Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2015

Misturas explosivas

Na sequência do post anterior lembrei-me dumas peripécias que aconteceram na minha meninice e que tiveram a ver com fósforos e não só.

Quando andava na escola, teria 7 ou 8 anos, tomei conhecimento com uma “habilidade” que alguém tinha inventado.

Sempre ouvi, enquanto menino, e ainda hoje ouço dizer, que com o fogo não se brinca e a malta miúda estava “proibida” de brincar com fósforos.

Mas quando um miúdo ensina a outro um golpe espetacular feito com fósforos, não há proibição que seja respeitada. Aliás, é da sabedoria dos tempos: há um certo prazer em trocar as voltas a uma proibição.

Vamos então ao caso, que era facílimo de executar. Era preciso um prego, coisa que se arranjava em qualquer lugar (numa aldeia há sempre umas tábuas velhas com pregos mais ou menos velhos também – isto para quem não tinha lá por casa uns pregos) – e umas tantas cabeças de fósforos (bastava uma por cada “experiência”). Em qualquer canto se apanhava uma pedra e assim munidos era só meter mãos à obra: com o prego e a pedra fazia-se um pequeno buraco no asfalto da estrada (então dizíamos “alcatrão” e a estrada era a EN 1 – a estrada com maior movimento no país) e depois metíamos o material constituinte da cabeça do fósforo nesse buraquinho. Tornava a meter-se o prego no buraco e dava-se uma martelada (pedrada no caso) no prego. Obtínhamos assim uma bela pequena explosão. Esse era o gozo. Aquele troço da estrada bem “picado” ficou, ainda que os buracos fossem muito pequenos. Durou a brincadeira uns tempos, toda a malta miúda que andava na escola aprendeu aquela lição e como não era difícil surripiar uns fósforos lá por casa, todos nos tornamos praticantes da modalidade.

Até que um dia a “coisa” começou a perder interesse e deve ter entrado em campo uma outra qualquer brincadeira. Mas eu resolvi “ir mais além”. Pensei então, que se a explosão já tinha piada com uma ou duas cabeças de fósforos “normais”, o que não seria usando de cada vez meia dúzia de cabeças de fósforos, mas dos chamados “de cera”?

Os fósforos de cera não necessitavam de ser riscados na lixa, qualquer superfície servia para, por atrito, se incendiarem. Nos western’s americanos havia sempre uns cow-boys a riscarem fósforos desses, em geral na sola das botas. Uma cena de belo efeito (isto vim a presenciar uns anos mais tarde, naquela altura sabia lá eu o que eram filmes e “cóbois”!).

Portanto lancei mãos à obra: com uns tantos fósforos destes e um prego maior que o habitual (para o buraco ser um pouco maior para acomodar umas 5 ou 6 cabeças desses “fósforos de cera”) estava preparada a explosão que ia calar este mundo e o outro (quero dizer os 3 ou 4 colegas que iam assistir ao evento). “Descabecei” os fósforos, meti o “material” no buraco, agarrei no prego e introduzi-o no buraco para “aconchegar” o material supostamente explosivo e provocar então aquela explosão que ia ficar na história. E ficou.

Só que quem ficou na história fui eu e não a explosão. Quando ainda “apertava” as cabeças dos fósforos no buraco (com o prego) aquela matéria incendiou-se e a chama queimou-me os dedos.

Era evidente (tornou-se depois mais que evidente) que aquilo teria que acontecer, pois aquele material inflamava-se com facilidade.

E de dedos queimados lá tive de regressar a casa, qual rafeiro com o rabo entre as pernas, derrotado.

 

Mais tarde aprendi a fazer pólvora e então houve cenas do mais belo efeito, ainda que o “Jaquinzinho” mais novo fosse quem ficou na história. Quase ainda não andava e também já “fabricava” a “sua pólvora”. Um dia foram dar com ele na casa de banho a fazer montinhos de pólvora que depois incendiava com fósforos. De tal maneira a precocidade do “artista” impressionou “o pessoal” que, durante alguns anos, ficou conhecido como o “Pirotécnico”.

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince

E tu Lince, alguma vez provocaste uma explosão daquelas de ficarem na História?

publicado por Carapaucarapau às 14:03
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8 comentários:
De Maria Araújo a 29 de Janeiro de 2015 às 15:06
Ó Carapau, quantas gargalhadas dei eu!
És demais!
Uma excelente e fofa estória do tempo em que as brincadeiras de rua eram tão saudáveis.
Nem sei por que razão o Sapo nunca te deu o prémio de destaque na página de blogs.
Por vezes, destacam uns quantos sem graça. Mas tu até devias estar no blog dos blogs.
Um grande abraço.


De Carapau a 1 de Fevereiro de 2015 às 15:10
Se te riste fizeste bem, porque dizem que rir faz ao fígado e o figado, dizem os entendidos, é o maestro do físico.
Quanto ao resto...não me interessa nada.
Bjo.


