Quinta-feira, 8 de Maio de 2014

O grito

                             

                                  "O grito" de Edvard Munch

 

Numa das minhas últimas passagens pelo recinto onde se faz a Feira da Ladra, resolvi meter-me por umas ruelas que há nas imediações e dar uma vista de olhos por um sítio onde há anos presenciei uma cena que nunca mais esqueci.

Por essa altura funcionava num dos prédios que rodeia o recinto da Feira uma Repartição Pública ligada aos serviços do Exército. Eu tinha de ir lá consultar uns documentos para a empresa onde trabalhava poder concorrer a uns trabalhos. Como na altura eu não sabia onde ficavam tais instalações, foi comigo um velho conhecedor da cidade de Lisboa, alfacinha de gema, a rondar os cinquenta e muitos anos de idade, boémio desde muito novo, jogador inveterado, namoradeiro consumado, exímio contador de anedotas e mais umas outras tantas coisas, para além de ser uma ótima pessoa.

Fomos no carro dele e como a entrada para o tal edifício era feita pelas traseiras, ele meteu o carro numa dessas ruelas e aí o estacionou. Saímos do carro, tínhamos uns 30 ou 40 metros para andar a pé e foi então que tudo aconteceu.

Tínhamos dado meia dúzia de passos, quando, de uma janela dum r/chão, uma senhora já “bem cinquentona” soltou um grito: “Octávioooooooooo!!!”. E logo de seguida voltando-se para o interior da casa, outro grito: “Mãeeee! Sabe quem está aqui? O Octáviooooo!!!”.

Octávio era a pessoa que ia comigo e que a, estes gritos, parou em frente à janela. Eu fiquei 2 ou 3 metros retirado, a apreciar a cena. Apareceu então à janela uma outra senhora já de bastante idade e cega (era a mãe por quem a filha tinha chamado). Deu-se uma rápida troca de cumprimentos entre os três, entretanto a velha senhora retirou-se e quando ficaram só os dois, a “senhora do grito” retirou do pescoço um fio donde pendia uma pequena caixa em forma de coração, abriu-a, voltou-a para o Octávio e perguntou: “lembras-te?”.

Era uma foto dele, quando tinha à volta de vinte anos.

Logo de seguida despediram-se e eu e ele lá fomos ao trabalho.

Contou-me então que tinha sido uma antiga namorada dos seus anos de jovem, que aquele sítio era conhecido pelas “Travessas” e que ninguém doutro Bairro lá podia entrar para namorar as moças, sem autorização da “malta” do Bairro. Autorização que ele tinha, obviamente e, pelos predicados que eu lhe conhecia, difícil era não ter essa e “outras” autorizações.

Disse-me que já não a via desde esses tempos e que, se ela não lhe tivesse gritado o nome, nem a teria reconhecido.

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 17:11
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10 comentários:
De Mariazita a 9 de Maio de 2014 às 10:44
Bom dia, PM
Na minha passagem por Oslo fui (penso que é obrigatória para quem por lá passa…) ao Museu Munch, para (penso que é também obrigatório…) ver o célebre quadro “O grito”.
Depois de nem sei quanto tempo em fila de espera, pudemos apreciar, finalmente, essa obra famosa que, só não vou dizer que foi uma decepção para não ferir susceptibilidades 
Não sei se o conhece… mas é um quadro de pequenas dimensões (80 a 90 centímetros…) que a mim, perfeitamente leiga em questões de pintura, não me disse nada – apesar de gritar.
Muito mais me impressionaria, sem dúvida, o grito da ex namorada do Octávio, “extravasado” nessa zona de Lisboa que tão bem conheço, onde fui inúmeras vezes (como o meu marido era militar íamos com frequência ao Casão Militar).
O que mais impressiona nesta sua deliciosa descrição é a verificação da fidelidade, quase canina, da namorada que, por mais de 30 anos, conservou ao pescoço, dentro dum pequeno coração, a foto do seu amado.
Não sabemos, porque o relato não o adianta – provavelmente o autor desconhece e o próprio Octávio também – se houve ou não outros amores depois desse… mas esse pequeno pormenor não nos impede de concluir: “Não há amor como o primeiro”.
Isto de “primeiro amor” é pura dedução minha já que, se o Octávio teria uns vinte anos, a mocinha teria, provavelmente, menos.
Quero só acrescentar, a este já longo “relambório”, que isso do “não há amor como o primeiro” se aplica principalmente (para não dizer exclusivamente…) à mulher – ela reconheceu-o passados mais de 30 anos, e ele não a teria reconhecido, de todo, não fora o “estridente” grito”!
Bom fim-de-semana
Beijinhos
PS – O meu corrector ortográfico considera erro “pequeno pormenor”. Entendo – se é pormenor é porque é pequeno. Tenho uma amiga que classificaria isto como “ligeiro pleonasmo”; eu prefiro chamar-lhe apenas “ênfase”.


