Sexta-feira, 20 de Março de 2009

Rios...

 

Intróito

 

Este sábado (21/3) é o Dia Mundial da Poesia. Por esse motivo o post de hoje conta com a “colaboração” destes dois senhores. Um “colabora” com o poema e o outro com os dois retratos.

 

 

 

 

Fernando Pessoa                                                        Almada Negreiros

 

 

 

Foram amigos e enquanto o 1º mostrava a sua multifacetada poesia através dos heterónimos, o 2º desdobrava-se em múltiplas actividades: pintor, poeta, ensaísta, dramaturgo, romancista e polemista. Este pintou aquele num retrato que toda a gente conhece e auto-retratou-se várias vezes. Como curiosidade, o 2º morreu aos 77 anos de idade, em 1970, exactamente no mesmo quarto em que o 1º também se finara 35 anos antes. Se o 1º fosse vivo quando o 2º morreu, teria feito, na véspera, 82 anos.

Confuso? Foi esse o objectivo.

 

E agora vamos ao post propriamente dito…

 

 

O Tejo é mais belo…

(Fernando Pessoa/Alberto Caeiro)

 

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

 

O Tejo tem grandes navios

E navega nele ainda,

Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,

A memória das naus.

 

O Tejo desce de Espanha

E o Tejo entra no mar em Portugal.

Toda a gente sabe isso.

Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia

E para onde ele vai

E donde ele vem.

E por isso, porque pertence a menos gente,

É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

 

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.

Para além do Tejo há a América

E a fortuna daqueles que a encontram.

Ninguém nunca pensou no que há para além

Do rio da minha aldeia.

 

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.

Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

 

 

Lembro-me sempre desta poesia, quando visito o rio que “corre pela minha aldeia”.

Rio pequeno, rio que não chega directamente ao mar, pois é afluente dum outro, é hoje pouco mais que uma vala de esgoto a céu aberto. Nos Invernos chuvosos lá consegue levar alguma água e diluir um pouco o esgoto que transporta. Mas quando o vou visitar, ainda “vejo nele tudo o que lá não está”. No rio da minha aldeia nunca navegou nem um pequeno barco a remos; mas olho-o e ainda vejo “navegar nele a memória das naus”, que é como quem diz, a minha infância, a minha iniciação à pesca, as pescarias clandestinas, os banhos no açude, o “passar para a outra margem”, a aventura que era essa passagem, o pisar o lado proibido da vida. “Poucos sabem qual é o rio da minha aldeia”. “E por isso, porque pertence a menos gente”, é que para nós, os que o conhecemos quando jovens, ele é maior que o Tejo.

Gosto de rios. Visito-os com frequência e a alguns já os “vi nascer” algumas vezes. “Para além do rio da minha aldeia”, ficam os outros. Tenho uma relação especial e praticamente diária com o Tejo, o Douro encanta-me e quase posso dizer que não tem meandros que eu não conheça, ao Mondego, o conhecido “bazófias”, está ligada parte da minha juventude. Há anos tive um projecto de descer o Guadiana, mas não se concretizou por falta de companhia.

Ao contrário do que diz o poeta, quando estou ao pé do rio da minha aldeia, ele faz-me pensar em muitas coisas e também noutros rios.

Foi numa das últimas visitas que lhe fiz, que pensei neste post.

Duvido que um dia ele volte a ser o que já foi. Por muitas campanhas e projectos de reabilitação que lhe façam, pode melhorar, mas nunca mais será o mesmo. A água não sobe o rio, e a vida também não anda para trás. Acontece isso comigo, com o “rio que corre pela minha aldeia”…

 

Este post é publicado com um dia de antecedência em relação à data prevista, exactamente porque este fim-de-semana vou, uma vez mais, visitar o “rio que corre pela minha aldeia”.

publicado por Carapaucarapau às 00:52
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