Sábado, 14 de Novembro de 2009

Assembleia Geral

                                    

                           (Lá para o fim se entenderá a razão desta foto)

 

 

Os inúmeros animais que tem sido objecto de histórias aqui no blog, bem como aqueles que só foram citados, resolveram reunir-se em Assembleia-geral Extraordinária para debater um problema que muito os anda a preocupar. Cidadãos bastantes intervenientes (alguns, outros limitam-se a mandar umas bocas) formaram uma comissão “ad hoc” para organizarem essa reunião. E vieram convidar-me, eu diria mesmo intimar-me, para estar presente, com a função de secretariar a mesa e redigir a acta. Com uma desfaçatez que lhe vem de longe, foi a cadela Marilyn, que chefiava a comissão, que disse que eu era o animal indicado para redigir a acta, já que gosto muito de dizer/escrever coisas e assim tinha uma oportunidade de mostrar os meus dotes. E enquanto faladrava sorria para mim, o que queria mesmo dizer que me estava a gozar. Fiz que não percebi e uma vez que fui obrigado, lá estive a aturar aquela bicharada toda.

A única coisa que posso fazer, para me vingar, é publicar aqui parte da acta que eu redigi, pelo menos para os eventuais visitantes verem até que ponto a bicharada anda entretida com estes “faits divers”, quando devia estar a tratar da vidinha. Nem sei com quem esta bicharia aprendeu…

 

                                                          Acta

Aos tantos de tal de dois mil e etc. etc. estiveram reunidos no Pavilhão do Indico, devidamente equipado com sistema de tradução simultânea e gentilmente cedido para o efeito, os seguintes “condóminos do blog CarapauCarapau”:

(Segue-se a lista com toda a bicharada. Aqui só vou citar meia dúzia dos mais conhecidos, deixando assim campo aberto para os futuros historiadores pesquisarem. Estavam presentes, seguindo a ordem da lista de presenças, o goraz, o choco, o peixe-galo, o peixe-porco, as chaputas (várias), a Chaputa Fina*, a sardinha, o mexilhão, o Lagostim*, o bacalhau, a Pescada* e o Pargo*, a Solha Zarolha* (estes dois últimos contra todas as expectativas) e mais uma infinidade de animais de água, doce e salgada, sendo de destacar a Ostra*, o que muito admirou os outros animais. Além deles estavam ainda o cão Petrarca* e a cadela Marilyn*, 7 vacas (as 6* que em tempos estiveram na Praça de Espanha e mais a Belisária*, o mais recente condómino), um camelo que ninguém conhecia e o cão Napoleão*, de que já ninguém se lembrava).

Como a Assembleia foi aberta à população em geral, encontravam-se nas bancadas, mas sem direito a intervir, vários animais e não só, tais como: um Gajo* a fumar uma cigarrada, o Jamé, o Alberto João* e o Rei de Espanha*. Também estava o Tio*, mas não o sobrinho.  

Presidiu a Marilyn, que além de dirigir os trabalhos fez a introdução aos mesmos.

- Caros condóminos, estamos aqui reunidos para debater as consequências nefastas que a aplicação de um recente decreto-lei, vai introduzir no mundo animal. Em boa verdade, nem deveria falar em introduzir, pois que uma das consequências é mesmo proibir a introdução (gritos na assistência de “abaixo a lei”, “fora com esses fazedores de leis”, “viva a introdução livre”). Acalmados os ânimos depois dumas boas ladradelas da Marilyn, esta continuou:

- Amigos, companheiros, camaradas, condóminos! A propósito de regulamentar e proibir os animais no circo, essa lei pretende sim vir a condicionar a nossa vida de animais livres, sexualmente activos e empreendedores. Esta lei é só a ponta do iceberg. Qualquer dia aparece outra que, sob a capa de velar pela nossa saúde, irá proceder à castração geral de todos nós! Física para uns, química para outros.

O tecto do pavilhão ia caindo com o imenso huuuuuuuuuuuuuu!!! que a bicharada soltou. E vieram novamente os gritos de “abaixo a lei, acima os nossos sempre direitos”.

Nesta altura ouviu-se a voz esganiçada da Ostra a dizer “cá por mim não me faz diferença, resolvo os meus problemas sozinha”. Respondeu-lhe o Lagostim com um “cala-te lá hermafrodita de trazer por casa. Ainda te roubo a pérola outra vez” – o que provocou uma risada geral no pavilhão.