De Carapau a 11 de Maio de 2014 às 14:02
O grito da Senhora da "Travessa" eu ouvi "claramente ouvido e não creio que o ouvido me tenha enganado". Agora o Grito do Munch eu nunca vi "claramente visto" pela simples razão de que nunca fui a Oslo.
Mas sobre este "Grito" há muitas e variadas opiniões. Aliás o Munch pintou pelo menos 4 “Gritos” o que é quase uma gritaria. Alguns destes gritos foram roubados e recuperados. De qualquer maneira um grito é sempre uma forma de chamar a atenção…
E agora vou gritar para outra freguesia. :))
Voltando à "Travessa" eu não sei mais nada sobre a vida da senhora. É muito provável que depois do Octávio outros se lhe tivessem "atravessado" no caminho, mas isto é só uma suposição minha, a partir do que conheço da alma humana...
E quem diz alma diz outras coisas.
Também acho bem ficarmo-nos pelo "não há amor como o primeiro", mesmo quando o luar já não é de janeiro...
Bom resto de domingo.
Bjo.


De Mariazita a 9 de Maio de 2014 às 10:50
ADENDA
Já pareço a minha amiga do "ligeiro pleonasmo"... mas quero rectificar:
Na primeira frase leia "obrigatório" em vez de "obrigatória".

"Obrigatoriamente" obrigada! :)))


De Labirinto de Emoções a 11 de Maio de 2014 às 18:40
Certamente quando a senhora da travessa deu o "grito" não ficou com este ar, senão o Octávio em vez de voltar para tras...tinha fugido a 7 pés..:-)))
Não falo da pintura,(embora não goste dela) porque da arte não percebo, pinto a manta quando posso e quando o vento sopra de feição...e já me dou por satisfeita..:-)))
Mas achei uma ternura a senhora da travessa andar com o Octávio ao peito trinta e tal anos depois, e te-lo reconhecido de imediato... há pessoas que passam pela nossa vida e ficam gravadas a ouro, foi o caso do Octávio. Certamente mais terão passado, ou não... mas ele passou e marcou a diferença..:-))
E agora vou "gritar" para outra freguesia, que tenho uns quantos "beijos" preparados no forno para saírem ali na minha Casa...:-))
Para ti vão também uns tantos, mas sem gritaria, que eu não gosto nada de dar nas vistas..:-)))******


De Carapau a 12 de Maio de 2014 às 17:36
Este episódio verdadeiro e a que assisti associo-o a um outro quando eu andava a tirar a carta de condução. A "volta" de cada lição era sempre a mesma e obrigatoriamente passava por 2 ou 3 ruas onde o instrutor tinha namoradas. Curiosamente (ou nem por isso) eram ruas sem movimento, ele saia do carro, dizia-me "faça marcha a trás até acolá" e enquanto eu fazia a manobra ele enviava sinais de fumo, às senhoras (uma em cada rua, é claro).
Quero eu dizer que em outras Travessas deveria haver outras Senhoras...Só que gritos... só ouvi de uma. :))
Isso de "beijos no forno" são daqueles que se comem e que servem para enfeitar alguns bolos?.
Bjo. (fora do forno).


