Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Gente (I)

 

 

Depois de quase um mês em que o blog esteve a retemperar forças, cá estou de volta, pronto para mais uns posts.

Um encontro “quase” casual deu-me a ideia para aqui lembrar meia dúzia de pessoas que fui conhecendo ao longo da vida, contando um ou outro episódio das suas vidas. Portanto, de vez em quando aqui aparecerão, umas “estórias” de que eu tive conhecimento directo.

Terão o titulo geral de GENTE e o subtítulo será o nome da personagem e/ou do episódio contado.

Hoje e para começar será:

 

Tomás

 

Quando o conheci já ele ia a caminho dos sessenta.

Alentejano de cepa, há vários anos que vivia fora do seu Alentejo.

Era calmo, reservado mas bem disposto. Sempre pronto a ajudar no que fosse preciso. Era um pouco surdo e falava pausadamente e baixinho.

Levava uma vida pacata, do trabalho para casa e de casa para o trabalho, com a inevitável passagem pelo quintal onde cultivava as couves, as batatas e as ervas do seu Alentejo: os coentros, os orégãos, o poejo. Para além dos universais hortelã e salsa.

Um dia chegou até mim a notícia de que na véspera o Tomás tinha sido atropelado quando regressava a casa. Transportado ao hospital da área, o seu estado era de tal modo grave que foi levado para Lisboa. Estava em coma profundo e assim se manteve muitas semanas. Uns tempos depois foi devolvido ao hospital de origem e como não havia evolução positiva no seu estado, foi “depositado” num hospital de retaguarda, qualquer coisa parecida com um armazém de doentes de quem já nada há a esperar.

Esteve aqui uns meses até que um dia o seu estado se agravou e acabou por fazer o circuito inverso, acabando novamente em Lisboa.

Dois ou três dias depois soube que tinha falecido.

A verdade porém é que uns dois meses depois já o Tomás estava a trabalhar e a fazer a sua vida normal. Casa, trabalho, salsa e coentros.

Foi ele que me contou o resto da história da sua “morte”.

Dado como morto no hospital foi transferido para a morgue, onde esteve umas horas depositado numa mesa com uma etiqueta pendurada do dedo grande do pé. Uma funcionária ao passar por ele verificou que um dos braços estava pendurado, o que não sucedia uns minutos antes. Agarrou nele para o colocar sobre o corpo e verificou que apresentava uma certa temperatura e que não tinha a rigidez de morte que naquela altura já deveria apresentar. Deu o alarme, chamou um médico e…enfim o Tomás estava vivo.

O nosso homem trabalhou até atingir a idade da reforma e a partir daí deixei praticamente de o ver. Depois o tempo não pára, os anos foram passando, a vida atirou-nos para longe e nunca mais soube dele.

Há dias passei pela terra onde ele vivia e por curiosidade resolvi parar e fui espreitar o quintal onde o Tomás fazia as suas culturas para ver se descobria alguma coisa. Descobri-o a ele que vinha a sair com uma alfaces e umas couves. Fiquei espantado. Tem agora oitenta e tal anos e “está na mesma”. Coloquei-me à frente dele e perguntei-lhe se sabia quem eu era.

- Então não havia de saber? – respondeu-me com os olhos a brilhar.

- E o senhor Tomás como está? – perguntei eu, dando-lhe um abraço.

- Olhe, cá vou andando. Como já morri uma 1ª vez, agora esta segunda está difícil – respondeu-me a sorrir.

 

publicado por Carapaucarapau às 12:32
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5 comentários:
De Maria Araújo a 3 de Julho de 2009 às 21:35
Por vezes chego a acreditar que temos um destino traçado.
Tenhámos ou não, gostei desta "estória".
Há quem diga que quem não vai há primeira é porque tem muito para viver.
Estou aqui para ler as tuas interessantes vivências.
Adorei.
Beijinho


De Enfermeiro a 8 de Julho de 2009 às 19:27
Excelente história... isto há cada uma....

Todos temos um dia...só esperamos que seja no momento certo...certo...daqui a muito tempo..


De Carapaucarapau a 8 de Julho de 2009 às 23:09
É mesmo isso que todos pretendemos.
Obrigado pela visita e pelo comentário.


De Tio a 8 de Julho de 2009 às 21:55
Excelente.
Está também em excelente forma!

Bom regresso.
Um abraço e os meus cumprimentos.



Vitor


De Carapaucarapau a 8 de Julho de 2009 às 23:10
Obrigado pela visita.
Um abraço.


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