Sábado, 28 de Novembro de 2009

Diálogos (III)

                                            

 

 

            (A porta do diálogo não é esta. Mas como não se deixou fotografar...)

 

  

Conversa com a minha Porta

 

- Até logo!

- Vais sair outra vez?

- Entrar é que não posso. Estou cá dentro…

- Estás mais tempo fora que dentro.

- E tens alguma coisa com isso?

- Não.

- Mas pelo tom até parecia…

- Foi só para não ficar calada.

- Fala aí com a porta da frente ou com a do lado.

- Não gosto de falatórios com vizinhas.

- Difícil é falares com afastadas…

- O que queres dizer?

- Nada. Até logo!

- Ainda nem me abriste…

- É só dar-te meia volta e já está.

- Engano o teu. Tens de me dar duas voltas completas.

- Ena! Estavas com medo que te roubassem?

- A mim? Uma porta velha e usada…

- Velha uma ova! Para porta estás muito bem conservada.

- Isso dizes tu. Estou cansada, sempre a abrir e a fechar.

- Ainda tens os gonzos em bom estado. Nem chiam…

- Graças ao óleo que me pões de vez em quando.

- Trato-te bem.

- Tratas, tratas. Olha só o peso que me mandaste pôr nos ombros…

- Quais ombros? A ombreira é que se podia queixar. Agora tu…

- Tinhas necessidade de me mandares aplicar esta chapa de aço?

- Foi para tua protecção. Qualquer dia aparecia aí algum safado que te metia o ombro e lá ias tu…

- Isso. Desculpa-te. Protecção para ti, meu medroso…

- Medroso? Mas que conversa é essa?

- Não era nada disso que eu queria dizer. Queria dizer cauteloso. Mas que queres? Com esta carga às costas já nem sei o que digo.

- Bem. Vamos lá a ver se a Porta se porta na linha. Tu não percebes que se não fosse essa protecção aparecia aí algum que te dava a volta e tu escancaravas-te toda?

- Não sou dessas.

- Olha não. Era só ele ter algum jeitinho e abrias-te que nem uma romã com o calor.

- O que é uma romã?

- Não disfarces. Porta-te bem senão…

- Senão o quê? Que me fazias?

- Sei lá. Depois veria…Olha mandava-te envernizar.

- Não faças isso. Não suporto o cheiro a verniz.

- Mas ficavas mais bonita…

- Para quê? Não és tu que dizes que por aqui nunca passará nenhum Portão de Quinta?

- De quinta categoria não? Para que querias tu conhecer um Portão?

- Ora… cá para coisas…

- Para casares e teres muitos postigos…

- Não sejas maluquinho. Ganha juízo senão ainda dizem que és mais burro que uma porta…

- É verdade! As portas são burras mesmo?

- Sei lá! Deve haver umas que são e outras que não. Olha, por exemplo, sempre que se abre uma porta isso quer dizer…

- O quê?

- Nada. Não ias entender.

 - Sabes lá tu se ia entender ou não… mas diz-me uma coisa: de vez em quando não aparece por aí nenhum “curioso” a espreitar-te pelo buraquinho?

- Buraquinho? Eu tenho lá disso! Sou uma porta bem fechada a espreitadelas do exterior. Já de ti não posso dizer o mesmo…

- De mim, o quê?

- Tu sim espreitas muitas vezes, mas pelo lado de dentro.

- Claro, para saber quem bateu à porta.

- Essa do “bater à porta” era no tempo da minha avó. Muita porrada as portas levavam então…

- Pois. Agora não…

- …se bem que agora parece que ainda há disso. Não sei se leste as últimas estatísticas…

- Ah! Ah! Ah! Deixa-me rir! E tu leste?

- Não li, mas ouvi. Aqui ouço muita coisa. Ainda há dias ouvi na televisão da vizinha do lado, sobre isso. Pobres portas! Não há maneira de serem respeitadas…

- Pronto. Entraste na fase da contestação.

- Diz antes da constatação. Olha que mesmo aqui ao lado…

- Ai sim? Conta, conta…

- Deixa de ser bisbilhoteiro. Não sou Porta de dar à língua. Mas deixa-me dizer-te uma coisa. A mim ninguém bate, mas quando tocam à campainha apanho cada sobressalto, que fico com o coração aos saltos. Então se estou a dormitar, nem queiras saber como fico. Podias substituir esta campainha estridente por alguma coisa mais suave. Olha que ali a minha vizinha da frente…até dá gosto quando tocam para ela…

- Querias música não?

