Sábado, 22 de Novembro de 2008

Vicios...

 

 

Era eu um miúdo quando tomei conhecimento da existência do senhor Silva, uma verdadeira figura pública naquela pequena cidade. Durante uns anos, raro era o dia em que não encontrava o senhor Silva, sempre em passo marcial, muito direito levando a sua inseparável pasta de cabedal. Nesses primeiros tempos eu não sabia quem era e o que fazia o senhor Silva, nem nunca tive curiosidade em o saber. Limitava-me a constatar a sua existência e a invejar-lhe o porte e a maneira de andar. Às vezes seguia-o a tentar imitá-lo. Foi só alguns anos mais tarde que tomei conhecimento sobre a história do nosso homem. Assim soube que fora militar de carreira, que tivera um acidente numas manobras e que em consequência disso passara à reserva. Algum tempo depois desta saída da tropa, passou a desenvolver essa outra actividade que o ocupava e lhe permitia ganhar mais uns trocos para juntar à magra pensão.

Não havia pedidos de certidões, registo de nascimento ou de óbito, requerimentos à Câmara, pedidos de vistorias, marcações de escrituras, pedidos de bilhete de identidade e mil outros assuntos, que duma maneira geral, não passassem pelas mãos do senhor Silva. Sobretudo as pessoas que se moviam com dificuldade nos meandros da burocracia dos organismos públicos ou aquelas que não tinham tempo a perder ou simplesmente não queriam tratar pessoalmente desses assuntos, era certo e sabido que quando precisavam de qualquer desses documentos, recorriam ao senhor Silva. Além de eficiente, dizia-se que não exagerava nas contas que apresentava.

Era fácil de encontrar. Quando não estava a tratar dos assuntos numa qualquer repartição, estava sentado a uma das três mesas do café Moreira, pouco mais que um pequeno quiosque no centro da cidade. Aí o procuravam os que precisavam dos seus serviços. Nos dias de mercado, em que vinha muita gente das aldeias em redor, o senhor Silva não saia mesmo da mesa do café, para melhor atender a clientela. Na sua pasta havia tudo o que era necessário, desde minutas de requerimentos, a folhas de papel selado, selos fiscais, impressos, caneta, tinta, mata-borrão. Nesses dias em geral não se deslocava a parte nenhuma para poder tomar conta dos pedidos.

Assim se passou a vida do senhor Silva durante anos e anos.

A roda do tempo girou sem parar, eu deixei a pequena cidade onde se movia o senhor Silva, lancei-me aos atânticos e índicos, descobri brasis e índias, andei por franças e araganças e raramente voltei a saber do que se passava na pequena cidade.

Um dia, muitos anos depois, precisei de tratar dum assunto numa das conservatórias naquela cidade. Cheguei, e antes de tratar do assunto que lá me levava, dei uma volta a ver as alterações que o tempo fizera na cidade. Tudo diferente. O pequeno café Moreira é agora um estabelecimento de razoável tamanho, situado no jardim, com uma esplanada enorme. Decidi sentar-me numa das mesas a tomar um café. Era uma hora morta, havia algumas poucas pessoas. Às tantas vi passar no jardim, um homem todo curvado agarrado a uma bengala e movendo-se com dificuldade. Na mão direita levava uma pasta de cabedal. Sobressaltei-me. Pressenti quem seria, apesar da profunda alteração provocada pela passagem dos anos. O homem alto, elegante e desempenado era agora um velho corcunda, gordo, movendo-se com dificuldade. Chamei um senhor que estava ali perto e que eu já tinha reconhecido como sendo o senhor Moreira, também ele muito modificado, e perguntei-lhe quem era aquela pessoa? Eu sabia qual ia ser a resposta mas precisava da confirmação.

- É o Silva, coitado. Arrasta-se por aí.

- Mas ainda presta os seus serviços?

- Isso não. Já ninguém recorre a ele. Agora são os solicitadores, os advogados, as agências, a Internet… Hoje a maior parte das pessoas já nem sabe o que ele fazia.

- Mas…e a pasta? Porque anda com ela?

- Nunca a largou meu caro senhor. É um vício. Sabe que até no funeral da mulher, aqui há uns anos, ele levava a pasta? Perguntaram-lhe para que era precisa e ele respondeu que tinha de tratar duma certidão de óbito e dum inventário. O diabo do homem… agarrou-se de tal maneira àquilo… - respondeu o senhor Moreira enquanto com um pano limpava o tampo de uma mesa que tinha ficado vaga.  

Eu sorri. Tinha reparado que o senhor Moreira já não estava ao activo, quem comandava o café era um filho e havia empregados. Ele estava ali por estar, mas mesmo assim não resistia a fazer certos gestos que fizera durante uma vida. “É um vicio, sabe senhor Moreira” pensei eu a lembrar-me do que ele disse a propósito da pasta do senhor Silva.

Foi então que uma ideia me atravessou o espírito. Paguei a conta, e apressando o passo fui no encalço do senhor Silva. Nunca tinha falado com ele, ia ter essa oportunidade. Ia pedir-lhe para me tratar do assunto que me levava àquela cidade: uma certidão. Ao fundo do jardim o senhor Silva estava sentado num banco. Aproximei-me e quando me preparava para o abordar reparei que o senhor Silva estava a falar sozinho. Percebi qualquer coisa como “ tens de te apressar Silva, o papel selado já não vai chegar, olha o bilhete de identidade da rapariga, amanhã é dia de mercado e ainda tens coisas para tratar, estas pernas é que não me deixam…” e mais umas tantas coisas, quase todas elas sem nexo. O senhor Silva vivia ainda noutro tempo.

Afastei-me e dirigi-me para a repartição onde ia tratar do meu assunto. Pelo caminho pensei na pasta do senhor Silva e no pano de limpar as mesas do senhor Moreira. E tentei descobrir qual seria o meu “vício”. Já o teria? Ainda estava para vir? Achei prudente ficar-me pelas interrogações…

 

Nota de o Carapau:

Oh meu amigo! Isso de vícios, taras, manias… todos temos, mesmo sem darmos conta. Repara por exemplo se esta fixação na minha prima e nas navalheiras não é uma tara? Claro que sim. E, pior ainda, esta de fazer o blog…

publicado por Carapaucarapau às 13:51
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2 comentários:
De Maria Araújo a 23 de Novembro de 2008 às 00:00
Olá.
Quero dizer-te que adorei esta história que tem uns "laivos" de verdade...
Á medida que os meus olhos percorriam as palavras, o meu pensamento foi, também, atrás no tempo...
Um primo do meu pai que, no Inverno vestia o seu sobretudo preto,sempre com o cigarro na boca, dedos amarelos e pasta preta na mão, tratava de todos os assuntos menores da empresa. Era um homem "castiço", por vezes resmungão, mas a sua figura, magra, quase esquelética, baixo, rosto fino com um bigodito sempre arranjado, marcado pelos anos, fazia rir as mulheres que com ele partilhavam as brincadeiras brejeiras, de fábrica.
Figura carismática lá na empresa, o senhor Guimarães, mais conhecido pelo João Fumador...
Faço a mesma pergunta que tu fazes "qual será o meu vício?" O tempo di-lo-á a seu tempo.
Beijinho




De Maria Araújo a 23 de Novembro de 2008 às 19:49
Olá.
Faz uma visita ao meu blog e "entra" no desafio.
Também quero conhecer o quais são.... Lê e verás.
Beijinho


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