Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

Dia de Reis

 

Traz! Triz! Truz! Ouvi eu baterem à porta da caverna, nitidamente em três línguas diferentes.

Fui ver. Eram três barbudos de “aspecto venerando”, desde que isto queira dizer mau aspecto.

- Que se passa santinhos? – Perguntei eu atirando o queixo para a frente.

- De santinhos temos pouco…em geral tratam-nos por reis - respondeu o mais escuro dos três.

- Reis fora do baralho, certamente. Com esse aspecto e sem séquitos não os estou a ver realezas – repliquei a piscar os olhos e a pensar no que me quereriam pedir estas três almas (de)penadas. E o outro perdeu-se pelo caminho?

- Não há outro. Sempre fomos nós três. Donde lhe veio essa ideia de sermos quatro?

- Dos baralhos. Só jogo com baralhos que tenham quatro reis.

- O senhor está a fazer uma grande confusão. Não somos reis desses – disse o de barbicha mais afilada – somos uns reis muito especiais.

- “Especiais”, quer dizer com ceptro, coroa e tudo o resto? Se assim é, a coisa deve andar mal lá pelos vossos reinos. Afinal a crise sempre é global… Mas afinal que pretendem Vossas Altezas?
- Auxilio. Simplesmente auxilio.

- Mas que tipo de auxilio Altezas? – Perguntei a entrar no jogo dos simpáticos velhotes. Uma sopinha?

- Não nos atreveríamos a pedir tanto mas se for bem quentinha ia-nos cair mesmo bem, pois está frio aqui para estes lados – disse o terceiro e que ainda não tinha falado, a olhar para os outros como que a pedir uma confirmação.

- É de feijão com hortaliça, Altezas…não sei se gostam...

- A sopa dada não lhe olhes a qualidade – respondeu o escurinho que parecia ser o filósofo de serviço.

- Então abanquem aí nessa mesa de pedra enquanto lhes trago os pratos e a sopa.

- Obrigado meu senhor – responderam os três mais afinadinhos que um coro bem ensaiado.

- Mas não é só de sopa que precisamos – acrescentou o terceiro, que assim falava pela segunda vez.

- Ai não? Querem também um prato de peixe e outro de carne? O melhor é pedirem tudo duma só vez. Lista de vinhos é que não tenho – respondi já meio azedo e arrependido de lhes ter oferecido a sopa.

- O senhor ainda não nos entendeu. A culpa é nossa, certamente. Julgamos que nos teria já reconhecido mas pelos vistos não. Deve ser da maneira como estamos vestidos.

- E deveria reconhecer? – Perguntei a olhá-los com mais atenção.

- Não é obrigatório reconhecer-nos mas temos a certeza que sabe quem somos - disse o terceiro, que era o de barbas brancas, e parecia agora ser o mais falador.

Enquanto fui buscar a sopa puxei pela memória para ver se me lembrava daquelas caras. De repente ouvi um clik! (nesta altura devem estar todos a pensar que me lembrei de quem eram eles, mas não foi o caso, como verão já a seguir). Olhei para ver donde vinha o barulho, logo de seguida tropecei e a terrina da sopa só por milagre não me caiu das mãos. Muita sorte tiveram os três da vida airada, em não ficarem sem a sopinha.

- Aqui está, bom proveito. Mas já agora e antes de começarem a comer tirem-me da minha ignorância. Quem são Vossas Altezas?

- Ora bem, vamos lá esclarecer tudo.

(“Convém – disse eu para os meus botões – isto é capaz de dar uma história da treta boa para pôr no blog e não convém que seja muito extensa”).

- Melchior, Baltazar e Gaspar dizem-lhe alguma coisa?

- Os Reis Magos! Não me digam…

- Já dissemos.

- Mas…e os camelos? E as prendas? E o vestuário digno dos reis? Estão a gozar comigo…

- Isso é uma longa história. Com certeza que o senhor sabe que lá pelas nossas bandas anda tudo à batatada. É míssil para cá míssil para lá, porrada de criar bicho. Fomos atingidos, ficamos neste estado, em verdadeira petição de miséria, os camelos morreram e as prendas destes meus dois amigos também desapareceram, só a minha que era ouro escapou, porque a trazia escondida por causa dos ladrões. Foi o que nos valeu para conseguirmos sair daquele inferno e chegar aqui.

- Verdade mesmo? Acho a história um bocado estranha… Ao menos têm documentos de identificação para poderem provar quem são? – Perguntei já sem saber como me ia ver livre deles.

- Nada meu senhor. Perdemos tudo. Depois da sopa o senhor vai-nos fazer o favor de indicar o caminho para nos dirigirmos às autoridades mais próximas, para resolvemos a situação e voltarmos para as nossas casas.

- Sendo assim, está bem. Agora comam a sopinha antes que arrefeça. Sopa de feijão com hortaliça e fria, não tem piada nenhuma – e voltei para dentro da caverna enquanto eles sorviam a sopa.

 

Agora estou aqui como o maluco no meio da ponte. Não sei se lhes levo mais qualquer coisa para comerem, se chamo a polícia para os entregar.

E logo hoje que é dia de Reis…

 

publicado por Carapaucarapau às 19:50
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