De Labirinto de Emoções a 12 de Maio de 2014 às 20:18
Eu que já sou quase jurássica, nunca tive um namorado que em tempos idos me tivesse feito sinais de fumo..:-))) verdade se diga, que também nunca morei numa travessa..:-)) o que eu perdi quando era nova...
Quanto aos "beijos no formo" fazem parte de um menu especial...
Já os beijos romeiros...hummm... agradam-me e de que maneira, adoro romarias... e os "espalhadinhos" então, o devem fazem umas cocegas ...ai..ai..ai......
Deixo-te imensos beijos (sem serem resumidos...) é só ires ao "menu beijioqueiro" e escolheres..:-)))))))


De GL a 11 de Maio de 2014 às 19:42
Pronto, era inevitável! Lá me vais fazer dizer coisas que, são tudo, menos politicamente correctas.

Esse teu amigo devia reunir um conjunto de qualidades dignas de nota, a começar por esse lado boémio. Depois não devia ser feio de todo, ou a senhora do grito não o recordaria ao fim de tantos anos nem guardaria a fotografia com tanto carinho. Já agora, como é que ele reagiu ao facto de aquela mulher ter guardado a fotografia durante tantos anos?! Ficou envaidecido? Enternecido? Surpreso?
E o menino Carapau, que reacção teve: inveja?

A mulher do séc. XXI, será capaz de amar assim? Não creio. A evolução/emancipação da mulher coartou-lhe essa capacidade de amar.

Ainda há boémios? Boémios na verdadeira acepção da palavra? Achas?
E por aqui me fico.

Abraço grande (barbatanas fechadas).


De Carapau a 12 de Maio de 2014 às 17:52
Respondendo às questões ("politicamente incorrectas") postas:
1- Digamos que era um homem que agradava às mulheres, sempre brincalhão, bem disposto, bem vestido...acho que lhes enchia o olho. :)
2-Não me lembro já em pormenor da reacção dele. Tenho ideia que foi calma, dominando as eventuais emoções, e entrando logo de seguida numa conversa "normal", do tipo "ólá como estás não te via há muito...."
3- Partindo do princípio que a caixinha onde estava a foto teria sido uma oferta dele (e que caixa e fio seriam de ouro) eu acho que uma mulher do séc XXI já teria rasgado a foto e vendido a caixa e o fio para... (nem vou escrever mais, porque eu, sim, iria ser muito politicamente incorrecto. :)))
4-Não sei se ainda há boémios. Haverá certamente, de acordo com a época. Este senhor era mesmo (ele e o seu pequeno grupo).
5- O menino Carapau, registou o episódio, sem fazer a mínima ideia que um dia o ia contar num blog, quando nem a palavra ainda existia e ainda se comunicava com sinais de fumo...
Abraço tb grande.


De Maria Araújo a 11 de Maio de 2014 às 22:47
Octávio seria aquilo que as mulheres gostam: malandro e bem disposto.
Sendo um boémio, teria grandes qualidades que seduziam as mulheres.
Esttes boémios, naquele tempo, eram os mais fieis, quando encontravam a mulher que gostavam
Acho impressionante como ela nunca se esqueceu dele e o reconheeu.
Quanto ao grito, o quadro, não o conheço
"pessoalmente" e não me convence nada .
Ai, Carapau, como és um bom contador de estórias.
Beijinho




De Carapau a 12 de Maio de 2014 às 17:57
Não sei se serei um bom contador de histórias. Tenho aqui contado algumas e tenho outras tantaas que não posso ou não devo contar.
No caso em questão, os tempos eram outros e mesmo numa grande cidade, havia "pequenas aldeias" onde se passavam coisas que hoje podem parecer espantosas.
bjo.


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