Sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

24 M entrevista Cadeira

                                                  

                                                   

    

      

 Ontem, ao dar uma vista de olhos pelas primeiras páginas dos jornais, no quiosque ali da esquina, vejo na 1ª página do 24 Minutos uma fotografia que não me parecia nada estranha. Peguei nele e confirmei. Era mesmo uma foto da minha Cadeira com quem há dias tive uma conversa. Ela tinha dado uma entrevista que vinha ali escarrapachada. Comprei o jornal, li, reli, percebi que a entrevista tinha sido encomendada e depois destas horas de reflexão resolvi publicar aqui essa entrevista, mesmo sem fazer vénia ao tal jornal, já que ele invadiu a minha privacidade sem dizer água vai.

O que vai…é ler a entrevista já de seguida (omito as considerações iniciais da jornalista porque gosto muito de omitir coisas.)

 

Jornalista: - Quero agradecer em 1º lugar a disponibilidade que a Senhora Cadeira teve em nos receber e dar esta entrevista.

Cadeira: - Olhe menina! Primeiro não me trate por Senhora, senão ainda pareço mais velha do que sou na realidade. Depois quanto à disponibilidade…estou sempre disponível para qualquer pessoa desde que Ele não esteja a ocupar-me.

J: - “Ele” como a Cadeira o trata, é possessivo?

C: - Se tem posses? Eu não sei disso menina, nesse aspecto Ele é muito reservado.

J: - Não era disso que eu falava. Queria saber se Ele se agarra muito às pessoas ou às coisas…

C: - Ah! Lá nisso de se agarrar deixe-me pensar…sim, às vezes agarra-se e com força. Olhe, a mim quando me quer puxar para a frente agarra-me mesmo com força pelos braços e obriga-me até a saltar. E também já o tenho visto agarrar-se aí a outras coisas. Quanto às pessoas…que me lembre…desculpe mas sobre isso não falo.

J: - Mudemos então de assunto. A Senhora, perdão, a Cadeira ficou muito ofendida com a conversa que há dias teve com Ele?

C: - Ofendida? Eu? Com Ele?

J: - Sim.

C: - Não.

J: - Mas pareceu…

C: - Nem tudo o que parece é. Eu estava num daqueles dias, a menina sabe como é, irritadiça. Mesmo que Ele me dissesse que me levava para as Caraíbas eu reagia da mesma maneira. Depois esta coisa que tenho aqui no espaldar estava a incomodar-me…

J: - A Cadeira gostava de ir às Caraíbas? Passar uns dias de férias…

C: - Eu, menina? Nem pense. Eu gozo férias é quando Ele vai de férias.

É um descanso…mas deixe-me dizer-lhe que poucos dias depois de Ele partir já estou roidinha de saudades, de sentir-lhe o calorzinho, das resmunguices…

J: - …e dos maus cheiros não?

C: - Oh! Menina, isso não se diz. São coisas cá nossas, foi um desabafo, mas é assunto privado. Eu atirei-lhe isso à cara, mas compreendo essas coisas. Tenho amigas minhas que me contam cada história…

J: - E quanto ao despedimento? Isso incomoda-a? Acha justo?

C: - Bem. Ele invoca justa causa. Inadequação ao posto de trabalho e incapacidade parcial para desempenhar cabalmente as funções que me foram atribuídas. Ele tem razão. Aliás, quero dizer-lhe menina, que Ele tem sempre razão.

J: - Sempre?

C: - Sempre. Às vezes engana-se, mas tirando isso tem sempre razão.

J: - E Ele engana-se muitas vezes?

C: - Sempre. A fazer o Euromilhões é sempre. E noutros palpites é cada tiro na água que nem conto à menina.

J. – Então está sempre a enganar-se.

C: - Não menina. Ele nunca se engana. A menina é teimosa…

J: - Outra coisa, agora mais pessoal. Ele trata-a com carinho? Naquela conversa parecia um pouco ríspido…

C: - Olhe menina! Pode não parecer para quem o vê assim meio sisudo, mas aquilo é um amor. Eu tive muita sorte em vir parar aqui. Depois Ele tem um não sei quê…e agora já não é nada do que foi. Noutros tempos…

J: - Já o conhece então há muito?

C: - Nem por isso: Há meia dúzia de anos. Mas sei… pelo que ouço dizer a outras que por aqui passaram e também vejo isso pelas fotos que ele às vezes me deixa ver.

J: - Ele mostra-lhas?

C: - Não. Mas às vezes ele deixa essa maquineta aí ligada e se calha estar nas fotos eu vejo.

J: - A Cadeira vê tudo o que Ele faz aqui?

