Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2014

Uma noite de Natal diferente

Ia eu a caminho dos 9 anos, andava na 4ª classe, e o meu Pai pegou em mim e num outro irmão, com 2 anos menos e levou-nos de viagem. Era o último dia de aulas nas escolas primárias, antes das férias do Natal e foi o primeiro e único dia que faltei, não contando qualquer falta por doença.

Nesses tempos as estradas eram o que eram, classificadas entre “normais”, más e muito más e o carro “lá de casa” estava de acordo com essas estradas. A viagem era de uns 250 km, de Leiria para a Covilhã. Para mim que nunca deveria ter andado mais que uns 30 ou 40 km, ia ser uma aventura. E foi. O banco da frente era “corrido” e portanto íamos os 3 sentados nele. A estadia prevista na Covilhã era de uma semana, mais ou menos. Quando eu já deitava carro e estradas pelos olhos, cansado de estar ali “fechado”, quando poderia estar a jogar ao pião ou ao berlinde e julgando que deveríamos estar a chegar, diz o meu pai: “estamos mesmo a meio do caminho. Querem comer alguma coisa?”

Não me lembro se paramos ou não paramos, se comemos ou não comemos. Lembro-me, isso sim, que fiquei muito “desmoralizado”. Enfim, lá para o meio ou o fim da tarde chegamos ao destino e por lá andamos a tal semana prevista. Não faço a mínima ideia como passamos esses dias, mas o mais provável era que andássemos “por ali a rebolar” enquanto meu pai tratava dos assuntos que o tinham levado lá.

Um parêntesis para explicar a ida dos dois putos nessa viagem. A razão era simples. Como as férias do Natal começavam no dia seguinte, íamos ficar os três em casa (sim ainda havia um terceiro, que deveria ter nessa altura perto de 4 anos) sozinhos com a minha Mãe, pois o Pai tinha de fazer a tal viagem e parece que os três juntos era “insuportáveis”. E digo “parece” por ouvir dizer mais tarde, pois não incomodávamos ninguém e sabíamos resolver as nossas questões à pancada e sem clamar por auxílio.

Enfim, os dois mais velhos foram exilados durante uma semana (esta cena repetiu-se aliás durante uns anos, ainda que passasse a ir só um de cada vez. Chegava um período de férias e lá ia um pentear macacos para a Covilhã).

O dia do regresso foi na véspera do Natal, mas agora o carro tinha mais dois passageiros e nós os dois vínhamos no banco de trás, enrolados num cobertor (convém lembrar que era dezembro e o carro tinha arrefecimento natural (o frio que entrava pelas “frinchas”), mas aquecimento nem pensar nisso era bom. Aliás desejava-se que o motor nem aquecesse muito, não fosse gripar…

Devemos ter saído tarde da Covilhã e como anoitecia cedo a viagem deve ter sido quase toda feita já de noite. Lembro-me de ver, em quase todas as aldeias por onde passávamos, as enormes fogueiras que era costume fazer na noite de Natal e onde se reunia parte da população para passar a noite em convívio. Hoje ainda isso se faz mas em muitas poucas povoações (uma conheço eu, perto de mim, onde isso ainda acontece).

Enfim, deveriam ser umas 11 horas da noite, quando chegamos a casa. Ainda a tempo de comer uma ou duas filhós acabadas de fazer, pôr o sapato (em geral a bota porque era maior) na chaminé e ir dormir, pois no dia seguinte havia que levantar cedo para ver o que o Menino Jesus tinha deixado no sapatinho.

Para terminar: o Pai Natal não era ainda conhecido e a mim fazia-me impressão como é que o Menino Jesus, acabado de nascer, conseguia já andar de um lado para o outro e sobretudo descer pelo estreito tubo da chaminé do fogão. E pior ainda, ter depois de o subir.

Outra coisa que me intrigou uns tempos, era como é que ele sabia o que eu dizia à minha Mãe que gostava que Ele me desse pelo Natal.

Mas essas dúvidas já eu as não tinha aquando dessa minha 1ª viagem aventura que contei.

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.

É verdade lince amigo. Por essa altura ainda alguns dos teus avós andavam a fazer pela vida, lá pela Serra da Malcata.

Agora ontem fartei-me de rir, quando ouvi dizer que ias ser “restituído ao teu habitat natural”. Já te estou a ver, habituado a leitinho e pão de ló e ao ar condicionado, a teres de correr atrás de alguma láparo para tentares chegar pelo menos à passagem do ano. Vai ser lindo! Ri-me é certo, mas olha que tenho pena de ti. Sabes que aqui, durante mais algum tempo, vais ter poiso certo. Conta comigo.      