- Música dás tu, às vezes, quando aqui vêm certas pessoas falar contigo. Lembras-te daquela vez com as Testemunhas…

- Shiu! Cala essa boca…

- Ah! Não gostas de ouvir as verdades! E daquela vez que apareceu aqui uma certa pessoa e tu abriste-me tão depressa e tão depressa me fechaste que até fiquei ourada? Não te lembras não? Depois aí do lado de dentro encostaram-se a mim que até…

- Cala-te com essas tretas! Olha que as portas têm ouvidos!

- As paredes é que têm…

- E as portas também. Até melhores. Essas conversas não são para aqui chamadas.

- Pronto, está bem, desculpa. Mas às vezes custa engolir certas coisas…

- Sabes que mais? Vou-me embora. Já perdi muito tempo aqui a palrar contigo. Até logo.

- Mas primeiro, não te esqueças de meter essa coisinha aqui no meu buraquinho e dares aquele jeitinho que tu sabes, senão não abro…

- Porta tarada! Sempre com essa mania dos jeitinhos…

- Que queres? O culpado foste tu. Deformaste-me…

- Pois, pois. Mas aposto que, se aparecer alguém aí com um abre-latas qualquer, não te fazes rogada…

- Ah! Ah! Com ciúmes?
- Ah! Ah! Digo eu. Adeus, até logo.

- Aonde vais?

- Como?

- Nada, estava a brincar. Sabes uma coisa? Gosto de falar contigo. Não aprendo nada de novo, mas dá-me um certo gozo.

- Gozo? Nunca me apercebi, mas se calhar, pensando bem…

- Não é nada disso que estás a pensar. O meu gozo é outro. É para fazer inveja aí a essas minhas duas vizinhas. A Castanhinha da frente e a Amarelada aqui do lado. Muito envernizadas as duas, mas ninguém fala com elas…

- Chiça! Até tu, Porta?

- Que mal tem?

- Não sei se tem mal ou bem, não me interessa. Mas agora diz-me uma coisa: como sabes a cor da vizinha do lado? Que saibas a cor da porta frente, eu entendo. Agora a do lado…

- Ah! Ah! Ah! E as portas é que são burras! Vai-te lá embora que se faz tarde. Mas primeiro fecha-me com duas voltas, está bem? Fico tão consolada…

                                  

publicado por Carapaucarapau às 15:09
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12 comentários:
De Maria Araújo a 28 de Novembro de 2009 às 18:32
"Era só ele ter algum jeitinho e abrias-te que nem uma romã com o calor."

Com o teu sentido de humor para "brincar" com assuntos sérios, e eu não sei o que aconteceu desta vez para falares de/com a porta, mas esta frase fez-me dar uma gargalhada, que verdade seja dita, hoje já precisava.
Gostei de mais um dos teus post e do teu jeito de escrever.
Acredita que me fazes sorrir. Ando desanimada. Deve ser este tempo de fim-de-semana que me põe mais "down" do que "up". Anseio o fim de semana de que me leve a andar uns quilómetros de carro, e passear pela beira-mar e sentir a aragem fria entrar nesta mente que precisa de abrir a Porta e renovar o ar).
Um beijinho muito especial para ti Carapau


De Carapaucarapau a 28 de Novembro de 2009 às 22:32
Também acho que um bom passeio para arejar faz muito bem. Mas quanto a mentes fechadas...não deve ser da tua que falas.
Obrigado pelo comentário.
Bjo.


De RED a 28 de Novembro de 2009 às 21:59
Ora aqui está uma interessante conversa com uma porta que não me parece nada burra, mas fala pelas dobradiças, a gaja. Como tal, convém ser bem tratada e estimada volta e meia meia volta ou duas inteiras, não vá ela enferrujar.



Ou então fechá-la de vez, quando uma se fecha outra se abre, dizem, mas que sei eu de portas?


