Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2015

Outros Natais...

Ontem sentou-se á minha frente, num centro comercial, um sujeito que vinha carregado com sacos de compras. Tratava-se de livros, a que ele tirava os autocolantes com os respetivos preços, depois metia-lhes dentro um papel que serviria para a eventual troca e finalmente metia cada livro na sua saqueta. Eram, evidentemente, prendas de Natal.

Sorri, para dentro, por dois motivos: primeiro, porque uns dias antes eu tinha feito o mesmo e segundo, porque eu não tinha feito tantas verificações quantas ele fez. Depois de meter cada livro na respetiva saqueta, ele voltava a abri-las umas tres vezes, para verificar se estava tudo em ordem.

Comprar livros para eu ler não é nada complicado. Ou já entro a saber o que quero ou, uma vez por outra, quando dou uma mirada pelos escaparates lá haverá um ou outro que acabo por comprar.

Outra música é comprar livros para oferecer, muito especialmente no Natal.

Como só ofereço a familiares, com quem estou portanto muito à vontade, sigo um critério: só compro livros “baratinhos”, em saldo ou “ao quilo” e daqueles que as pessoas ganham tanto em lê-los como em não os ler. Em geral são livros leves, quanto ao peso, quanto ao preço e quanto ao conteúdo. Os beneficiários, aliás, já sabem as regras do jogo.

Já sei que em troca irei receber, no máximo, uns dois (eu ofereço uma dúzia) e um deverá ser do ou sobre o Fernando Pessoa e o outro sobre uma qualquer história ou curiosidade da Matemática.

Quer dizer, cumprem-se os rituais, gasta-se algum dinheiro para fazer funcionar o mercado e não se acrescenta nada de novo.

É neste ponto que a minha memória dá um salto muito grande lá para trás e relembro 2 ou 3 livros que recebi, em recuados Natais. Todos dum senhor que se chamou Emilio Salgari e que foi dos escritores de aventuras que mais livros “viu” publicados nos quatro cantos do mundo. Diz a história que foi também aquele que menos dinheiro viu das centenas de edições que se fizeram. Viveu sempre com dificuldades económicas.

Hoje seria um escritor “politicamente “ incorreto e inconveniente pois matava animais e pessoas à velocidade da luz, nas aventuras em que metia os seus herois.

Pretos, brancos, amarelos e Peles Vermelhas tombavam ao mesmo ritmo que caiam leões, tigres, leopardos, elefantes, etc. Bastava que complicassem a vida ao heroi da aventura.

Só um exemplo: para petiscar um pedaço da ponta da tromba de elefante, não tinha problema de, durante um luivro matar 3 ou 4 animais, para lhes tirar esse pedaço que, depois de assado na cinza duma fogueira, constituia um petisco de “haute cuisine”, como se diria hoje.

Eu lia os livros dele, devagar, 3 ou 4 páginas de cada vez só, para “fazer render o peixe”, ou seja para prolongar o prazer que isso me dava.

Depois, reunia um grupo de 3 ou 4 putos um pouco mais novos que eu (naquela altura chamavam-se rapazinhos, a “putice” ainda não tinha sido inventada) e contava-lhes tintim por tintim todas as peripécias da aventura.

E não era preciso mantê-los em silêncio e atentos, pois eles encarregavam-se de assim se manterem, comendo palavra a palavra a “minha” história e vibrando com ela, tanto como eu tinha vibrado ao lê-la.

Mas isto tudo se passou em “outros Natais”…

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.

E tu, Lince amigo, por onde andas? Há bastante tempo que não tenho notícias tuas. Sorte a tua foi não teres vivido na época do ti’Emilio Salgari, senão… 

 

VOTOS DE FELIZ NATAL A QUANTOS POR AQUI PASSARAM DURANTE ESTE ANO.     

publicado por Carapaucarapau às 00:09
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7 comentários:
De GL a 23 de Dezembro de 2015 às 19:14
Com que então só se compra livros ao quilo? Só visto, contado ninguém acredita! Ou por outra, acredita que o Sr. Carapau - se é de corrida não sei! - é muito poupadinho, olá se é!
Tudo isto é perdoado porque o lado bom do referido Sr. vem ao de cima, flutua qual folha que cai no lago: ler aos rapazinhos só lhe fica bem.
Ora continue com essas acções beneméritas, sim?:)

Cuidado com o cabrito, mais a batata a murro, mais o arroz doce, mais...
Chega, que ainda lhe dá uma congestão.

Bom Natal, bom 2016.
Abraço. :)


De Carapau a 24 de Dezembro de 2015 às 00:02
O "tal" senhor não lia a história aos rapazinhos. Contava a sua versão (que coincidia com a do autor) de viva voz.
Ora bem, como ele vai ser muito regrado durante o período das festas, não tenho dúvidas que ele continuará a flutuar no lago, como a última folha caída.

Ele pede-me para retribuir os votos de Bom Natal.
Abraço.


De Maria Araújo a 28 de Dezembro de 2015 às 22:18
Emílio Salgari, até hoje, que te li, estava esquecido nesta memória.
Não foram muitos os livros que li dele, mas a vi a série Sandokan, que passava na TV.
Gostei de ler a tua história.
Peço desculpa não ter desejado um Natal Feliz, mas andei ocupada, entendes?
Mas desejo-te um excelente final de 2015. 2016, logo se vê.
Um beijinho


De Carapau a 31 de Dezembro de 2015 às 12:46
Tanto quanto me lembro da série "Sandokan - O Tigre da Malásia li uns 5 livros, se bem que a série tenha 11 aventuras (Google dixit). E, se também não estou em erro, foram dos últimos livros que ele escreveu (pelo menos foram dos últimos a serem publicados em Portugal). Claro que são os mais conhecidos por causa da série televisiva.

Um bom ano novo com muita saúde e muita ginástica. :))
Bjo.


De Labirinto de Emoções a 30 de Dezembro de 2015 às 13:13
Olá...
Nunca fui muito fã do Emili Salgari, talvez porque não me ofereciam para os ler, mas o Clube dos 5 e dos 7 não falhava um..:-))) muidos a descobrirem segredos e armados em detectives, imaginava-me um deles.
Espero que tenhas tido um Bom Natal.
Que 2016 te traga o que de melhor houver para ti.
Um beijinho e Feliz Ano Novo


De Carapau a 31 de Dezembro de 2015 às 12:52
O Natal já foi "aviado" o novo ano começa já amanhã e o Emilio Salgari já desapareceu há muito tempo (vai fazer 105 anos que "se foi") o que quer dizer que quando eu o li o homem já não existia (o que só soube agora graças ao Dr. Google). :)
Um bom 2016 com muita saúde são os meus votos.
Bjo.


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