publicado por Carapaucarapau às 14:43
link do post | comentar | favorito
|
10 comentários:
De Mariazita a 18 de Dezembro de 2014 às 17:00
Esta tua “noite de Natal” fez-me recordar várias coisas.
Como refiro no meu post, à data que lá descrevo, vivíamos numa quinta.
Esta era rodeada por caminhos que nem sequer mereciam o nome de estradas. Para chegarmos à estrada (nacional?), não me recordo se em paralelepípedos se alcatrão… tínhamos que percorrer cerca de 3 a 4 quilómetros que, no Inverno, se transformavam em lamaçal, e no Verão formava buracos do tamanho de crateras.
As raras vezes que o automóvel fazia este percurso, tinha qua andar a passo de lesma, ziguezagueando, procurando algum sítio mais ou menos estável. Por isso, para ir à vila próxima, usava-se o “carrinho do cavalo”, uma charrete puxada pelo cavalo que existia na quinta. Lembro-me que uma vez ela tombou de lado, atirando-nos ao chão. E ao pobre do cavalo também.
Outra coisa que me fizeste lembrar foi a Covilhã.
Com mais meia dúzia de anos em cima passava sempre 15 dias, no Verão, nessa cidade, e também alguns dias no Inverno. No meu blog publiquei algumas fotos tiradas lá com a neve a cair. Eu gostava muito de lá estar, fosse no Verão, fosse no Inverno…
Não quero roubar-te mais tempo. Quando começo a falar do passado… nunca mais me calo.
E os afazeres esperam-me (e são tantos!)
Quer gostes ou não do Natal… desejo que o passes com saúde, em boa companhia, e em PAZ.
Beijinhos
Mariazita (http://acasadamariazita.blogspot.com/)


De Carapau a 19 de Dezembro de 2014 às 13:46
Na vida de cada pessoa (sobretudo das que têm cabelos brancos, ou doutra cor porque os pintam) há sempre uma ou outra "história" ligada ao Natal. Depois, para quem viveu a infância e parte da adolescência numa aldeia, certos episódios ganham outro colorido. Havia pequenos acontecimentos, a que hoje ninguém dá importância nem valor, que ficaram gravados na nossa memória.
Mas tudo isso já são histórias do tempo do arroz de quinze e esse arroz "já lá vai".
Bom Natal para ti e vai trabaalhar, pois segundo dizes "tens muito que fazer". :))
Bjo.


De Labirinto de Emoções a 19 de Dezembro de 2014 às 18:59
Histórias de Natal, quem não as tem para contar..:-))) creio que se as começasse a contar davam um livro!

Com que então o menino era um ";pestinha"! Continua ou já melhorou???

Se continua peste... nem umas botas da tropa na chaminé o safam... que o Pai Natal mete pilhas nas renas e nem olha para a tua chaminé..:-)))

O Lince lá foi para a serra, mas ceio que o vão continuar a chatear para fazer umas correcções ... Lince sofre!!!

Um beijinho grande e FELIZ NATAL


De Carapau a 21 de Dezembro de 2014 às 15:09
Pestinha nunca fui. Já PESTE, assim em grande, tipo peste bubónica...também nunca fui. :)
A sério que fiquei com pena do lince quando há dias ouvi que ia ser "lançado" aos bichos.
Não lhe queria estar na pele. Não chega ao reveillon. :)
Feliz Natal!
Bjo.


De Maria Araújo a 19 de Dezembro de 2014 às 21:31
Gosto de ler as tuas histórias cheias de coisas boas de tempos idos.
O que me lembro de criança era escrevermos cartas ao Menino Jesus (a minha irmã mais velha escrevia: para o Menino Jesus, Céu) e metíamos no marco do correio, vermelho e redondo, lá perto de casa, de pôr o sapato no fogão, não dormia sossegada (uma vez sonhei com o Menino Jesus e que estava aos pés da minha cama, de pé e vestido de branco). Nunca mais esqueci e dizia que o tinha visto.
As prendas eram sempre as mesmas: meias e roupa.
Não me recordo de ter bonecas.
Por isso, era a Maria rapaz.
Beijinho


De Carapau a 21 de Dezembro de 2014 às 15:15
A minha relação com o Menino Jesus foi (durante uns 3 anos) doutro tipo e metia o Padre Mário pelo meio. Mas isso não dá para ser contado aqui, a história é longa, e era melhor de ver que de ler.
Quanto às prendas no sapato, também passei um longo periodo "das peúgas" que eu não considerava prendas.
Enfim...outros tempos!
Feliz Natal!
Bjo.


