oonde vivo, numa noite de Primavera , quando uma senhora se aproxima de nós e diz que ao sair do carro caíra-lhe a chave e não conseguia encontrá-la.
Não se via nada, até que eu aojoelho-me e tento espreitar para debaixo do carro e ver se a chave estaria por lá.
Não me recordo se era eu que tinha um isqueiro, se a minha amiga, mas sei que acendi-o e encontrei a chave. Estendi o braço, apanhei-a e dei-a à senhora.
Agradeceu-me o gesto.
Seguimos o nosso caminha e comenta a min ha amiga "Foste capaz de fazer um gesto desses? Não pensaste que ela podia fazer-te algum mal? Eu nunca faria o que fizeste. Baixares-te para procurar a chave? Ela que o fizesse, afinal foi ela que a perdera!".
Respondi eu: "Como pode passar uma coisa dessas pela tua cabeçe? Que poderoa ela fazer-me ? E não estamos juntas? Nem sequer pensei nisso! Ajudei e não estou arrependida!".
Se fosse hoje, acho que faria o mesmo.
Nem sempre penso no mal, apesar de nos dias que correm os pergios existirem em maior número.
Tens muityas histórias para contar.
E como sempre esta foi uma bela história de bondade e solidariedade.
Um beijinho e Feliz 2010.
A tua amiga.


De Maria Araújo a 1 de Janeiro de 2010 às 15:37
Olá.
Ontem comentei este teu belo post, mas tem algumas falhas.
Seria a bebida???
ehehehehehehehe!Feliz Ano Novo ao som de Strauss, na RTP1.
Beijo


De Carapau a 1 de Janeiro de 2010 às 23:13
Também me pareceu que havia uns copos a mais por aí :-) (estou a escrever depois de ter lido o teu 2º comentário, de modo que não estou a levantar falsos testemunhos...)
Então escreveste aquilo tudo, puseste-me nos (quase) píncaros da lua e dizes que não é simpatia?
Olha se fosse... :-)
Pena por não termos "pastelado" mas fica para a próxima.
Bom 2010 !
Bjo.


De Maria Araújo a 1 de Janeiro de 2010 às 23:24
E fui aos pasteis de Belém, mas não os comi.
É que queria ir ao Museu do Oriente e acabei em Belém.
Lembrei-me muito de ti.
Beijinho.


De Tio a 2 de Janeiro de 2010 às 17:16
Não sei sei se o medo ou a coragem, fumam. A solidariedade e a fraternidade têm outros vícios, não fumam com certeza!

Um grande abraço e um óptimo 2010.

Vitor








De Carapau a 4 de Janeiro de 2010 às 10:49
Obrigado pela visita e bom 2010 para si também.


De Calendas a 4 de Janeiro de 2010 às 13:58
Isto vai de bem a melhor! Gosto de pensar que foi devido a tanta insistência minha que estas histórias têm surgido. (Não é bem verdade, mas é como se fosse porque o que vale é a intenção e não me venhas tu, ó carapau, dizer que de intenções está o mundo cheio).
Continuação do excelente trabalho.


De Carapau a 4 de Janeiro de 2010 às 19:17
Ora seja bem vinda lá das regiões altas, frias mas certamente gostosas!
Como não sou bicho para enganar ninguém, aviso desde já que isto vai ainda baixar mais de nivel. E como não é assim tão alto como parece, vai ficar ao nivel do rés-do-chão, descendo uma ou outra vez à cave.
É a vida!


De MeninaDoTejo a 23 de Fevereiro de 2010 às 11:56
A confiança, a boa vontade, a solidariedade, fazem parte de alguns seres humanos e um deles é você.

Quando não se tem maldade, confia-se sem pedir nada em troca.

Mas no stempos que correm, infelizmente este confiar é demasiado perigoso.

Mas acredito que ao faze -lo o seu coração ficou recheado de alegria.

Parabéns



De Carapau a 23 de Fevereiro de 2010 às 14:09
Dependendo das circunstâncias, e aí é que está o busilis, "não há rapazes maus".
Beijo e obgdo pela visita.



De Labirinto de Emoções a 17 de Dezembro de 2012 às 20:52
Não sei se era a falta do cigarro...se de calor humano que esse homem precisava, naquela hora, naquele momento...e tu deste as duas coisas, as vezes um simples sorriso faz de uma noite de frio um dia solarengo...
Um beijo ternurento...(...)


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