C: - Não menina, é muito difícil. Ele está sempre de costas viradas para mim e tapa-me a visão quase toda. O que eu mais tenho visto, ao longo da minha vida com Ele, é a careca a aumentar. Isso sim, vejo eu muito bem. Até já lhe tenho dito para usar…

J: - Sim. Usar…?

C: - Desculpe menina não lhe digo mais nada. Ia cometer uma inconfidência. Distraí-me Não ponha esta parte na entrevista…

J: - E de saúde como se sente?

C: - Ele senta-se e sente-se com saúde, pelo menos é sempre o que está a dizer. E a verdade é que às vezes dá cada gargalhada aqui sozinho, até parece parvinho. Às outras pessoas diz que lhe faz bem. Agora eu…esta coisa que tenho aqui nas cruzes…acho que nunca mais vou ficar boa.

J: - Mas afinal do que se trata?

C: - Creio que já não se trata. Foi qualquer coisa que se deve ter partido aqui dentro. Eu bem que senti assim a modos que um estalido, mas foi tudo tão rápido…

J: - E Ele não trata de si?

C: - A bem dizer menina, quando Ele ouviu o tal estalido, mirou-me de cima a baixo, apalpou-me toda, revirou-me, até o pino me obrigou a fazer ali contra aquela parede. Descompôs-me toda, meteu-me uma coisa ali atrás e esburacou-me, olhe menina, se nessa altura tivesse entrado aqui alguém e nos visse naqueles propósitos até podia pensar coisas…

J: - E a Cadeira sofreu esses tratos de polé sem se queixar?

C: - Oh! Menina, eu queixo-me todos os dias. Quando Ele se senta começo logo a gemer. É por isso que Ele me quer substituir.

J: - E quanto àquela insinuação que a Cadeira faz de quando se sentavam duas pessoas em cima de si.

C: - Insinuação nada. É a pura verdade. Ainda acontece hoje. De vez em quando aparece aí uma pessoa que lhe dá cabo da paciência, que mexe e remexe em tudo, que abre as gavetas, desarruma, rasga papeis, pinta a manta e Ele berra com ela, diz-lhe para não mexer em nada, mas a zaragata acaba sempre com ela sentada nos joelhos dele e ficam a brincar aí nessa maquineta. E eu a aguentar com ambos.

J: - Ah! Então quer dizer…

C: - Já disse tudo.

J: - Ele alguma vez a maltratou?

C: - A mim? Nem pensar. Olhe como estou estimadinha, sem uma esfoladela, com o estofo intacto, cores inalteradas, limpinha…é só aquele problema ali atrás no espaldar. Agora a secretária, às vezes leva cada murro, coitadinha dela. Mas não é por mal. São coisas que não correm bem, a menina sabe disso. E depois é cada palavrão…mas isso é só quando está sozinho aqui comigo. Já estou habituada, até já sei alguns…

J: - E quando acha que Ele a vai mandar embora?

C: - Isso não sei. Nem Ele sabe. Tem assim aqueles modos meio brutos, mas depois vai-lhe passando, vai-se esquecendo, outras coisas o vão entretendo e até pode ser que passe. Eu creio que se Ele me pusesse umas gotinhas de óleo, pelos menos a minha chiadeira ia passar. Talvez Ele um dia se lembre…

J: - Gosta então muito d'Ele?

C: - Muito. A menina sabe lá as atenções que Ele tem para comigo…Brevemente, quando começar o frio, ele quando se vai embora põe-me sempre um casaco de malha aqui no espaldar para me agasalhar. É mesmo um amor. Que coisa melhor podia desejar uma Cadeira?

J: - Muito bem. Gostei muito de lhe fazer esta entrevista e só espero que Ele a continue a tratar bem…

C: - Também eu menina. Desculpe não a acompanhar até à porta, mas esta dor aqui nas cruzes e as rodinhas já não me deixam mover como dantes. Muitas felicidades para a menina, vá com cuidadinho e atenção a esses malandrecos que andam aí pelas ruas. Eu aqui ouço cada história….

 

 

 

publicado por Carapaucarapau às 14:02
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12 comentários:
De Red shoes a 23 de Outubro de 2009 às 16:12
Pensava eu que a cadeira se ia queixar ao sindicato e nada. Já não há mulheres como antigamente! Agora a cadeira é só meiguices com Ele. Isto cheira-me a graxa, será que a Cadeira não se está preparando para qualquer coisa? Quem sabe queira uma reforma antecipada com direito às regalias que auferia em alturas em que era a única onde ele se sentava. Quiçá!