De maria teresa a 20 de Dezembro de 2014 às 12:50
Como alguns dos mortais, porque infelizmente não são todos, tenho belas imagens dos Natais da minha infância, infância de menina bem comportada*, nascida numa família com raízes em Lisboa há séculos.
Do que me recordo mais, para além de colocar o sapatinho na parte de baixo da pedra da chaminé, uma chaminé de casa muito antiga com um fogão a carvão, com um vão por baixo, são os odores doces da comida e os enfeites de Natal.
No salão imperava ao meio um enorme pinheiro, todos os anos diferente, que não faço ideia de onde vinha, nas bandeiras das portas das divisões comuns eram presas grinaldas de verdura com bolas vermelhas e prateadas, estas tinham que ser manuseadas com muito cuidado caso contrário estilhaçavam-se.
Coitado de peru, era embebedado com aguardente e depois de lhe cortarem o pescoço ainda conseguia cambalear, esta era a cena mais macabra desta época. Nesse tempo a ceia e o almoço de Natal era toda confecionada em casa, na enorme cozinha. Todos dávamos uma (des)ajudinha, os meus primos, o meu irmão e eu, rapávamos as tigelas onde os bolos tinham sido batidos, as nossas mãos serviam de molde para se cortarem as filhoses estendidas que depois de fritas e polvilhadas com açúcar e canela me faziam salivar, por vezes havia brigas, porque um tinha rapado mais do que o outro, porque aquela filhós não era a sua mão era a do outro, sim...porque cada um de nós queria comer o próprio molde.
A mesa da sala de jantar mantinha-se posta até ao primeiro dia do novo ano (iam-se consumindo alguns acepipes e trocando outros **)
E mais nada escrevo porque tal como todos teriam imenso que contar …
* A partir da adolescência que também foi serena, tomei posse do meu nariz e passei a fazer umas pequenas patifarias, nada sujeito a ser punível com inquéritos preliminares, nem prisões preventivas …
** este entre ( ) é especialmente dedicado ao Carapau, para evitar que ele faça graçolas sobre uma mesa “estar posta” tanto tempo, eu no lugar dele faria :)
Deixo-te um abraço com os braços enfeitados com bolas de vidro vermelhas e prateadas por isso encolhe as escamas, não se vão elas quebrar.


De Carapau a 21 de Dezembro de 2014 às 15:28
Alguns pontos de contacto entre as "histórias" natalícias.
Um deles é dos doces/fritos de Natal. Também fazia os possíveis para deixar a "minha marca" em uma ou outra filhós e nos coscurões, (O mesmo acontecia com os meus irmãos) mas em geral éramos "sacudidos" da cozinha.
E claro que também havia lutas para ver quem rapava "os tachos" dos doces, mas isso estendia-se a todo o ano (quando havia doces, é claro).
Agora uma coisa me intrigou muito no comentário.
Aquele () que me foi dedicado.
Por acaso tenho uma história ligada à mesa de Natal que fica "armada" até ao ano novo, mas, tanto quanto me lembro, nunca a contei aqui.
Aliás a história até é pouco natalícia...(pensando melhor...é de todos os dias do ano hehehe)
Será que a minha memória já não é o que era e um dia a contei aqui?
Sempre gostava de saber... :)
Feliz Natal, com filhoses, rabanadas e todos os fritos que fazem mal. :)
Bjo.


De GL a 24 de Dezembro de 2014 às 01:14
Mas que grande passeata, ou melhor, que bela aventura.
Belas recordações que nos ficam dessa fase da vida.
O menino Jesus já era um mistério, mas o gorducho Pai Natal conseguir caber na minha chaminé era incomparavelmente mais difícil de perceber.
Ora bem, vou contar - sim, não pense que é só o mister que tem histórias! - uma triste aventura que sucedeu era aqui a "je" bem pequena.
Numa dia de Natal fui com os meus pais a casa de uns familiares. Na altura da entrega das prendas vejo o pai natal lá do sítio dirigir-se a mim com uma caixa de tamanho muito simprático. Sento-me no chão, às voltas com o embrulho que parecia colado com grades, até que: milagre, o embrulho aberto e, lá dentro, uma linda boneca. Tirada a dita de dentada caixa, o espanto: a minha boneca mantinha-se em pé sozinha. Como? As pernas não se dobravam, a boneca eraconstituída por uma peça única, com excepção dos braços. Estava eu fascinada com aquele "milagre" quando o cão lá de casa (provavelmente tão fascinado com eu) vê a minha linda boneca, dá uma corrida atira-se a ela e, obviamente, atirou-a ao chão. Resultado, a cabeça partiu-se, a minha boneca estava estragada.
Há coisas que traumatizam uma alminhas. Guardei-a durante anos sem ter coragem de a deitar fora.
Não sei porquê mas quer-me parecer que foi a partir deste grave acidente que a minha simpatia pelos primos do agressor diminuiu de forma significativa.
E pronto mister, aqui tem a história desventuras desta "co"qualquer coisa.

Corra, as rabanadas estão a queimar-se!
Aí se não fosse eu!:))

Feliz Natal. E faça o favor de não pôr a bota da tropa na chaminé.
Abraço. Enfim, sempre é Natal!


De GL a 24 de Dezembro de 2014 às 01:18
Aqui tem a história e cheia de erros. Queira o mister ter a gentileza de desculpar. :(


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Dezembro 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30


.posts recentes

. Aleluia!

. Dignidade

. Balanço

. Outros Natais...

. A dúvida

. Promessas...

. Pulítica

. O não post...

. Quem sai aos seus ...

. Férias/Feiras

.arquivos

. Dezembro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

.Contador de visitas

Criar pagina
Criar pagina
blogs SAPO

.subscrever feeds