De Carapaucarapau a 28 de Novembro de 2009 às 22:38
Como a própria diz, é oleada com frequência, pelo que a ferrugem não entra com ela facilmente.
E aqui está uma porta aberta para quem quiser vir, apreciar e dizer de sua justiça.
Também eu volta e meia "bato" a outras portas...


De Maria Araújo a 28 de Novembro de 2009 às 23:06
ehehehehehehehe!
Homem cuidadoso com a lubrificação,da Porta.


De Calendas a 30 de Novembro de 2009 às 19:55
Não percebo! Não percebo e pronto.
Cada vez que leio assalta-me esta pergunta:

Não sei se é a porta que gosta mais que metam a coisinha no buraquinho e lhe dêem aquele jeitinho peculiar ou se é o dono da porta que é moço para gostar de meter a coisinha no buraquinho da porta e dar-lhe aquele jeitinho especial.

Pois não sei. Agradecem-se mais esclarecimentos num post seguinte!


De Carapaucarapau a 1 de Dezembro de 2009 às 15:40
Só mesmo quem não entende nada de portas tem dúvidas dessas. Quem quiser entrar tem sempre de usar o aparelhinho apropriado. Claro que se usar a gazua, abre qualquer porta, até a da vizinha...
A menos que seja porta de estar só no trinco. Essa abre-se com qualquer folheca e em três tempos. Mas essas não contam.
Aparelhinho, gazua e folheca cada qual tem o que tem...
(A Porta já está mandar-me calar)


De Tio a 30 de Novembro de 2009 às 21:48

Portas destas? Hum... já se não fazem mais!
Em castanho velho, maciço e seco... são as melhores!
Não há fechadura que resista, aguentam as voltas todas que se lhe [quiser] puder dar.

Belo post! Parabéns.



Vitor


De Carapaucarapau a 1 de Dezembro de 2009 às 15:31
Obrigado pela visita "Tio" Vitor.
É isso mesmo. O ponto fraco está sempre na fechadura e nunca na porta, seja ela de castanho velho, maciço e seco, seja ela modernaça de aglomerado.
Só muito oleada e tratada com jeito é que vai funcionando.


De Arroba a 8 de Dezembro de 2009 às 16:09
Conversas de uma arroba para um carapau:
Haja talento, que é genuinamente o seu caso, haja imaginação que em si jorra em abundância por entre escamas de brilho nacarado e, eis que o resultado está à vista!!
Andei dois dias a ler-lhe os "pensamentos", e a única certeza que tinha é que era meu dever e prazer responder , deixando aqui um comentário.
Deixei "neste" como poderia e merecia ter deixado em cada um dos outros posts . E, deixei neste porque era uma conversa de portas, muito melhor que uma conversa de surdos-mudos :)
Acho deliciosa a sua capacidade de olhar para, seja o que for que o rodeie e, de forma irónica,. algo caustica , um fino humor, quase mais aguçado que estilete e zás.....!! Sai assim algo de fino recorte literário, muito superior a uns tais que por aí andam na nossa praça a vender uns milhares de livros.. vai-se a ver ( ler) e é só bluff e esquemas de marketing .
Assim também eu estou quase certa que qualquer um publicaria.
Espero um dia poder vê-lo nos escaparates de uma livraria e...( já agora porque não nos Supermercados Pingo Doce e afins - passe a publicidade).
Afinal se os "tais" também lá andam, sempre vendia o seu peixe bem melhor porque é genuinamente fresco e com uma escrita deliciosa .


De Carapau a 9 de Dezembro de 2009 às 00:18
Obrigado pela visita e pelo comentário (e-xa-ge-ra-do!).
Mas há uma coisa com que não posso estar de acordo e tenho mesmo de reclamar. Essa de esperar ver-me nos escaparates do PIngo Doce & Afins.
Nos hipermercados os escaparates chamarse-iam "bancadas de peixe" e eu fujo disso como o Diabo da cruz. Melhor: em boa verdade fujo dos arrastões para não acabar numa bancada de peixe.
Se calhar até acabaria vendido à arroba...


De Labirinto de Emoções a 17 de Dezembro de 2012 às 19:07
Ah Carapau malvado...tu és uma lufada de ar fresco nos dias cinzentos...mete lá a coisinha na porta com jeitinho...sem a deformares..e deixa-a entreaberta para eu entrar e continuar a ler-te........:-)))

Beijosssssss


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