De maria teresa a 29 de Janeiro de 2015 às 22:08
Ó Carapau, ó Carapau ... estou "panfia"... a minha boca ficou aberta de espanto cerca de uma hora, só a fechei porque uma traça tentou uma invasão bucal ... eu sou muita boazinha mas deixar tal entrada, jamais...
Nunca pensei que o menino tivesse essas tendências incendiárias ...

Carapau incendiário
Andava muito enganada
Vou escrever no meu diário
Para não me esquecer de nada

Que desgosto que me deste
Pensava-te bem comportado
Vou emigrar para leste
Para não ficar aluada ( ler aluado)

Lá ao leste eu cheguei
E depressa me aborreci
Vou voltar...apaziguei (que palavra feia)
Vou fingir que nada li

Como não li o teu post
Devo ter algo inventado
És um Carapau...um must
Não podes ser um malvado!

Com amizade me despeço
Neste rimado imperfeito
Só uma coisa eu peço
Não te quero ver desfeito

Beijocas operculares


De Carapau a 1 de Fevereiro de 2015 às 15:34
Eu, pacato e respeitador cidadão
E “experimentalista” afamado,
Sou tratado abaixo de cão
E tremendamente vilipendiado.

Quem disse que sou incendiário
E menino mal comportado?
Fazer experiências no eixo viário
Não é, antes, para ser louvado?

Sim, eu era um tipo avançado,
Analisava com método o “alcatrão”
Não fosse o Estado ter sido aldrabado
Por algum construtor aldrabão!

Hoje todas essas experiências
(Algumas feitas pela amiga Débora)
É que permitem, aplicando ciências,
Mandar gajos prá prisa de Évora.

Claro, fui eu o ignorado inventor
Das modernas técnicas de análise.
Graças a elas, hoje qualquer doutor
Ficaria tão à rasca como eu estou para arranjar rima para análise.

E já que para embrulhar
Tens um jeito especial,
Embrulha-me estas quadras
Em bom papel vegetal.

Podes também embrulhar este bjo.


De GL a 30 de Janeiro de 2015 às 18:48
Estás sentado? Não? Ah, Carapau não se senta? Então está bem.
Ora vamos lá ao que interessa.
Desde quando esses instintos pirómanos? Desde quando essa tendência para ser bombardeiro? Desde quando esse mau comportamento? Desde quando esse gozo para estragar, desde fósforos a pregos, passando por estradas todas catitas?
Ah, tinha feito um acordo com os homens responsáveis pela conservação da dita estradinha?! Logo vi!
Ser pirotécnico era um feito digno desse nome, agora ir - e passo a transcrever - "qual rafeiro com o rabo entre as pernas, derrotado" é que foi muito triste.
E daí?!...
É que o fogo podia ter feito estragos bem maiores, percebeu?
Olhe, aquele abraço.


De Carapau a 1 de Fevereiro de 2015 às 15:43
Se não for pedir muito à menina, pode ler a minha resposra ao comentário anterior?
Nele está explicado todo o trabalho cientifico desenvolvido, algum com risco da própria vida...
Mas tem mais. Naquele tempo, as estradas estavam divididas em "cantões". Cada cantão era conservado pelo respectivo "cantoneiro". Ora um dos meus ajudantes de campo era exactamente um dos filhos do cantoneiro que "matinha" em forma aquele cantão. E o homem foi várias vezes agraciado com a medalha de bons serviços e porquê?
Porque eu (e o filho) o ajudavamos com as nossas experiências.
Entendeu tudo o que deixei escrito?
Então não levante falsos testemunhos.
Abraço com dinamite. :)


De Labirinto de Emoções a 30 de Janeiro de 2015 às 20:53
Pirómano desde pequeno??? Pois é, até que lá queimou os deditos...

Terás tu sido o impulsionador das implosões dos edifícios??

Isso explica a tua tendência escolar... ora agora faz... ora toma lá e deita abaixo...:-)))

Oh Lince, pira-te para longe deste Carapau, senão um dia vais tu pelos ares e nem a alma se te aproveita, se a "mania" lhe volta...(será que lince tem alma?)

Um bj e bom fim de semana


De Carapau a 1 de Fevereiro de 2015 às 15:50
Cal pirómano, cal carapuça!
Um (quase) mártir ao serviço da ciência, isso sim.
Sim, andou "lá" perto quando falou nas implosões nos edificios (e pontes e outras coisas). Foram beber áquelas minhas experiências.
Saber "deitar abaixo" é uma ciência, pois claro. É preciso saber que força dar á rasteira para "deitar abaixo", sem estragar.
Enfim, o tema dava pano para mangas , mas eu hoje tenho outras preocupações, que vão muito para além das mangas... :)
Bjo.


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