Acalmados os ânimos, voltou a Marilyn:

- Temos portanto que organizar manifestações públicas para mostrar todo o nosso desagrado e defender os nossos direitos e combater deste modo a lei e a crescente influência nefasta que a Associação Animal tem, pois quer formar uma sociedade de capados, eles lá saberão com que futuras intenções.

“Queremos os nossos sempre direitos, queremos os nossos sempre direitos”, “abaixo a Associação Animal” - gritava a assembleia em uníssono.  

- Está aberta a discussão. Fala agora a vaca nº5.

(Sobe a vaca nº 5 à tribuna)

- Eu só quero aqui trazer o meu testemunho vacal, que é em geral o de todas as vacas e está ali a Belisária que não me deixa mentir e cuja história todos temos ainda bem presente. Já não vejo o Boi a que tenho direito há anos. O mesmo acontece com todas as minhas amigas e não só. Isto é uma ofensa que se faz a todas as vacas, e no nosso caso nem legislação há sobre o assunto. Levamos uma injecção com uma agulha ou chamem-lhe lá outra coisa qualquer e … “vai-te coçar”. Ora nós queremos ser coçadas por quem sempre nos coçou e não por um qualquer instrumento mesmo que esterilizado. Queremos os nossos bois!

“As vacas tem direito aos seus bois!” – gritava a Assembleia em peso, mesmo aqueles que não sabiam por que estavam a gritar.

Em seguida tomou a palavra o cão Petrarca. Tossicou para aclarar a laringe, bebeu um pouco de água e perorou:

- Amigos! Aproveitemos a ocasião para, além de reclamar sobre tão iníqua lei (Petrarca é Petrarca, é bom orador e é ouvido em silêncio, toda a bicharada o respeita…), também discutirmos e tomarmos posição sobre aqueles animais que ao longo dos anos têm sido castrados e impedidos de viver em plenitude toda a sua vida de animais. Estou a faladrar, como já perceberam, dos nossos amigos cães e gatos e cadelas e gatas evidentemente, que se vêem castrados só para não causar problemas aos seus donos que fazem deles animais objectos. (Aqui a intervenção foi interrompida com gritos de “abaixo a castração dos nossos amigos cães e gatos” e “abaixo os exploradores desses animais”).

Petrarca deixou a Assembleia exprimir os seus sentimentos, depois fez um sinal, todos se calaram e ele retomou a ladradela:

- Temos à nossa frente um exemplo vivo, que foi vítima deste lamentável procedimento durante algum tempo. Felizmente está recuperada e hoje é um verdadeiro farol de civismo e de cidadania. Refiro-me, como já entenderam, à minha/nossa amiga, companheira e camarada cadela Marilyn que muito nos honra presidindo a esta sessão. (“Viva a Marilyn”, “viva a Marilyn” gritava a assembleia).

- Amigos! Falei em cães e gatos mas poderia falar de porcos, cavalos, bois, galos (quem não sabe dos apetecidos capões? – ver foto) e doutros animais vítimas de castração, para satisfazer apetites dos chamados humanos. Queremos uma sociedade de castrati**?. (“não queremos castrati”, “não queremos castrati” – gritava a bicharia).

Depois Petrarca passou a palavra ao cão Napoleão, pois ele também teria coisas a dizer, mas o cãozinho meteu o rabo entre as pernas e disse que não faladrava, porque lhe doía a garganta. Um formidável huuuuuuuuuuuuu!!! reboou pela sala.

Depois de mais duas intervenções sem nada de especial a relatar, Marilyn deu a Assembleia como finda.

Termina aqui a parte da acta.

                                                           o0o

 

Resta-me dizer que depois de encerrada a Assembleia, foi a debandada geral e em poucos segundos o espaço ficou vazio.

Eu fiquei a retocar alguns apontamentos para poder elaborar a acta e quando saí, alguns minutos depois, encontrei a maltosa toda cá fora, de volta das barracas das febras e dos coiratos, a comer e a beber uns tintos e umas cervejas.

Pus-me a milhas, não fosse o Alberto João requisitar a minha presença.

 

Para os eventuais interessados por coisas que já pertencem à história, deixo aqui os apartamentos/posts onde podem encontrar as principais personagens que na acta aparecem assinalados com *. Assim, por ordem por que aparecem temos: 5-8-14-5-22 e 23-44-87-51-55-76-51.