De Carapaucarapau a 24 de Outubro de 2009 às 12:54
O que é que a pobre Cadeira havia de fazer? Queixar-se ao Sindicato numa altura em que dirigentes e delegadas sindicais vão para ministras?
Estava feita! Assim, com um processo de despedimento por justa causa a caminho, fez-se sábia/sabida e passou-me a mão pelo lombo, sendo certo que eu é que esfrego o meu lombo nela. Também me cheira a graxa, ou então é aquele modo feminino de tratar situações dificeis...
Marias das Fontes já não são como dantes e nisto a Cantinho bem o pode confirmar, já que quase todos os dias está com a original.
A verdade é que para já estou a reflectir sobre o futuro dela comigo...


De Maria Araújo a 24 de Outubro de 2009 às 15:19
ehehehehehehehehehehehehehe!
E quantas Marias me aparecem pela frente...Algumas ainda crianças mas f******!
Bj


De Maria Araújo a 24 de Outubro de 2009 às 01:09
Adoreiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
Fizeste com que as minhas rugas se rissem , os meus olhos brilhassem e a minha boca soltasse uns "eheheheheheheehhehe!".
Com que então «De vez em quando aparece aí uma pessoa que lhe dá cabo da paciência, que mexe e remexe em tudo, que abre as gavetas, desarruma, rasga papeis, pinta a manta e Ele berra com ela, diz-lhe para não mexer em nada, mas a zaragata acaba sempre com ela sentada nos joelhos dele e ficam a brincar aí nessa maquineta. E eu a aguentar com ambos.»!!!!!!!
Ai,ai,ai,ai...o que a pobre da cadeira aguenta.
Mas és um amor. Nestes dias de frio agasalha-a com o teu casaco de malha...Que ternura que tu és!
Homens como tu que se sentam na cadeira e brincam com a maquineta e no frio agasalham a dita cuja cadeira, NÃO EXISTEM!

Beijinho e deixa o espaldar espreitar aquilo que escreves.




De Carapaucarapau a 24 de Outubro de 2009 às 13:01
Já sabes. Quando tiveres frio diz, que se arranja ainda outro casaquinho de malha, mesmo que já coçado nos cotovelos. Nunca gostei de ver gente com frio :-)
Quanto àquela história de alguém sentada nos joelhos...tu tens fontes de informação previligiada.
;-)
Bjo.


De Maria Araújo a 24 de Outubro de 2009 às 15:21
Sou mesmo uma previligiada!
Beijinho


De Red shoes a 24 de Outubro de 2009 às 15:48
Parece ser óbvio para todos que é a pessoinha k se senta no colo e remexe tudo. Cá em casa também há disso.


De Maria Araújo a 24 de Outubro de 2009 às 19:33
Cá em casa tb há disso.
Mas já faz peso e , por vezes, tenho de afastar. Então sentámo-nos lado a lado na mesma cadeira.


De Rafeira a 25 de Outubro de 2009 às 16:27
Oportunista é o que o raio da Cadeira é ... o que ela faz por um forro e umas rodinhas novas, para não falar de mais uns aninhos ao serviço, sempre engrossa a reforma. Não tarda, aposto, antes do casaquinho de malha para a aconchegar, vai-lhe ser servido um chá quentinho com umas bolachinhas de chocolate.


De Carapaucarapau a 26 de Outubro de 2009 às 14:58
Hoje, na sequência dum raio X que lhe foi feito, foi submetida a uma intervenção cirúrgica em regime ambulatório, já retomou o serviço, perdeu só 1 hora,que no entanto não lhe vai ser descontada no ordenado.
Creio que lhe servirá de lição para não dar mais entrevistas. Chá quentinho e bolachinhas de chocolate sim, mas só cá para mim, e só quando me doi a garganta (de tanto gritar com ela).
Para todos os que se interessaram pela Cadeira, informo que está aqui para lavar (quando estiver suja) e durar. Mas sente-se bem e pede-me para agradecer às pessoas que se interessaram por ela.

(Aproveito para num àparte dizer que já acabou o periodo de reflexão. Agora é mãos à obra! OK?)


De Maria Araújo a 26 de Outubro de 2009 às 23:17
Fico satisfeita com a recuperação da Cadeira.
Senta-te nela confortavelmente. Ela dar-te-á inspiração.


De Sapatinhos a 27 de Outubro de 2009 às 00:06
Pois diz à cadeira que lhe desejo uma rápida convalescença. Quando a cadeirinha estiver perfeitamente curada, senta-te nela e dá ao dedo. Não querendo insistir (mentem com quantos dentes têm - colados ou não) já escrevias qualquer coisinha, não?


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