 

 

Carapau cultural (não confundir com carapau de cultura):

** A propósito de “castrati” (plural de castrato=castrado)

(…)

Como resultado da expulsão das mulheres dos palcos e coros, decretada pela Igreja, surgiram no século XVIII, os "castrati", que eram cantores castrados antes da puberdade para preservarem o registro de soprano ou contralto da voz. Apoiada em pulmões masculinos, essa voz era ágil e penetrante.

(…)

Pode ler mais aqui e em outros sites.

publicado por Carapaucarapau às 14:37
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10 comentários:
De Anónimo a 14 de Novembro de 2009 às 16:58
Tu arrumas comigo! Onde é que engenhocas estes posts sempre tão imaginativos?


De Carapaucarapau a 14 de Novembro de 2009 às 18:57
Creio que estás bem arrumada... :-)
Mas o objectivo é divertir-me e divertir alguém que goste do género.
Quanto a ser imaginativo, fico muito aquém daquele gajo que todos conhecemos(infelizmente, digo eu) e que tem cá uma piada...


De Calendas a 14 de Novembro de 2009 às 17:00
Já agora, cantas fininho ou grosso?


De Carapaucarapau a 14 de Novembro de 2009 às 18:50
Ah!Ah!Ah!
Nem queiras saber. Tenho uma garganta que é uma vergonha...
A operação comigo não resultava :-)


De Maria Araújo a 16 de Novembro de 2009 às 12:35
"Ora nós queremos ser coçadas por quem sempre nos coçou e não por um qualquer instrumento mesmo que esterilizado. Queremos os nossos bois!
"

Carapau, tu tens uma imaginação fantástica. Onde já se viu fazer uma acta de uma assembleia de animais, ehehe!
Fartei-me de rir com a brincadeira(séria) deste teu post.
Mas o acima copiado estás demais!
Aodrei. Nem sei que te dizer.
Continua, carapau que está no caminho certo.
A avaliar-te seria com um Excelente de Excelente.
Beijo coçado...mas na face, ok?Até porque o carapau tem uma escama "picante". Quantas vezes sangro ao passar os meus belos dedos pela tua escama. És muito vingativo!
Por isso fugiste do Alberto João, não fosse ele "atiçar-te" a pica.


De Carapaucarapau a 16 de Novembro de 2009 às 19:32
Às vezes fico sem saber o que dizer. Sei que a amizade exagera as coisas e portanto exageras nos adjectivos.
Ficam 2 bjos. de agradecimento: um pelo comentário e o outro pelo link.


De Calendas a 16 de Novembro de 2009 às 18:02
A propósito de um post falando sobre as cores das vogais, diz-me o Carapau isto:

Tu, poeticamente, associas cores às vogais. Eu, mais pragamático, associo-lhes coisas.
A - é um simbolo de estabilidade. Não há vento ciclónico que o derrube, bem especado em duas pernas travadas para não abrirem.
É poste, é farol, é torre...mas também pode ser cabide numa emergência.
E - é um móvel. Compartimentado. Em baixo os sapatos, no meio umas roupinhas, em cima qualquer coisa a decorar.
I - elegância mas muita instabilidade. Uma brisa mais forte e aí vai ele. Aguenta-se bem entre duas outras letras. É um palito, um pau de virar tripas, uma palhinha para fazer cócegas atrás da orelha...
O - um vazio, um "tanto faz como fez", um "assim ou assado". Mas também, quando mais arredondado, pode ser equilibrio. Em suma, um anel, uma roda, o meu arco de miudo.
U - caixote de lixo, sem tampa. Pronto a receber tudo, inclusivamente todas as letras, palavras e sinais deste comentário.

Gostei tanto que o deixo aqui no blog do próprio. A seu o que lhe é de direito!


De Maria Araújo a 16 de Novembro de 2009 às 18:26
Já agora, por que não dar o nome do seu blog???


De Carapaucarapau a 16 de Novembro de 2009 às 19:37
Hoje juntaram-se aqui duas comentadoras para me deixar encavacado.
Direi que há comentários fáceis quando os posts (bons) dão o lamiré e deixam a batuta ali à mão.
Sem mais, obrigado pelo gesto.


De Maria Araújo a 16 de Novembro de 2009 às 23:00
O meu comentário não tem a ver com a amizade, mas com o conteúdo do post, que stá muito, muito bom.
Não sei se exagerei no "beijo coçado".
Peço desculpa .
Bj


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